A decisão de assumir as curvaturas naturais de seus próprios cabelos e abandonar de vez as químicas alisantes é um passo especial e para muitas pessoas, difícil de ser tomado. A transição capilar serve principalmente para voltar a ter o cabelo natural em caso de cabelos ondulados, cacheados ou crespos e é realizado quase que estritamente por mulheres.

O lockdown total da pandemia, fechamento de salões e isolamento social contribuíram para que muitas mulheres optassem por interromper o uso de químicas alisantes, mas o caso da cabeleireira Natália, sua transição capilar começou anos atrás. Com os cabelos crespos e volumosos desde a infância, a profissional decidiu alisar seus cabelos em 2015 com 12 anos e um dos principais motivos foi o bullying que sofria na escola.

Foram dois anos fazendo botox capilar até que na última química o resultado não foi o esperado: “Eu queria e esperava que meu cabelo ficasse muito liso, com cara de natural, mas ele ficou com os cachos esticados e sem vida” contou Natália. Isso foi o suficiente para que decidisse abandonar de vez o alisamento e aprender a cuidar do seu cabelo de forma correta.

Imagem de arquivo pessoal

Foram quase três anos até seu cabelo voltar à curvatura natural e durante esse processo Natália sentiu falta de profissionais empáticos que entendessem realmente o que queria. “Fiquei quase três anos em transição porque eu não queria cortar. Todo mundo dizia para ir tirando as pontas que já estava feio”, relatou.

Depois de ter realizado o big chop, processo de corte onde retira totalmente as partes ainda alisadas, Natália começou estudar mais sobre cabelos com curvaturas até decidir se tornar cabeleireira em 2022. Uma das motivações da jovem foi levar empatia e acolhimento a cada pessoa que decide passar pela transição capilar. “Já é um momento difícil ver o cabelo com duas texturas, mexe muito na autoestima da gente, porque não querer se tornar um profissional que não apenas atende mas também acolhe?”, afirmou Natália.

Imagem de arquivo pessoal

A ruptura forçada e o recomeço

A história da professora e secretária acadêmica, Bianca Trein, foi um tanto diferente. Em 2014, os cabelos longos e lisos que eram marca registrada deram lugar a um trauma e uma transição capilar forçada. A beleza dos cabelos vinham acompanhados de uma rotina química iniciada ainda na pré-adolescência.

Depois de 12 anos ininterruptos de alisamentos, a decisão de abandonar a química não começou como uma escolha consciente pelo natural, mas sim como consequência de um corte químico severo. A transição de Bianca começou depois de sua profissional de confiança sugerir fazer um procedimento extra para reduzir o volume do cabelo antes de alisar.

Sob a promessa da cabeleireira de que “não haveria problema misturar químicas”, ela realizou um relaxamento com guanidina, produto para retirar o volume dos cabelos, na sexta-feira à noite e logo no sábado, aplicou uma escova progressiva. Após realizar a lavagem dos cabelos no dia seguinte, Bianca percebeu que seus fios estavam elásticos e logo começaram a quebrar. “Meu cabelo foi caindo com a lavagem.Tive partes mais compridas que ficaram nos ombros e nas mais curtas, restaram apenas três dedos de raiz” contou a professora.

Imagem de arquivo pessoal

Ao ver que seu cabelo estava completamente destruído, Bianca entrou em desespero e decidiu que não teria outra alternativa a não ser esperar que seus cabelos crescessem. “Eu fui levando. O momento mais difícil foi as pessoas da igreja onde eu congregava e que me conheciam, aceitarem que eu não tinha cortado o cabelo e sim tinha passado por um corte químico e pra muitas pessoas até hoje isso é mentira” contou. 

Texturização com papel alumínio, coques, tranças e bigudinhos foram aliados na transição que durou um ano e nove meses. Como Bianca era de uma igreja conservadora e não podia cortar as partes alisadas que restaram, a jovem teve que inovar para seguir a transição capilar. 

Depois de passada a transição, Bianca percebeu que não foi apenas uma mudança na textura dos cabelos, mas sim de vida. “O processo me ensinou a me olhar com amor e respeito e que Deus não faz nada feio” relatou.

O olhar de quem atende e acolhe nas bancadas

Na maioria das vezes, as vivências de quem decide passar pelo processo encontram a fazendo do outro lado do espelho dos salões. Para a cabeleireira Cris Corrêa, que atua em Criciúma (SC), o próprio início de carreira com foco em cabelos com curvatura partiu da sua transição capilar em 2020, durante a pandemia.

Em busca de qualificação profissional, Cris enfrentou um mercado ainda centrado em cabelos lisos e precisou buscar especializações fora de seu estado de origem. “Minha maior barreira foi a escolha do profissional para me treinar. Todos os meus cursos e formações são de São Paulo, pois na minha região não identifiquei ninguém com o perfil e a identidade adequados para esse ensino”, relata. 

No cotidiano com as clientes, a profissional preza pela boa conversa e alinhamento de expectativas. Longe das regras engessadas, Cris aborda dilemas como realizar o big chop com poucos meses de transição ou manter cortes graduais, respeitando a autonomia de quem senta em sua cadeira. “Aqui nada nunca será uma regra. Se a cliente está disposta a fazer o big chop, estarei aqui prontamente. Se quiser esperar, também estarei aqui acompanhando cada passo e cada corte para esse momento ser o mais leve possível”, afirma.

A pressão estética, cobranças no ambiente de trabalho e os comentários desagradáveis muitas vezes feitos por pessoas próximas são apontados por Cris como gatilhos mais frequentes durante o processo de transição capilar. Nesses momentos, a escuta ativa precisa prevalecer sobre qualquer julgamento técnico.

Quando a transição se finda, os momentos de revelação da textura do cabelo no lavatório e no espelho firmam o propósito de espaços dedicados para esse público. À frente de um salão gerido por um casal de mulheres e direcionado exclusivamente ao atendimento feminino com forte presença do público LGBT+.

Cris afirma a gratidão dos anos trabalhados e das pessoas que pode ajudar: “Durante os anos eu vi diariamente cabelos que a cliente nem sequer sabia que existia ali uma possibilidade de ter curvatura. É gratificante demais ver isso nos olhos delas quando se olham no espelho, seja em lágrimas, susto ou risadas. Nosso maior propósito aqui sempre foi esse, atender com amor” destaca a profissional.

Imagens: Mariana Duarte

Matéria produzida por Mariana Duarte