O tempo é cíclico. Essa máxima de muitas culturas africanas nunca fez tanto sentido para retratar à própria história. Afinal, tentaram apagar desumanamente todos os seus registros, mas que de tão forte e potente, mesmo tendo passado séculos e convivendo com resquícios de uma dor que persiste de outras formas e deve durar mais séculos, essa história não se apaga. Ela nasceu, um povo lindo desabrochou, tentaram e tentam silenciar as pessoas e tudo o que representam, mas hoje o ciclo se cumpriu. A vida social se reproduz. É tempo da colheita. A história dessas pessoas foi retomada por quem realmente pode e deve contá-las: Eles mesmos.
O tempo é rei. Soberano e de justiça implacável. Ele é quem modifica, é capaz de cicatrizar, de fazer o certo pelo certo. Essa é a sua maior majestade. Quando uma pessoa negra é posta em papel de destaque, com todo o peso que isso contempla, ela carrega junto os seus ancestrais. Mas talvez uma pergunta pertinente seja: quem são estes ancestrais? Dizer que a sociedade (supremacia branca) foi cruel com essas pessoas é um pleonasmo. Mas as consequências estão nas sutilezas cortantes do dia a dia até hoje. Pense que talvez aquele seu amigo, conhecido ou colega de trabalho preto não consiga utilizar corretamente um daqueles aplicativos de mapear árvore genealógica. Não consegue porque não constam. Não há nome, identidade ou fotografia. Não as disseram diretamente, mas fizeram subentender que aquela pessoa não era ninguém. E então tudo que te sobra de recurso são as histórias passadas por gerações (quando são) de algo que você só consegue trabalhar no imaginário. Por mais familiarizado que se esteja, ainda falta.
Cabe lembrar que o período de escravidão no Brasil acabou há 138 anos. Historicamente falando, é o tempo de uma folha se desprender da árvore e ir ao chão. Então, pode ser que tenham pessoas com mais de 50 anos que tenham conhecido pessoas que foram mantidas em condições de escravidão ou que sejam filhas da Lei do Ventre Livre (1871). Muito tempo se passou, mas é um passado muito recente da história do Brasil.
Ainda assim é possível responder de certa forma quem foram os ancestrais de tanta gente. Eles eram reis e rainhas. Mas não de acordo com a semiótica europeia. Tinham toda nobreza e pompa sim, governavam pra muita gente também. Mas ali havia culturas, costumes, estética, religião e culinária muito próprias e cheia de riquezas. E resistentes. São signos que atravessaram gerações e estão presentes no nosso dia a dia. Não há borracha que apague o que foi escrito à caneta, em tintas fortes e cheias de cor.
Como por exemplo a história de Na Agontimé, que foi a rainha do Reino de Daomé no início do século XIX e foi vendida como escrava pro Brasil. Isso aconteceu após a morte de seu esposo, o rei Agonglo, quando os filhos dele passaram a disputar o poder pelo trono e um deles a nomeou como Kpojito (uma espécie de rainha-mãe-conselheira). Rei posto, Rainha deposta. Uma vez em solo Tupiniquim, a rainha não perdeu sua majestade e seguiu levando o seu saber e a sua cultura aos seus semelhantes. Diz-se que ela quem fundou a Casa das Minas Gege, em São Luís (MA). Trata-se de terreiro de tambor de mina, religião que cultua os Voduns, ancestrais da família real de Daomé. A única de tradição jeje do Maranhão e hoje patrimônio histórico tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
E quem não fazia parte da família real também era realeza por si só. Põe-se o exemplo aqui em Criciúma. Sou capaz de apostar que a maioria dos habitantes da terra do carvão não saibam e nem tenham ficado com a pulga atrás da orelha do porquê o nome do bairro Mãe Luzia. Dentro do próprio bairro é provável que a maioria não saiba. Mãe Luzia era uma mulher negra que acolhia os tropeiros que desciam a Serra do Rio do Rastro pra trocar charque no litoral por farinha e peixe. Era tão acolhedora que a chamavam de mãe, então veio Mãe Luzia. E quando que sua história teve a oportunidade de ser reverberada pelos quatro cantos dessa cidade? A resposta todo mundo sabe, mas o silêncio velado prevalece.

E quem diz isso é especialista no assunto. O mérito e respaldo é todo de Normélia Ondina Lalau de Farias, a coordenadora do NEABI (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas) na Unesc. Ela também é uma realeza. A princesa herdeira de um casal que foi muito conhecido e importante aqui no sul catarinense, principalmente para a educação e para o movimento negro. Trata-se de Vilson e Clotildes Lalau. Ele diretor/fundador do CIS, hoje Cedup. Ela diretora da Escola Joaquim Ramos. Os dois elevaram o patamar da educação na região. Ele trazia referências no seu vestir, com os ternos e gravatas de estampas e cores típicas africanas. Ela também. Sua iconografia está no uso dos tradicionais turbantes. Ele foi presidente do Clube União Operária. Ela denunciava o racismo nos jornais sob a alcunha de Tulipa Negra. Os dois fizeram muito pelo movimento negro em terras Catarinenses. Se hoje é desafiador, imagina para eles que pavimentaram o caminho.
