Há quatro anos, a família de Luciana Fogaça ganhou um novo integrante. Pequeno, branco e cheio de energia, Mike, da raça Akita, chegou ainda filhote e transformou a rotina da casa. Três anos depois, veio Violeta, uma vira-lata sobrevivente de uma ninhada atingida por uma doença viral e resgatada por uma ONG de Criciúma. 

Desde então, os dois cães passaram a ocupar um espaço que vai muito além do papel tradicional de animais de estimação. “Hoje eu não vejo a gente sem o Mike e a Violeta. Eu não sei como seria aqui em casa sem os dois. Eles são pets, mas são como meus filhos. A gente trata como se fosse membro da família. São o amor das nossas vidas”, conta Luciana, de 45 anos, moradora de Meleiro.

As viagens passaram a ser planejadas considerando quem cuidaria deles. A rotina da casa, composta por Luciana, o marido Adilson e a filha Alice ganhou novos horários. Os momentos de descanso passaram a incluir patas, pelos e companhia constante. “Antigamente era só nós três: eu, meu pai e minha mãe. Agora somos nós cinco: eu, o pai, a mãe, o Mike e a Violeta”, ressalta Alice, de 20 anos

Como acontece em milhares de lares brasileiros, Mike e Violeta deixaram de ser apenas animais de companhia para se tornarem parte da estrutura afetiva da família, um fenômeno cada vez mais comum no país. 

Enquanto o número de filhos por residência diminui, a presença de animais de estimação cresce. Dados do Instituto Quaest mostram que o tamanho médio das famílias brasileiras caiu de 3,62 pessoas em 2003 para 2,8 em 2022. No mesmo período, a quantidade de pets alcançou uma média de 2,3 animais por domicílio.

De acordo com a psicóloga Helena Vicente, esses números são reflexo das escolhas de uma sociedade cada vez mais acelerada, e que está em busca de formas de afeto menos complexas. 

“Os animais acabam ocupando um lugar de afeto muito significativo. Porque eles vão oferecer presença, acolhimento e uma relação vista como muito mais segura e muito menos complexa do que diversos vínculos humanos, inclusive filhos”, ressalta. 

“Saíram do quintal e foram para dentro de casa”

No apartamento onde vivem Adriana Silva, de 32 anos, e o companheiro William de Andrade, a história não é muito diferente. O casal criciumense divide a vida com Lucy, de 12 anos, e Sr. Frodo, de quase 14, dois gatos que estão entre os 160 milhões de animais domésticos presentes no Brasil. 

Os dados são de 2024, do levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), e mostram também o país na terceira posição mundial em população pet.

Mas os números contam apenas parte da história. Lucy foi adotada ainda filhote. Frodo apareceu abandonado na rua e acabou sendo resgatado. Quando Adriana e William passaram a morar juntos, os dois gatos também vieram na mudança. Hoje, fazem parte da rotina do casal em todos os sentidos.

“Se a gente vai viajar, sente saudade deles. Chega em casa e já espera ver eles. Eu fico conversando com os gatos. Eles estão sempre no ambiente onde a gente está. Para a gente, são família”, relata Adriana.

Mesmo com a fama de independentes, os dois felinos encontraram maneiras próprias de demonstrar afeto. “Se o William deita na cama, o Frodo vai atrás para dormir junto. A Lucy gosta de sentar no colo. Eles procuram a gente o tempo todo”, destaca a tutora.

Quem acompanha essa transformação há anos é a voluntária da ONG SOS Vira-Lata, Nilda Rosso. Segundo ela, aumentou significativamente o número de jovens adultos que moram sozinhos, casais sem filhos, idosos em busca de companhia e pessoas que se identificam como pais de pets.

“Os animais saíram do quintal e foram para dentro de casa. Muitas vezes dormem na cama com os tutores. Eles têm rotinas de lazer, aniversários, planos de saúde e são levados em consideração no planejamento de férias e até na escolha de um novo imóvel”, pontua.

Adriana e William não têm filhos, mas ela explica que não vê nos gatos uma substituição desse vínculo. “Eles trazem carinho e até suporte emocional. Acho que a casa ficaria sem vida sem os gatos. Acredito que existe uma semelhança com filhos no sentido do cuidado, mas não sei se chamaria exatamente de filhos. Vejo mais como uma amizade e como sendo da família”, comenta.

“Eles representam a minha estada aqui nesse mundo”

Se para algumas pessoas os pets ocupam um espaço importante na rotina, para outras eles se tornam verdadeiros pilares emocionais. É o caso de Ivone de Oliveira, de 57 anos. Hoje, a voluntária na proteção animal divide a casa com 11 cães resgatados. Ao longo dos anos, mais de 300 animais passaram por suas mãos entre resgates, tratamentos e adoções.

Ela conta que antes de ter sua primeira cachorra vivia sozinha, trabalhava o tempo todo e carregava uma sensação constante de vazio. “Eu tinha pouca vontade de viver. Vivia triste. Trabalhava e voltava para casa. Quando chegou a Melzinha, tudo começou a mudar.” A cachorra, adotada há quase duas décadas, foi a primeira de uma longa história.

