Para quem convive com a doença celíaca, encontrar um local seguro para se alimentar vai além de escolher produtos sem glúten. A preocupação com a contaminação cruzada faz parte da rotina de milhares de pessoas que precisam eliminar completamente a proteína da alimentação. Em Criciúma, produtores especializados investem em processos rigorosos para garantir que os alimentos cheguem aos consumidores sem riscos.

Com o objetivo de ajudar o filho, que enfrentava uma inflamação intestinal, Raquel Viana começou a pesquisar alternativas alimentares sem glúten. O que surgiu como uma necessidade da família, acabou se transformando em negócio. A partir do desenvolvimento de receitas próprias, Raquel fundou a Bem Dita Mistura, estabelecimento focado em alimentos sem glúten e voltado principalmente ao atendimento de pessoas celíacas.

Todos os equipamentos utilizados no restaurante e cafeteria foram adquiridos novos, evitando o uso de máquinas que já tiveram contato com ingredientes contendo glúten. Além disso, a equipe monitora fornecedores e rótulos dos produtos utilizados. “Se um ingrediente chega aqui e identificamos que contém glúten ou pode conter traços, não entra no nosso depósito”, afirma Raquel.

A preocupação com a escolha dos fornecedores também faz parte da rotina da Slim Assados, empresa criciumense especializada na produção de alimentos sem glúten e sem lactose. Segundo o proprietário, Gian Reitz, a qualificação dos produtos é uma das principais etapas para garantir a segurança. “O ambiente precisa ser protegido de qualquer contaminação porque estamos lidando com saúde humana”, ressalta.

O cuidado rigoroso também impacta diretamente os custos da produção. Na Bem Dita Mistura, Raquel explica que os ingredientes utilizados possuem valores mais elevados do que os produtos tradicionais. “O custo é, em média, três vezes maior do que o de um produto convencional. Tudo é mais caro e mais difícil de produzir”, destaca.

A realidade é semelhante na Slim Assados. De acordo com Reitz, muitas matérias-primas utilizadas na produção sem glúten são mais caras e, em alguns casos, precisam ser adquiridas de fornecedores especializados. “Algumas das dificuldades de qualquer indústria, é a questão de fornecimento de matéria-prima e qualificação de equipe, o que torna o processo mais caro”, aponta o empresário.

Os cuidados adotados pelos estabelecimentos vão além da produção dos alimentos. A Bem Dita Mistura surgiu da visão de que muitas pessoas celíacas deixavam de participar de momentos simples de convivência por não encontrarem opções seguras para comerem. “O alimento é algo que reúne as pessoas. Nosso objetivo sempre foi criar um lugar onde o celíaco pudesse se sentir em casa, sem medo e sem precisar levar a própria comida”, comenta Raquel.

Dia a dia com a doença

Diagnosticado com doença celíaca há cerca de dez anos, Bruno Sarvalaio, de 19 anos, relata que a preocupação com a contaminação cruzada acompanha sua rotina diariamente. “Chego no mercado e viro o produto ao contrário para olhar o rótulo. Não basta estar escrito ‘não contém glúten’. Também é preciso verificar se pode conter traços de trigo”, explica.

Embora relate que episódios de contaminação não sejam frequentes, Bruno afirma que o risco está sempre presente, especialmente em locais que trabalham simultaneamente com alimentos contendo glúten. “Existem lugares que oferecem opções sem glúten, mas deixam claro que existe contaminação cruzada. Então a pessoa sabe o risco que pode correr”, diz.

Encontrar estabelecimentos especializados representa mais do que uma questão de alimentação. “A sensação de encontrar um local realmente seguro é gratificante. Hoje existem mais opções do que quando recebi o diagnóstico, e isso faz muita diferença”, acrescenta Sarvalaio.