Normélia perpetua isso nos três sentidos. É licenciada em Químicas Industriais pela UniSul e especialista em química avançada pela UFSC. E também é coordenadora do já mencionado NEABI. “Ele tem por objetivo justamente buscar a equidade entre os segmentos raciais e trabalhar em cima de ensino, pesquisa e extensão. E porque não dizer, inovação, buscando uma reparação de justiça”, descreve Normélia.
O trabalho da Normélia vai além do resgate da identidade e da cultura negra. Ele é sobre resistência. Não é nada fácil para uma mulher negra assumir este papel em locais que costumam ser hostis ao simples existir.
“Naquela época não fui absorvida dentro do campo de trabalho, embora muitas vezes recebi o retorno de algumas empresas dentro de Criciúma e diziam que eu atendia o perfil, que era o profissional que eles esperavam e marcavam entrevista, mas quando eu chegava lá havia uma desculpa qualquer e a vaga sempre já estava ocupada. E é interessante de se perceber porque o telefonema chegava normalmente final de tarde me pedindo que estivesse lá no outro dia bem cedo, então não tinha um espaço de contratação. E como no currículo não constavam fotos, então ali não mostrava que se tratava de uma mulher negra. Então, no momento em que se chegava, deparava com esta mulher negra. Automaticamente a desculpa vinha com isso”, relata Normélia sobre suas experiências no começo da carreira.
E isso também faz parte do apagamento. Você nega a uma mulher negra a oportunidade de mostrar suas competências e trabalhar. Em muitos casos nega-se também o direito de estudar, de aprender. Não foi o caso de Normélia, e ela, então recém formada em química, não se abateu. Conta que devido sua família, sempre teve toda sorte de boas referências e foi letrada racialmente.
“A minha família num todo, sempre colocaram para mim, meus irmãos e primos que barreiras nós iríamos enfrentar lá na frente, mas sempre nos fizeram ver que somos pessoas negras e que somos pessoas que temos valor. Desde nova me identifico como uma pessoa negra e sei do significado forte que isso traz. Somos pessoas capazes de contribuir de alguma forma para o desenvolvimento de uma dada sociedade a qual nós estamos inseridos, dentro de uma questão contemporânea. E sempre trouxeram para nós todas as contribuições que o povo negro trouxe para essa nação, enquanto os nossos ancestrais oriundos da diáspora africana e os afro descendentes. Até porque de geração em geração, foram passados, todo aquele conhecimento que eles possuíam. Então, eu nunca me senti diferente daquilo que eu sei que sou até os dias de hoje. Diferente daquelas pessoas que muitas vezes só cai a ficha dessa identidade anos depois de vivência e convivência com outros segmentos raciais, porque na realidade não tiveram essa oportunidade, muitas vezes em âmbito familiar, em termos de criação familiar, dentro da sua própria educação”, respalda.
Dentro da própria comunidade negra há o fato de que muitos se autossabotam racialmente. E isso porque não conseguem se sentir pertencentes. Fixam o padrão europeu hegemônico como uma idealização. Isso tem mudado, é claro. Uma quantidade bem menor. Mas isso vem de uma estrutura familiar cíclica talvez. O que sempre disseram a respeito dos traços? Em casa ou na rua. Isso acaba sendo replicado por gerações e crianças – que na primeira infância são como esponjas – absorvem aquilo que lhe é apresentado como base e acabam crescendo com essa ideia. Por isso a importância do letramento racial. Para absolutamente todas as pessoas. Matéria escolar obrigatória. Por uma questão de consciência, de reparo e de mudança.
“Para alguns, se autodeclarar como uma pessoa negra, muitas vezes se tornava difícil, porque na verdade eram grupos que foram, através da construção histórica, desumanizados, como se não se servissem de uma consciência de ser aquilo que se é e pertencente a esse núcleo”, respalda a coordenadora do NEABI.
Essa jornada pelo autoconhecimento carrega consigo uma palavra que ficou muito conhecida nos últimos anos: O colorismo.
Colorismo é a distinção baseada na pigmentação da pele de uma pessoa. Afinal, nessa cartela de cores existem desde pessoas pretas retintas até pessoas pretas de pele mais clara. E aí que está o cerne do problema. As pessoas de pele mais clara tendem a não se identificarem como pessoas negras. E até a tonalidade age como ferramenta propulsora de desigualdade racial e social. Logicamente, pessoas de pele mais clara acabam tendo mais “oportunidades” em detrimento de uma pessoa de tons mais escuros.
“Uma pessoa retinta como eu sou, mas que para alguns pode não ser, mas para outros é. Eu não tenho direito de estar lá. Para mim serve por ter a pele mais escura, limpar chão, lavar, passar, cozinhar para mim. “Ah, mas a fulana até tem traços negróides. Mas olhe a pele dela como é Clarinha! Ela vai ocupar esse cargo”. É nesse aspecto que eu te digo que muitos deixaram, inclusive de se autodeclararem negro porque se eu me autodeclaro negro, eu não chego aonde eu quero. Agora quando já vem toda essa mistura e a tua pele é mais clara e que, de repente, por um artifício ou outro, inclusive, se ninguém parar bem para olhar pra essa pessoa, ela consegue passar por uma pessoa branca. Uma pessoa não negra para é vantagem, porque aí se consegue chegar onde se quer. Esse é o pensamento porque foi isso que criaram”, analisa a professora.