Cada um dos cães resgatados chegou carregando uma história. Uma delas é a de Lyon, encontrado atropelado em frente a uma escola. O cão permaneceu dias sem receber ajuda até ser resgatado por Ivone. “Achei que alguém já tivesse socorrido. Quando descobri que ele continuava lá, fui buscar. Acabou perdendo uma perninha e ficou comigo”, relembrou Ivone.

Hoje, Lion é um dos filhos que ocupam o quintal e o coração da protetora. “Eles representam a minha estada aqui nesse mundo”, relata. Hoje, sua rotina gira em torno deles. Ela organiza as medicações, alimentação, passeios e consultas veterinárias. “Eles são minha força para trabalhar. Minha força para continuar”, conta a protetora.

De acordo com a psicóloga Helena, os pets podem ser ótimas companhias para pessoas que vivem sozinhas. “Os animais vão oferecer uma experiência de afeto que não tem julgamento, é uma presença constante. Eles trazem essa sensação de companhia e diminuem o sentimento de solidão. Muitas pessoas relatam que os pets ajudam a atravessar diversos períodos difíceis”, explica.

Helena explica que a convivência diária cria pequenas responsabilidades que acabam produzindo grandes efeitos psicológicos. O alerta surge apenas quando toda a vida emocional passa a depender exclusivamente daquela relação. A psicanálise chama isso de projeção afetiva.

A observação ganha ainda mais relevância em um momento histórico marcado por mudanças profundas na forma como as pessoas se relacionam. “As redes sociais criaram a sensação de proximidade, mas também fortaleceram a cultura da performance. Todo mundo parece feliz, produtivo, realizado. Isso gera desconexão e dificulta relações mais profundas”, acrescenta a psicóloga.

“Hoje os tutores se comportam como pais de fato”

Nas clínicas veterinárias, a relação afetiva cada vez mais profunda entre pets e tutores também fica clara. O médico veterinário Mateus Berlinck observou de perto essa mudança de comportamento nos últimos anos. “Hoje os tutores são bem mais preocupados com seus pets. O pet está se tornando cada vez mais um membro da família. Os tutores se comportam como pais de fato”, pontua.

A mudança emocional veio acompanhada de uma transformação prática. Os animais passaram a receber cuidados que, até poucos anos atrás, eram raros na rotina da maioria das famílias. 

Consultas preventivas, exames periódicos, vacinas, medicamentos de última geração, alimentação especializada, enriquecimento ambiental e até planos de saúde pet se tornaram cada vez mais comuns. Como destaca o veterinário:

“Sem dúvida os serviços de prevenção cresceram muito. Hoje o tutor já procura fazer vacinas, antiparasitários, vermífugos e acompanhamentos regulares. Existem inclusive planos de saúde voltados aos animais”, observa Berlinck.

A expansão desse mercado acompanha uma mudança de mentalidade. Entre 2002 e 2018, o percentual de famílias brasileiras que declararam despesas com animais de estimação praticamente triplicou, passando de 11,72% para 30,27%, apontaram dados das Pesquisas de Orçamentos Familiares (POF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE).

Para Mateus, o resultado dessa evolução aparece diretamente na longevidade dos animais. “Antigamente a expectativa de vida de um cão era de seis ou sete anos. Hoje vemos cães passando dos 20 anos e gatos vivendo mais de duas décadas. O pet está se tornando cada vez mais um membro da família, e isso é positivo porque aumenta os cuidados”, afirma.

Se a humanização dos pets se tornou uma das marcas da sociedade contemporânea, especialistas alertam que ela também exige equilíbrio. Existe uma linha tênue entre cuidado e excesso. “O cachorro ainda é um cachorro e o gato ainda é um gato”, comenta o veterinário.

Segundo ele, alguns comportamentos acabam desrespeitando as necessidades naturais dos animais. “A humanização é benéfica quando melhora a qualidade de vida do pet. O problema é quando o ser humano tenta transformar completamente aquele animal em algo que ele não é”, conclui Berlinck.

“Não basta achar bonito e levar pra casa”

A Violeta, a Lucy e o Sr. Frodo e os 11 gatos da Ivone, todos eles têm algo em comum: foram resgatados e adotados. O amor começa desde o momento adoção e deve crescer ao longo da vida dos pets. Segundo o veterinário Mateus Berlinck, o principal é entender que é uma vida.

“Não basta achar bonito e levar para casa, mas depois não ter condições de cuidar desse pet, porque as coisas envolvem custos e às vezes acaba se tornando algo impraticável”, argumenta.

A voluntária Nilda vê esse cenário diariamente nas feiras de adoção da SOS Vira-Lata. Por isso, o processo de adoção se tornou cada vez mais criterioso. “O objetivo não é dificultar. É garantir que o animal não seja devolvido ou abandonado depois”, ressalta.

