Vozes elevadas, comunicação falha e discussões que partem para o físico. Do outro lado, uma criança, em silêncio, tenta entender tudo o que está acontecendo. Crescer em um ambiente marcado pela violência doméstica, foi, por anos, a realidade de *Eloisa, de 19 anos. Muitas vezes invisibilizadas, as vítimas indiretas não apenas presenciam os conflitos, mas absorvem, sentem e carregam as marcas dessas experiências.
Aos três anos, Eloisa ganhou o que considerava o melhor presente possível: um irmão mais novo. A chegada de *Vitor trouxe alegria para a menina, mas também marcou o início do período mais doloroso de sua infância.
Filha de *Naiara e *Gustavo, Eloisa já estava acostumada a presenciar discussões constantes entre os pais. No entanto, após o nascimento do irmão, os conflitos se intensificaram. As brigas passaram a ser frequentes e mais agressivas, e, enquanto isso, Eloisa observava tudo, com medo de seu pai machucar a esposa e o bebê.
Os episódios de violência eram acompanhados de xingamentos direcionados a família inteira. “Quando crescer, ele vai gostar de homem”, era o que Gustavo afirmava sobre o filho, ainda nos primeiros meses de vida. Naiara reagia às ofensas tentando defender Vitor, o que fazia a tensão aumentar ainda mais. Enquanto isso, Eloisa observava tudo, aflita e confusa.
Quando o menino completou um ano, começaram os primeiros sinais de que algo estava errado: dores de cabeça que não aliviavam com remédios, vômitos frequentes e dificuldades para andar em linha reta.
O casal foi em busca de respostas, mas os médicos não conseguiam descobrir o que causava tanto mal-estar no bebê. Enquanto isso, Eloisa observava tudo, preocupada com a saúde do irmão.
Mesmo diante da fragilidade do filho, Gustavo continuava agindo de forma agressiva. Durante o ponto alto de suas revoltas, ele ameaçava as crianças fisicamente e Naiara, por sua vez, protegia os filhos. Enquanto isso, Eloisa observava tudo, insegura em seu próprio lar.
Exausta emocionalmente, Naiara decidiu pedir o divórcio com o apoio da família. A separação, no entanto, trouxe novos desgastes: a divisão de bens, a venda da casa e todas as burocracias decorrentes da separação, fazendo com que o caso ficasse ainda mais delicado. Pouco tempo depois, Vitor recebeu o diagnóstico de câncer no cérebro e faleceu.
A perda do irmão marcou profundamente a vida de Eloisa e, além do luto, permaneceram as cicatrizes emocionais de anos convivendo com a violência. Hoje, mesmo após 16 anos, ela ainda enfrenta os reflexos do passado, tornando-se mais sensível a situações de tensão e convivendo com crises de ansiedade desde a infância.
Naiara conseguiu reconstruir a vida. Gustavo nunca foi denunciado e, por isso, não sofreu consequências judiciais. Atualmente, ele constituiu uma nova família e não mantém contato com a filha.
Histórias como a de Eloisa revelam que a violência doméstica não atinge apenas quem sofre as agressões diariamente: os filhos também se tornam vítimas desse ciclo, mesmo não sendo o alvo principal. Embora muitas dessas crianças cresçam em silêncio, a legislação brasileira reconhece que elas também precisam de proteção e acolhimento.
*Nomes fictícios
Proteção que vai além da vítima direta
Inserida em um ambiente marcado pela violência doméstica, a vítima indireta também sofre consequências físicas, psicológicas e até financeiras decorrentes das agressões. Confira os tipos de violência conforme dados divulgados pelo Instituto Maria da Penha (IMP):

Segundo dados do Senado Federal, 3,7 milhões de brasileiras foram agredidas no último ano. Em 71% dos casos, as agressões aconteceram na presença de outras pessoas e, dentro deste grupo, em 79% das situações eram os próprios filhos que presenciaram a violência, como o caso de Eloisa, citado anteriormente.
Nesse viés, a advogada Mariele Rodrigues, afirma que a proteção legal já acompanha essa compreensão mais ampla e, de certa forma, humana. “A medida protetiva não existe apenas para proteger a mulher, mas também pode, e deve, alcançar os filhos quando há risco”, explica. Ela ainda destaca que o próprio Judiciário reconhece que, em muitos casos, proteger a mãe é também garantir a segurança das crianças.
O artigo 5º do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) garante que nenhuma criança ou adolescente seja objeto de qualquer forma de negligência e violência. “É importante reforçar esse cuidado ao assegurar o direito ao desenvolvimento em um ambiente seguro”, frisa a advogada.