Normélia ainda explica que isso não é de hoje. Durante a escravidão, quanto mais escura fosse o tom da pele, mais braçal era o serviço. Isso diz respeito inclusive ao local do trabalho. Uma mulher de pele escura, por exemplo, trabalhava na cozinha, enquanto que as de pele mais clara podiam trabalhar como dama de companhia das sinhás. A lógica é: Ela se aproxima mais do padrão hegemônico europeu, logo, ela pode adentrar as dependências dos brancos.
Repare como situações de séculos atrás ainda reverberam nos dias de hoje das maneiras mais corriqueiras possíveis. Como estudiosa do assunto, a filha do casal Lalau trouxe duas aspas fortes e certeiras.
“O termo raça foi criado justamente pelo povo europeu, para designar tudo aquilo que ele considerava inferior. Hitler achava que o povo judeu era inferior e por isso precisaria morrer. E aí a gente começa a pensar também em outros povos da Europa que racializaram para traduzir. Então, como todos os outros segmentos, o amarelo, o indígena, o negro e ele traz como sendo raça. E quem não faz parte de nenhum desses grupos não estão classificados enquanto raça. Resumindo, o branco não se enquadra como raça porque foi ele que criou esse termo. Essa alcunha é que trouxe a desumanização para outros povos. E é evidente que muitas pessoas não conseguem ainda verificar que é um termo científico, inventado”.
“Racismo não é um problema nosso. Isso não é problema meu. Não fui eu que criei o racismo. Eu sofro as consequências disso. Sofro, mas não fui eu que herdei. O racismo é um problema do branco e ele vai ter que resolver. E a gente está ensinando como é que ele resolve? Não. Eu já cheguei no meu limite. Eu sempre digo que não tô aqui pra ser pedagoga de opressor. Por essas e outras que atualmente eu falo é do pacto da branquitude. Vão entender o que é ser branco. Que pacto é esse?”.
É meio complicado falar de apagamento da cultura sem falar de racismo, porque ele é um segmento do racismo. Mas as duas aspas trazem que o problema foi criado pela mentalidade diabólica de pessoas brancas, que são quem tem que resolver esse problema. Daí a importância do letramento racial.
Lá no começo deste texto, quando citado que é um problema que durará mais séculos, fica um estranho gosto de fel na leitura. Mas é real, infelizmente. Evidente que não somos mais escravagistas, porém nem o mínimo é feito direito. A selvageria hoje é feita de maneira acovardada pela internet, mas mora principalmente nas sutilezas. No racismo estrutural, seus segmentos e no pacto da branquitude. Guarda essa palavra.
Se eu reunisse 30 pessoas em uma sala e perguntasse: “Quem aqui é racista?”. Duvido que alguém levante a mão. Mas se o Brasil é tão racista e ninguém comete racismo, a conta não bate. Há incongruências. Faz-se então a sutileza perigosa.
Assista a reportagem: “SANKOFA”
AS QUATRO PERSPECTIVAS:
1. EDSOUL AMARAL – Sankofa, volte e veja

Você pode já ter ouvido falar nesse nome. Principalmente se você vive em Santa Catarina. Ele é Jornalista e Apresentador da NSC TV Florianópolis, afiliada da Rede Globo na capital do estado há 17 anos. Conhecido do público pelo jeito descontraído nas matérias que produz ou na apresentação do Jornal do Almoço, noticiário local do meio-dia. Sim, tem um homem preto bem posicionado adentrando lares de milhares de catarinenses bem na hora do almoço logo em Santa Catarina. E EdSoul sabe bem a força e o peso dessa representatividade.
“Em 2000 eu fui Garoto Planeta Atlântida [o festival]. Então era a primeira vez que uma pessoa preta, uma pessoa de comunidade, representava aquele festival com as principais bandas do Brasil. E quando eu fui garoto Planeta Atlântida, pela primeira vez, a periferia catarinense via alguém como ela fazendo algo na TV. Veja bem, era uma época em que os comerciais, por exemplo, não apresentavam pessoas pretas ou pessoas pobres dentro do negócio. Então, eu sou pioneiro em muitas coisas, por usar essa linguagem. Costumo dizer que foi através daquilo ali que a minha voz passou a ecoar”, pontua o apresentador.
E ecoou. Ecoou principalmente nas comunidades, becos e vielas. Ele bradou do alto de um morro que todo mundo ali pode e é capaz de alçar grandes voos. Isso por si só já é muito disruptivo, considerando o contexto. E pro jornalismo, que àquela época era mais ainda sisudo e soava um filme noir, era um diferencial esse jornalista que vinha na contramão.