Se por um lado os animais conquistaram espaço dentro das casas, por outro a realidade das ruas continua lembrando que nem toda história termina em finais felizes. A experiência da Nilda e da Ivone mostra que o crescimento do afeto pelos pets convive com uma contradição preocupante: o abandono permanece uma das principais causas de sofrimento animal no país.

“A conscientização aumentou muito. Hoje as pessoas têm mais acesso à informação sobre castração, vacinação e bem-estar animal. Mas o abandono continua em níveis alarmantes”, afirma Nilda.

Segundo ela, os motivos são variados. Férias de fim de ano, dificuldades financeiras, mudanças de residência, nascimento de filhos, envelhecimento dos animais ou simplesmente o fato de o filhote crescer e deixar de ser novidade. “Quando o animal começa a dar trabalho, destruir móveis, latir ou precisar de tratamento médico, algumas pessoas desistem”, lamenta a voluntária.

Porque se existe algo que une todas essas histórias, é a compreensão de que o vínculo pode ser afetivo, emocional e até familiar. Mas ele também exige responsabilidade. 

Da sala de casa ao Congresso Nacional

O crescimento da importância dos pets na vida dos brasileiros já ultrapassou os limites das casas, dos consultórios veterinários e das redes sociais. Chegou ao Congresso Nacional.

Em agosto de 2025, foi apresentado o Projeto de Lei nº 3915, de autoria do senador Irajá (PSD-TO), que propõe a criação do Dia Nacional dos Pais e Mães de Pets. A data sugerida é 4 de outubro, mesmo dia em que se celebra São Francisco de Assis, padroeiro dos animais.

A proposta busca reconhecer oficialmente milhões de brasileiros que hoje se identificam como pais e mães de seus animais de estimação. O projeto ainda tramita no Senado Federal, mas sua existência simboliza uma mudança cultural que já está consolidada na sociedade.

O conceito de “pet parenting”, ou parentalidade pet, ganhou força nos últimos anos justamente para definir essa relação de cuidado, responsabilidade e vínculo emocional profundo entre tutores e animais.

Embora especialistas ressaltem que a experiência não substitui necessariamente a maternidade ou a paternidade humana, o fenômeno revela novas formas de construção familiar. Em maio de 2026, entrou em vigor a Lei n° 15.392, que regulamenta a guarda compartilhada de animais de estimação em casos de separação.

A norma determina que, quando o animal tiver convivido durante a maior parte da vida com o casal, ele será considerado propriedade comum. Caso não exista acordo, o juiz poderá estabelecer guarda compartilhada e divisão das despesas.

Custos cotidianos, como alimentação e higiene, ficam sob responsabilidade de quem estiver com o animal naquele período. Já despesas veterinárias, medicamentos e internações devem ser divididas igualmente.

A legislação também prevê situações em que a guarda compartilhada não será permitida, como casos de violência doméstica ou maus-tratos ao animal. Nesses cenários, a posse pode ser transferida integralmente para a outra parte. Mais do que uma mudança jurídica, a lei revela uma transformação simbólica. 

Hoje, a legislação reconhece que existe um vínculo afetivo cuja ruptura exige regras próprias. É mais um sinal de que os pets ocupam um lugar cada vez mais próximo do conceito contemporâneo de família.

Ao final do dia, eles estarão lá

Quando chega em casa, Adriana encontra Lucy e Frodo esperando em algum canto do apartamento. Às vezes no sofá, às vezes na cama, às vezes apenas dividindo o mesmo espaço em silêncio.

Ivone também já sabe o que a espera ao final do dia. Onze cães que fazem da chegada dela um momento sempre movimentado, independente do cansaço da rotina.

Na casa de Luciana, o cenário não é diferente. Mike e Violeta acompanham cada parte do dia, seguem os passos da família e transformam a convivência em uma rotina compartilhada, ninguém circula sozinho.

As histórias são diferentes, mas todas apontam para a mesma direção. Entre campanhas de adoção, planos de saúde pet, disputas judiciais por guarda e projetos de lei, o país vive uma mudança silenciosa (ou cheia de latidos e miados) na forma de construir vínculos afetivos.

Os animais continuam sendo cães, gatos e outros companheiros domésticos, mas o espaço que ocupam na vida das pessoas já não cabe apenas na definição de “animal de estimação”.

Em um país onde as famílias mudam de formato, diminuem de tamanho e reinventam suas relações, eles passaram a ocupar um lugar reservado aos vínculos mais importantes. Para alguns, são companhia. Para outros, filhos. Para muitos, simplesmente família.

A conclusão é que, ao sair de casa todos os dias, Ivone tem a certeza de que não importa a hora em que volte: os onze cães estarão lá, esperando a chegada da “mãe” como se o mundo só fizesse sentido quando ela atravessa a porta.

Matéria produzida pelos acadêmicos João Gabriel da Rocha, Luiz Fernando Becker e Lutheska Fogaça