Além disso, a especialista incentiva a busca por ajuda tanto psicológica, quanto jurídica, e, sempre que possível, guardar provas e divulgar canais de apoio. “Acima de tudo, é fundamental respeitar o tempo da vítima. Romper com um ciclo de violência não é simples, é um processo que exige cuidado, suporte contínuo e compreensão”, diz.
Como denunciar?
Em Criciúma, em casos de violência doméstica, a denúncia pode ser feita pelo Disque 100, pela Delegacia de Proteção à Mulher e pelo Ministério Público. Também é possível procurar qualquer serviço da rede de assistência social do município, onde a vítima recebe acolhimento e é encaminhada ao Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), responsável por orientar e acompanhar cada caso de forma mais específica.
Além dos canais formais de denúncia, também existe o sinal de socorro feito com a mão: a pessoa levanta a palma aberta, dobra o polegar em direção à palma e fecha os demais dedos sobre ele, formando um gesto que pode indicar pedido de ajuda em situações de violência.

Denunciei, e agora?
Diante da violência doméstica, dar o primeiro passo e realizar a denúncia é apenas o início desse processo que envolve acolhimento e proteção. A Secretaria de Assistência Social do município atua no atendimento de mulheres em situação de violência por meio de uma equipe multidisciplinar, que inclui a assistência social e a psicologia.
De acordo com a assistente social Mariela Renato Paseto, o encaminhamento fornecido a cada vítima varia de acordo com as necessidades apresentadas.
“Existem alguns casos em que a vítima não é da região e deseja retornar à sua cidade de origem devido a situação vivenciada. Nesse cenário, providenciamos encaminhamentos para a concessão de passagem, atendimento psicológico e suporte diante da vulnerabilidade financeira”, explica a especialista.
Ainda segundo Mariela, o atendimento também se estende à família da vítima, especialmente quando há crianças e adolescentes envolvidos. O fluxo de acolhimento dentro da rede pública é organizado por meio de um protocolo de atendimento à mulher.
“Em casos de violência física, por exemplo, o encaminhamento segue para serviços específicos. Já em situações de violência psicológica, a orientação pode ser direcionada à área da saúde, entre outros atendimentos especializados”, reforça a assistente social.
Nova alternativa de acolhimento em Criciúma
Em complemento a essa rede de apoio, o município está finalizando o projeto de uma casa abrigo para mulheres vítimas de violência em Criciúma e região. De acordo com a secretária de assistência social Dudi Sônego, a iniciativa atende uma demanda antiga do município e tem como objetivo oferecer um espaço mais adequado de acolhimento.
“A casa que alugamos está passando por adequações de acessibilidade e, posteriormente, será mobiliada para abrigar essas mulheres, muitas vezes acompanhadas de filhos e dependentes”, revela Dudi. Atualmente, o atendimento ainda ocorre por meio de uma hospedagem temporária e acompanhamento da equipe do Creas, formada por assistentes sociais e psicólogos.
“Sabemos que não é o modelo mais adequado. Com o abrigo, conseguiremos oferecer mais proteção, dignidade e condições para que essas mulheres recomeçem suas vidas”, destaca a assistente social. Enquanto a casa abrigo não entra em funcionamento, as vítimas podem buscar apoio por meio dos diferentes canais de denúncia e atendimento citados acima.
Um olhar para dentro: cicatrizes internas doem tanto quanto as externas
Apesar da singularidade de cada vítima indireta, todas elas compartilham de uma mesma cicatriz: “o trauma não curado”, conforme a psicóloga Beatriz Bento. É por meio de padrões apreendidos, crenças disfuncionais e vínculos familiares conturbados que surge o estado constante de alerta.
Causar dano emocional ao gênero feminino, prejudicando ou perturbando seu pleno desenvolvimento, configura o crime de violência psicológica contra a mulher, conforme o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios.
Para Beatriz, os reflexos da violência se manifestam de diferentes maneiras nas vítimas indiretas. Entre elas, a reprodução de padrões familiares, tanto do agressor quanto da vítima direta, uma das situações mais recorrentes. “É feito de maneira inconsciente”, reflete.
Por meio do acompanhamento psicológico, de acordo com a especialista, essas vítimas podem encontrar lugares seguros para organizar os pensamentos, reconhecer padrões que precisam ser rompidos e desenvolver maior autoconhecimento. “As consultas também auxiliam na identificação de pontos fortes e na construção de estratégias para enfrentar e sair dessas situações”, explica a psicóloga.
Reportagem produzida pelas acadêmicas do curso de Jornalismo da UniSATC: Gabriela Alexandrino, Gabriela Santana e Laura Brehm.
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