EdSoul sempre fez matérias mais atrativas, com a linguagem de quem vive na periferia, tratando de igual pra igual, contando as histórias dessas pessoas e televisionando isso pra muita gente. E ele conta que nesses anos de encantamento pelo jornalismo, só há um tipo de matéria que ele não faz: policial. Nível de cláusula contratual.
Mas antes de tirar qualquer conclusão, a gente precisa entender que o EdSoul enquanto comunicador, se incumbiu da missão de ajudar a resgatar justamente a identidade e a cultura negra. Tudo que foi falado aqui até agora. E veja bem, não é negar o que acontece ou simplesmente tentar tampar o sol com a peneira. É questão de ótica.
A gente sabe o beabá dos problemas que acontecem nas comunidades. E a sociedade sabe também a raiz desses problemas. Mas não é só isso, a comunidade não é só problema e violência. Muito pelo contrário, é potência. EdSoul quer justamente usar a peneira pra irradiar o sol que ilumina a vida de tanta gente bacana que produz e faz tanta coisa legal nas comunidades potencializada pelo alcance da TV.
“Tudo para nós é peso dois. Então a gente tem que ser duas vezes melhor pra continuar ocupando o espaço. Então, quando a gente vai falar de qualidade, é óbvio que a qualidade do meu trabalho é bacana. Porque eu me puxo para fazer um trabalho legal. Você chegou no estrelato, chegou na fama ou na fase bem-sucedida, financeiramente falando, da sua vida. Você tem que buscar o outro, porque do contrário quando você sair daquela vaga, abre-se uma lacuna. Nós precisamos continuar ocupando. Essa é a nossa meta. Não é só evoluir, chegar no topo e estar contente porque você chegou. Não. A gente sabe que historicamente precisamos trazer o próximo, porque, do contrário, não vai ser uma ocupação contínua. É uma responsabilidade moral, então, de trazer e abrir caminhos para novas pessoas”, pondera o jornalista.
Quando se fala em trazer holofote para essas realezas negras – E aqui se fala não só de monarquia, mas no sentido figurado – existe uma dualidade muito grande geracional. Primeiro porque esse movimento vem ganhando mais força ao longo dos anos e segundo porque o mundo muda o tempo todo. A nossa relação com passado, presente e futuro vai se modificando. EdSoul destaca que isso ocorre pelas vivências, mas que reconhecer os que vieram antes de você e abriram os caminhos pra você existir precisam ter seu legado conhecido e honrado.
“É um aprendizado mútuo. Minha mãe passou por muita coisa na vida, nós passamos juntos. Eu e minha mãe nós passamos, por exemplo, fome juntos. Mas eu não sei exatamente o sofrimento dela porque ela barrava, ela me impedia de ter alguns sofrimentos. Quando eu vivo no meu tempo, eu procuro trazer o meu tempo para minha mãe, que foi um tempo que ela não viveu. Consequentemente, para os meus filhos. Mas a gente precisa entender que, independentemente da faixa etária em que nós nos encontramos, nós somos pretos. Cada um com as suas mazelas. As mazelas de hoje são muito diferentes das que minha mãe sofreu, as dos meus filhos serão diferentes das minhas, mas ainda assim são mazelas. Eu defendo que nós somos aprendizes até o final deste ciclo. Então eu tenho todo o tempo enquanto eu viver para aprender. Nós precisamos estar dispostos. Se tem algo que eu procuro fazer é sempre me manter dentro do sistema Sankofa, que é você entender a ancestralidade, o passado para conviver, para ter o seu presente e consequentemente, projetar o seu futuro. Se eu entendo as rainhas e reis africanos que eu sou descendente, consequentemente eu vou ter uma postura de realeza. É a minha postura de realeza. Não passa por falta de humildade, não é isso. É de autovalorização. O que faltava no preto mais antigo era a autovalorização, o saber que é capaz, o entender que podia, eu sei que eu posso. Eu sei que eu sou capaz. Eu sei que eu sou bom, que eu faço”, destaca EdSoul.
O jornalista falou sobre o sistema Sankofa. Cabe dizer que essa filosofia é um ideal africano. É a nobre função de resgate, autoconhecimento e valorização das histórias.
Para as novas gerações principalmente, é muito necessário quem puder fazer essa busca, uma vez que digitalmente o acesso à informação facilitou e com a hiperconectividade, isso se expande ainda mais. Assim, o movimento cresce ainda mais e novas referências vão surgindo. Mas ainda assim, é preciso ter cuidado com a coerência das informações (e das pessoas também).
“A gente tem as facilidades das tecnologias, porém essas ferramentas são perigosas porque ao mesmo tempo que elas nos enaltecem e nos fazem evoluir, elas podem nos derrubar também, nos colocar para baixo. E tudo muito rápido. Eu tenho sorte de ter filhos que são conscientes. Eles são letrados. O letramento racial que os meus filhos têm é muito bacana assim, e eu não vejo em qualquer lar. Mas isso tem um porquê. Eles são filhos de um cara que foi do movimento negro, que foi de movimento hip hop, que tinha os seus protestos nas letras muito latentes. Então eles acabam herdando isso. torço para que ele faça um uso dessas ferramentas digitais que estão muito acessíveis hoje, para o bem e em prol da plenitude da qual ele faz parte”, descreve o jornalista.
