Em uma cidade onde o futebol domina tradicionalmente o coração e os holofotes, um projeto social esportivo vem transformando a vida de jovens e exportando talentos para o cenário internacional. O símbolo mais recente dessa história é João Gabriel Gekas, pivô de 24 anos que hoje atua no handebol da Macedônia do Norte.

De origem humilde e sem recursos iniciais, a história de Gekas iniciou sua jornada aos nove anos na escola sob os treinamentos do professor José Manuel Joaquim. No início, o esporte era apenas uma das atividades extracurriculares que sua mãe utilizava para João gastar energia e se manter sempre ocupado.

Seu sonho original era o futebol, mas o esporte logo se mostrou uma alternativa um tanto inviável. “Para jogar futebol, precisava de uma chuteira de 500 reais, uniforme e deslocamento. Para o handebol, eu só precisava de força e vontade. Comecei com um tênis de futsal e uma camiseta do Brasil “, relembra o atleta.

A virada de chave aconteceu em meados de 2016, quando chamou a atenção de um técnico da SATC em um jogo. Ali, o handebol de alto rendimento entrava definitivamente entrando em sua vida.

Há alguns anos, o handebol masculino enfrentou preconceitos e dificuldade em obter registros. Gekas recorda que em 2019 chegou a marcar 17 gols em uma partida oficial, mas por falta de cobertura e redes sociais estruturadas na época, não possui nenhum registro do feito. “Hoje em dia todo mundo consegue mexer em mídia social e tudo mais, antes era um pouco mais difícil”, afirmou.

A virada de chave

A oportunidade de jogar de forma profissional surgiu após a conquista do título da Olesc (Olimpíada Estudantil Catarinense). Em 2019, aos 17 anos, Gekas foi convidado para um teste no tradicional time paulista Esporte Clube Pinheiros. Mas para ser aceito, precisou encarar a mudança de posição de  lateral-esquerdo para pivô.  

A mudança para a capital paulista exigiu sacrifícios de João Gabriel e da sua família. Para mantê-lo na cidade, já que ficaria quatro meses sem salário, seus pais e seu avô se desdobraram em fazer horas extras em Criciúma. 

Gekas superou a saudade, a rotina pesada e as incertezas da pandemia de Covid-19 em 2020, onde precisou treinar isolado nas ruas e pela madrugada para posteriormente, ser eleito o melhor pivô de base do país. “Quando fechou tudo, a gente veio pra casa, eu lembro que eles falaram que seria uma semana de pausa. Eu vim com uma mochila só de roupa e não imaginava que ia ficar três ou quatro meses em casa” afirmou.

Após uma boa temporada na categoria adulto já no São Caetano, o mercado europeu se abriu por meio de um agente de esporte da Sérvia com o destino inicial sendo a Grécia. 

O jovem começou a usar a plataforma Duolingo para se aperfeiçoar no idioma. O que no começo era difícil a comunicação, com poucos dias já não era uma barreira devido a sua força de vontade em superar mais uma barreira. “O time todo falava em inglês e eu entendia pouca coisa, mas estudei todo dia e em menos de um mês já conseguia entender muita coisa” , conta. 

Mesmo com incertezas que o esporte profissional apresenta, os planos do atleta para o futuro mantêm os pés firmes no chão, e de preferência, dentro das quadras. A verdadeira vocação do jovem sempre esteve voltada ao esporte. “Minhas duas vontades sempre foram trabalhar com esporte, ou como professor de Educação Física, ou como fisioterapeuta”, relata.  

Hoje, consolidado no handebol europeu, o pivô criciumense é prova de que força de vontade e apoio familiar podem romper fronteiras geográficas e sociais. A trajetória de João Gabriel Gekas não apenas coroa o sucesso de um projeto social como também serve de espelho para jovens que assim como ele aos nove anos, precisam apenas de uma oportunidade. 

Para o atleta, o maior conselho que pode deixar para as gerações futuras é o foco e a resiliência, além de acreditar na trajetória. “Essa é a principal coisa que tem que fazer. Independente se não for virar atleta, mas se quiser ser uma pessoa bem-sucedida na vida, tem que acreditar que dá e tem que correr atrás agora, com todas as forças” relatou Gekas.

Foto: Mariana Duarte / Redação Unisatc