Os shows do grupo coreano BTS ocorrem nos dias 28, 30 e 31 de outubro no estádio Morumbis em São Paulo, e a contagem regressiva reacendeu uma onda de depoimentos entre os fãs. Enquanto se preparam para o show, admiradores do grupo relembram como as músicas e mensagens de amor-próprio do boygroup foram  para superar traumas e fases de vulnerabilidade psicológica, como foi o caso da empresária Jéssica Bernardo e da streamer Juliana Mantinho.

Assim que seu primeiro primeiro filho nasceu, Jéssica se viu focada somente na maternidade. Com o passar do puerpério, a empresária percebeu que sua identidade estava focada somente em ser mãe. “No começo, era só uma sensação estranha. Como se, mesmo com tudo “certo”, ainda existisse um pedaço de mim meio esquecido. Não era falta de amor. Era só ausência de mim mesma”, relata.

Foi quando a paixão pelo grupo BTS apareceu e através desse hobbie a empresária começou a ter um momento só seu e encontrou pessoas com os mesmos gostos. “Pessoas que gostam das mesmas coisas, que se empolgam com os mesmos detalhes, que entendem referências, que sentem parecido. E isso tem um valor enorme, pois isso vem de identificação” conta.

E junto com as conversas leves, risadas espontâneas e sensação de pertencimento, vieram os julgamentos. “Principalmente quando esses gostos não “combinam” com o que esperam da gente. Se você é adulta, mãe e casada, parece que automaticamente se cria uma lista invisível do que seria “adequado” ou “esperado” para aquela fase da vida”, afirma.

Já a streamer Juliana Mantinho conheceu o grupo de K-pop há alguns anos, mas não os acompanhava. “Eu tenho uma amiga que é Army (nome atribuído ao fã-clube) e ela vivia me falando da banda, mas não era algo que me chamava atenção”, conta.

Foi quando em um momento depressivo Juliana assistiu um dorama e logo após começou a aparecer muitos vídeos do BTS no seu Instagram. Com isso, durante momentos de crise de ansiedade, Juliana acompanhava os vídeos do BTS e relata que assistir aos conteúdos o deixava mais calma e menos ansiosa.

Segundo Juliana, um ponto importante de acompanhar o grupo é o fato de também poder aprender enquanto escuta suas músicas. Muitas das letras do grupo ensinam sobre amor próprio, vivências e saúde mental. “Eles também falam muito dos seus problemas pessoais e como lidam com as adversidades, nos incentivando a enfrentar nossas fraquezas também”, conta.

Para os fãs, o grupo sempre surge em algum momento de confronto interno onde se precisa de apoio e conforto, como foi com a estudante de Comércio Exterior, Ana Júlia Ferreira. A jovem conhece o grupo desde criança, mas não os acompanhava por medo de exclusão dos amigos, já que na época o grupo não era tão popular.

Foi em 2024 que Ana resolveu vencer o medo de rejeição e acompanhar algo que há tempos lhe despertava curiosidade. Diagnosticada com depressão funcional e morando há 6 anos longe da família, a jovem sentiu a necessidade de encontrar algo que lhe motivasse e ajudasse a enfrentar os momentos de crise e que esse apoio fosse acessível.

Mesmo sem conhecê-los pessoalmente, Ana relata que existe uma sensação de proximidade muito grande que o grupo constrói com os fãs. “ As lives, músicas, programas, músicas e todos os conteúdos disponibilizados pelo grupo me transmitem muito conforto, acolhimento  até uma distração para os dias difíceis que eu preciso de ajuda”, disse. 

O integrante Namjoon se tornou uma inspiração não só para a estudante como também para o fandom. Após o alistamento militar, o rapper compartilhou com seus fãs que lidou com ansiedade e problemas com o sono. Para Ana, ver alguém famoso e tão admirado falar de suas vulnerabilidades a fez enxergar que antes de serem artistas, eles também são seres humanos que também sofrem, e isso a ajudou muito. 

O impacto psicológico causado pelo grupo

O grupo BTS possui impacto psicológico em seus fãs pela forma em que abordam abertamente temas como ansiedade e pressão social em suas letras. Para a psicóloga Duda Pacheco, é de suma importância que existam artistas de renome internacional, que validem emoções, principalmente as difíceis de serem sentidas.

Para a psicóloga isso estabelece também limites pessoais. “Se permitir sentir e reconhecer todas as emoções cria um repertório emocional maior para a gente poder criar habilidades para a vida, o que é muito importante” afirma a psicóloga.

Portanto, a psicologia positiva trabalha a questão da saúde mental vinculada ao bem-estar. Nessa abordagem, entende-se que qualquer atividade que gere sensação de bem-estar é protetiva para a saúde mental.  “E o BTS tem tido a capacidade de fazer com que as pessoas se sintam bem através das suas músicas, mensagens e até do próprio programa Run BTS” conta Duda.

A psicóloga expõe que já ouviu muitos relatos e já passou por situações onde estava em um dia ruim e para fazer sua saúde mental assistia o programa do grupo, pois o caos divertido retratado na transmissão a trazia memórias importantes em sua vida e o gerava alegria, risadas e coisas benéficas de serem sentidas. 

Como em qualquer hobby, existe uma linha tênue entre o escapismo saudável e a dependência. E para Duda, mesmo que as mensagens do grupo sejam ferramentas válidas de acolhimento, o senso crítico não deve ser deixado de lado. 

Ao parafrasear o jornalista Nelson Rodrigues que dizia que “quem pensa de forma unânime não precisa mais pensar”, a profissional reforça que é importante filtrar e racionalizar o que se é consumido, principalmente em uma sociedade onde os estímulos digitais estão cada vez mais saturados. 

A psicóloga afirma que é preciso extrair tudo aquilo que faz sentido para o dia a dia da pessoa. “A partir do momento em que perco essa capacidade de racionalizar o que me é entregue, surge a necessidade de que o outro me diga o que pensar, fazer ou como agir.” explica. 

Perder a capacidade de questionamento pode gerar impactos diretos nas atividades e nas relações pessoais. Por isso os especialistas apontam que o verdadeiro “amor-próprio” promovido pelo grupo coreano passa  pelo fortalecimento do autoconhecimento de cada indivíduo.

Campanha em conjunto com a UNICEF

A parceria entre o grupo sul-coreano e a UNICEF (em português Fundo das Nações Unidas para a Infância) começou em 2017 com a campanha Love Myself. Focada em combater à violência, negligência, bullying e promover a autoestima, a campanha gerou milhões de dólares em doações, discursos históricos na ONU e ajuda na saúde mental dos jovens. 

A campanha foi lançada em outubro de 2017 e foi inspirada nos 3 álbuns do grupo chamados Love Yourself, baseados no que o amor começa em amar a si mesmo. A colaboração obteve resultados globais e reforçou o alcance da mensagem de forma positiva. 

Além disso, a campanha conseguiu arrecadar mais de US$ 6,6 milhões para a proteção e o bem-estar de crianças, 126 milhões de pessoas foram ajudadas através de apoio à saúde mental e as ações com os fãs engajaram mais de 50 milhões de pessoas. 

No ano seguinte, RM o líder do grupo, discursou na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, onde incentivou os jovens a se abrirem para falar por si mesmos. Em 2021, o BTS e a gravadora renovaram a campanha com  uma doação de US$ 1 milhão, além de doar 100% dos lucros da linha de produtos  LOVE MYSELF

Matéria produzida por Mariana Duarte.