Ele ressalta que por mais que muito tenha melhorado em quantidade, ainda há que melhorar e precisa ser prestado atenção em qualidade. Não basta só ocupar o cargo. É a maneira como te tratam, os recursos que você dispõe para isso, a sua recompensa por isso. Essa virada de chave, de voltar os olhares para essas vivências têm muito a ver com a mídia, segundo ele.
É quando o negro começa a se impor, logo ele aparece mais. A combinação perfeita com uma mídia que passa a enxergar neles potenciais clientes. Trata-se de uma massa gigantesca que trabalha e muito para fazer o sistema funcionar como ele é, desde sempre. E como qualquer outra, são pessoas que consomem muito. Comer, beber, vestir, se cuidar. Inclusive com nichos específicos antes não pensados para estas individualidades, como por exemplo, produtos para cabelo afro ou para pele negra. E o poder de convencimento mora na identificação, naquilo que se vê na TV, na Internet, na revista. Se o mercado não mudasse esse pensamento, iria falir.
E esse mesmo mercado das comunicações passou a receber essas mesmas pessoas para trabalhar nas criações. Talvez não na mesma quantidade. Mas para efeitos de impacto, essas criações passam a refletir mais sobre a sociedade como ela realmente é.
“Veja bem, eu tenho 47 anos. A minha geração não viu o preto na TV. Eu não sou o primeiro em Santa Catarina, mas durante muito tempo eu fui o único. Em contrapartida, hoje temos muitos de nós estudando, nos especializando, nos formando em diversos setores e ocupando esses espaços. Nós não temos uma redação multicolorida ainda. Eu sonho com um dia em que nós teremos muitas pretas e pretos dentro da redação. Nós teremos muitas pessoas obesas, pessoas com deficiência, pessoas com deficiência visual, física, mental, etc”, salienta o manezinho.
A esperança de que um dia haverá essa equidade reflete sobre a quantidade negros em cargos de alta colocação. Quantos outros EdSoul’s de todas as idades ocupam esses espaços? A resposta está na história.
“É óbvio que a gente não tinha acesso à escola pelo mínimo que fosse. A gente não tinha acesso à graduação. Famílias pretas inteiras, com pessoas de 22 anos sendo a primeira pessoa da família a cursar uma universidade. São resquícios do período escravagista. E esses resquícios se refletem nas ações afirmativas. Por exemplo, que tanta gente insiste em dizer que não é necessário reparação, que é uma puxação, que é um peso, que isso aumenta as diferenças, Não. A gente tem que entender que nós somos diferentes e dentro da nossa diferença, nós procuramos buscar um patamar igualitário. A gente só vai ter um patamar igualitário se a gente der acesso. E dar acesso significa permitir que possamos evoluir”, dispõe ele sobre a educação.
É a resposta para o exercício de onde está o racismo se ninguém é racista? Nos impedimentos. A Normélia Lalau traz que isso está arraigado na cultura. Não é que se negue o racismo por covardia (muitas vezes é sim), mas este tipo de comportamento virou automático que se naturalizou comum. Mas não é. Novamente (repare que as soluções sempre recaem no mesmo lugar) o letramento racial entra em ação.
Apesar de tratar de temas muito gerais, estamos falando das vivências de um homem negro comunicador de 47 anos. A complexidade faz morada no particular. Ele teve vivências e tem perspectivas que talvez outras pessoas, outros homens pretos não tenham tido.
Para ele, o machismo ainda impera, independente da cor. Mas para a mulher negra, ele é muito mais pesado. Cita o próprio exemplo, por ser filho da invisibilidade paterna, nas próprias palavras. O histórico de abandono e solidão de uma mulher negra é muito maior. A negação da afetividade e da rede de apoio. Se fosse ao contrário, ele seria abandonado.
“Eu acho que, primeiro de tudo, eu tenho uma opinião de que o mundo é feminino. Nós, meninos, precisamos entender que nós somos os principais linha de frente dessas nojeiras que acontecem com as mulheres. Essa autoestima da mulher preta, ela vem como um trator, passando por cima. E o ser escroto nasceu no masculino. Do sentido de escrotice mesmo. Nasceu no masculino. Machista é machista. Seja homem branco, seja homem preto. Em relação ao homem preto, eu vejo que o homem preto valoriza mais, principalmente as suas mães, por uma necessidade muito óbvia”, exclama.
É irônico pensar que a sociedade africana seja matriarcal regida pelas mulheres e aqui, tantos anos e até hoje elas tenham de passar por isso. E para um homem preto existem algumas armadilhas muito mais fáceis de se cair. EdSoul exemplifica que ter sua masculinidade não significa você ter um perfil opressor e que no caso de homens pretos, não se deve cair na ideia de que ele pertence a um núcleo branco, porque não pertence. Independente do status.
“Eu lamento muito. Porque historicamente, principalmente os homens, entenderam que estar de mão com uma pessoa não preta é um sinônimo de status. Isso é lamentável demais. Isso tá muito mais no homem do que na mulher. De querer ter uma mulher branca à tiracolo para provar que ele tá trafegando ou que ele ascendeu na vida. Mas eu vejo que as coisas têm mudado”, relata o repórter do Jornal do Almoço.
O homem preto também é vítima do próprio machismo. No período da escravidão ele foi hiper sexualizado e objetificado, abalando totalmente a confiança e a autoestima. Abala também a dignidade, pois a hiper sexualização está relacionada com o abuso sexual dessas pessoas. E isso reverberou, infelizmente até os dias de hoje. Mas, obviamente, nem se compara com a violação aos direitos das mulheres.
2. BEGAIR LEONOR, A BEGA – Ninguém experimenta a profundidade de um rio com os dois pés

Ela é professora aposentada. A mais nobre das funções nas palavras de EdSoul (assino também). Lecionou língua portuguesa. Mãe, esposa e avó. E muito empoderada e sábia. Ela mesma diz que o tempo transcorrido traz muita maturidade, sabedoria e história para contar. Diferente do EdSoul, ela passou por outros tipos de vivência sendo ela uma mulher negra no auge dos seus 70 anos.
“No finalzinho do ano passado tive de passar por terapia. E lá eu resgatei uma memória da minha infância. Dia 31 de maio é o dia da coroação de Nossa Senhora. A minha família sempre foi católica e a gente sempre vivenciou muito os atos da igreja católica. Eram muitas pessoas, muitas crianças vestidas de anjo, e uma delas fazia a coroação de Nossa Senhora. Eu tinha a maior vontade de ser um anjo. Um dia, na aula de catequese, a pessoa que coordenava o evento foi pedir os nomes de quem queria ser anjo. E eu apontei o dedo. Ela olhou para mim: “Ah, quem que te disse que existe anjo negro?” E me fez chorar um monte, fui embora chorando, e eu nunca fui, porque eles diziam que não existia anjo negro. Eu não sei baseado em quê. Quem é que diz que todos os anjos são brancos? Quem delimitou? Quem viu? Ninguém viu. Mas isso ficou tão arraigado em mim que a terapeuta disse: “Nossa, como isso é forte em ti ainda”. E olha, eu tinha 8 anos de idade e eu tenho 70. Isso aqui estava mortinho ali dentro. Mas de uma dor imensa, sabe? Porque nunca consegui ser anjo, mas só uma vez eu tive coragem de apontar a mão. E depois, nunca mais”, lamenta Bega.
São situações que parecem sutis pra muita gente, mas é cortante pra quem sente. A mãe de Bega nada pode fazer, pois naquela época quem poderia dar razão a ela? Ela não teria apoio.
Bega é de um tempo muito segregador. Havia muita distinção do que era de branco e do que era de preto. Ela relembra que em Criciúma haviam dois clubes frequentados pela sociedade separados por cor. E quem era preto não podia pisar no clube de branco. E vice-versa. E era difícil pois as relações não se davam assim. Bega vem de uma família miscigenada. Mãe preta, pai branco. Quando os primos que eram brancos vinham visitar e era tempo de baile, a choradeira era grande. Não tinham como ir no mesmo lugar juntos, mas ela não poderia largar os primos sozinhos. Pesava o clima.
A situação beirava tanto o absurdo que a diretora de uma escola que era negra foi impedida de entrar no salão onde aconteceria a formatura de seus alunos porque o clube era de branco. A diretora. E somente depois de meia hora de negociação com pais de alunos que foi liberado a entrada dela. Transtorno causado sem necessidade. Imagina a humilhação num dia que era pra ser de alegria e prosperidade. A mulher em questão era Clotildes Lalau, diretora do Joaquim Ramos, mãe da Normélia e cunhada da Bega. Sim, dessas coincidências não tão raras do jornalismo.
E ela ainda percebe situações como essas na vivência com os netos, que segundo a própria existe muita troca geracional entre ela, os filhos e netos, de saber como as coisas funcionam em cada época.
“Eu tenho um neto com 17 anos, que desde os 13 ele tinha um amiguinho branco meio fora da curva, sabe? Daquele que roubava chocolate no mercado. Então eu chamava ele e dizia assim: “Olha, tu deixa de andar com esse guri, tu não precisa deixar de ser amigo dele, mas não sai com ele. Por quê? Porque entre negros e brancos, uma hora que ele roubar chocolate no mercado, eles não vão nem perguntar quem foi. Vai ser tu o culpado! Porque ele é loiro do olho azul e tu é negro, então não vão perguntar quem foi, porque jamais vai passar pela cabeça de quem está questionando que tenha sido o loiro de olho azul”. Isso é forte para gente. É ruim, é desagradável, mas a gente precisa orientar os nossos nesse sentido. E daí realmente meu neto se afastou”, relata a professora.
Ela nomeia isso não como apagamento, porque aqui no Brasil nunca foi dada a chance de mostrar algo antes. Prefere chamar de invisibilidade. Na lógica, se até pessoas famosas são reféns do preconceito, quem é anônimo dobra as chances nessa roleta dos horrores. Precisa empoderar os jovens, mas já na formação, alertar para pisar no chão devagarinho.
Na sala de aula a vigilância não era diferente. Quando tinha uma pessoa negra (das poucas vezes) no que se chama de “turma de fundão: nota rasteira e baixa assimilação de conteúdo”, ela fazia questão de elucidar esse aluno sobre o futuro dele e da importância do estudo.
“Cara, olha só, vocês são oito pessoas lá. Só tu é negro. Todos eles têm as portas abertas pra eles. Tu vai precisar abrir a tua. E de que maneira tu acha que tu vai abrir a tua? Se tu não estudar e não for tão bom quanto esses que estão aqui na frente, ou até melhor que eles, tu jamais conseguirás abrir a tua porta. Eles não. Eles têm sobrenome, eles têm influências, eles têm quem indique, que é o QI avançado. E tu não tens. Então, abre teu olho”. Na minha outra aula, aquele aluno estava modificado. Agradecia e mudava de lugar”, conta a educadora.
É a responsabilidade moral de olhar pro lado e ajudar aos seus. Todos os entrevistados citaram essa preocupação. Tanto os que já apareceram nesta crônica, quanto os que ainda irão aparecer. É evidente o apoio, a irmandade. Fica de lição.
Antes ela resolvia as coisas na base da porrada. Chamava ela de macaca? Ela quebrava e devolvia. Questionada pelos pais, quando contava o que havia, ficava por isso mesmo. Hoje precisa agir de outra forma, valer-se de outros argumentos não violentos para combater. Ela se preocupa com isso, mas fica feliz com a gama de recursos que existem hoje e que podem auxiliar.
Nem só de preocupação vive Bega. Ela é muito contente e positiva a respeito do presente e do futuro.
“Nem sei se um dia a gente chega a questão da igualdade entre negros e brancos. Já caminhou muito, melhorou muito. Muitas portas foram abertas, mas ainda precisa caminhar muito. Uma coisa eu falei ainda há pouco, que é a abertura de diversão para todo mundo, ao mesmo tempo, no mesmo lugar. Então, negros e brancos frequentam os mesmos lugares. Acho que isso é uma coisa boa. Isso, seja em clubes, seja em parques de diversão, seja em shopping, seja em qualquer lugar. Acho que hoje tem uma abertura bastante boa para a igualdade. As escolas. Porque embora ainda seja bastante pequeno o percentual de pessoas negras nas escolas. E isso vem desde a educação infantil. Enquanto tu vê uma sala com trinta crianças, cinco são negros. Por que quando que antigamente teria um corpo diretivo numa escola de pessoas negras?”, questiona.
Outra diferença positiva é a estética. Os olhos dela brilham ao ver tranças, blacks, bocas e narizes grandes, roupas e cores próprias serem reverenciadas e utilizadas com tanta autoestima pelas gerações. Pra ela, esse é um dos maiores resgates.
Na juventude, não haviam produtos para cabelo afro, cabelo se lavava com sabão feito em casa e olhe lá. Hoje há uma infinidade de produtos específicos. Ela mesma alisava os próprios cabelos.
“Eu sempre alisei meu cabelo desde meus 13 anos de idade, que lá na minha época era com pente quente, um pente de ferro que a gente punha na brasa, sacudia para tirar a cinza, passava banha de porco no cabelo e passava o pente. Pegava por mecha e penteava. Por quê? Porque o cabelo não podia ser cabelo ruim. A gente tinha que ter um cabelo melhor. E assim era dito em casa, esse cabelo ruim… Então a gente alisava dessa maneira e machucava o couro cabeludo às vezes, porque encostava no couro, queimava, e fritava o cabelo, pensa um ferro quente num fio de cabelo cheio de banha”, comenta Begair.
Ela assumiu seu cabelo natural há 10 anos. Pouco tempo. Foi quando o marido ficou doente e precisou cortar para melhor poder cuidar dele. Então parou de alisar e pintar. Hoje ostenta um belo afro de cor grisalha.
Acredita-se que a vigilância dela enquanto mãe, educadora e mulher vêm de experiências que passou e que ainda passam o povo negro. Da filha que trancou o curso que fazia porque era excluída por conta da cor até o neto que ao brincar de polícia e ladrão, ele tinha de ser o ladrão. Leia como pesa. O sentimento tem razão de ser. Mesmo estando em 2026, se faz necessário ponderar onde se pisa.
E pra ela só a educação é capaz de galgar alguma mudança, de melhorar o caminho lá na frente.
“Mas aí nós temos médicos, advogados, engenheiros e tudo mais. E ver negro no protagonismo na TV. Porque a gente sempre vê a maioria dos atores e atrizes negros no papel de empregado, de cozinheiro, de porteiro, de motorista. Todos os papéis subalternos. E agora a gente vê como protagonista. É uma alegria bastante intensa. Gostar de si como é, como pessoa negra, e estar bem resolvida nessa questão. Tu pode não ser bem recebido em alguns lugares? Pode. Mas não é isso que vai tirar a tua valorização pessoal. Não é isso que vai te diminuir como pessoa, como profissional. Tu continua sendo o profissional que tu és, a pessoa que tu és, apesar da negativa, apesar do mau jeito em ser recebido”, finaliza.
3. EMANUELA JUSTINO – Eu sou porque nós somos

Em frente à câmera, ela não hesita. O olhar é direto, a fala é segura, como quem aprendeu a ocupar um espaço que, por muito tempo, não parecia destinado a ela. “Meu nome é Emanuela Damasceno Justino, sou jornalista”, diz, com a naturalidade de quem construiu, passo a passo, o próprio caminho até ali.
Formada em 2023, Emanuela trabalha como repórter no SCC SBT, em Criciúma, cobrindo toda a região sul de Santa Catarina. A escolha pela profissão não veio por acaso. Cresceu assistindo jornal ao lado do pai, ouvindo rádio, brincando de apresentar programas ainda na infância. O jornalismo, antes de ser carreira, já era presença constante dentro de casa.
Mas a trajetória de Emanuela não se resume à profissão. Ela mesma faz questão de deixar isso claro. “Não tem como a gente falar da nossa vida sem falar do trabalho”, afirma, e, ao mesmo tempo, revela que há outras camadas que atravessam esse percurso.
Nascida e criada em Criciúma, uma região marcada pela forte presença de descendentes europeus, ela aprendeu desde cedo a perceber o que, muitas vezes, não é dito abertamente. O racismo, para ela, começou a ganhar forma ainda na escola.
E não foi sutil.
Os comentários vinham sobre o cabelo, sobre a boca, sobre características físicas. Eram diretos, “escrachados”, como ela descreve. Memórias que permanecem. “A gente lembra muito daquilo que acontece na infância”, diz. E lembra de tudo, o que foi dito, quem disse.
O tempo passou. Algumas coisas mudaram. Hoje, Emanuela reconhece avanços, mais consciência, mais cuidado nas falas. Mas isso não significa que o problema desapareceu. Ele apenas mudou de forma. “O pessoal tem medo de ser cancelado”, observa. O preconceito, agora, é mais silencioso. Menos explícito, mais difícil de apontar. Ainda assim, presente. “A gente sente, a gente pega no ar”.
É nesse ponto que o racismo deixa de ser apenas uma experiência individual e revela sua dimensão estrutural, não precisa ser dito para ser percebido.
No ambiente profissional, Emanuela diz nunca ter enfrentado grandes episódios de desrespeito direto. Ao contrário, fala de acolhimento, de colegas que a respeitaram ao longo do caminho. Mas isso não apaga outras percepções, mais difíceis de nomear.
Há oportunidades que parecem seguir um “estereótipo diferente”. Situações em que nada é dito claramente, mas algo está implícito. “Só quem passa sente”, resume.
Ainda assim, houve algo que marcou sua trajetória de forma positiva, a torcida.
Quando começou na televisão, percebeu que muitas pessoas acompanhavam seu caminho com entusiasmo. Não apenas pelo trabalho em si, mas pelo que ele representava. Em uma região onde, segundo ela, não era comum ver repórteres negras, sua presença carregava um significado maior.
Representatividade.
Pessoas que se aproximavam, que diziam estar felizes em vê-la ali. Um reconhecimento que ultrapassa o individual e toca no coletivo. “Isso me marcou bastante”, afirma.
Entre as referências, um nome aparece com força: Gloria Maria. Não apenas por também ser uma mulher negra, mas pela trajetória. Pela capacidade de ocupar espaços inéditos em um tempo ainda mais restritivo. “Ela foi a primeira em muitas coisas”, lembra Emanuela. Alguém que enfrentou barreiras sem se colocar no lugar de vítima, mas sem ignorar o contexto.
A inspiração não elimina as dificuldades, mas aponta possibilidades.
Ao olhar para o presente, Emanuela vê mudanças concretas. Mais pessoas negras na televisão, no jornalismo, no entretenimento. Um cenário diferente daquele que seus pais conheceram, quando o racismo era mais explícito e as oportunidades, mais limitadas.
Mesmo assim, ela insiste, ainda há muito a avançar.
O preconceito, hoje, muitas vezes aparece em detalhes. Em comentários que “escapam sem querer”. Em atitudes que não se assumem como racistas, mas carregam marcas profundas. Um racismo que se mantém nas estruturas, nos acessos, nas desigualdades.
E é nesse ponto que ela aponta um caminho. Para Emanuela, a mudança passa pela educação. Pelo acesso. Pela possibilidade de ocupar espaços que historicamente foram negados. “Equidade é ter as mesmas oportunidades”, afirma. A partir disso, cada um segue seu próprio percurso, mas o ponto de partida precisa ser mais justo.
Ela fala de exemplos próximos. Pessoas que, ao terem acesso ao ensino superior, conseguiram mudar a própria realidade, e, com isso, alterar também o futuro das próximas gerações. Um movimento que não acontece de forma imediata, mas que rompe ciclos.
No cotidiano, diante de situações de preconceito, a reação de Emanuela é silenciosa. Quando percebe um ambiente hostil, ela se retira. Evita o confronto direto, mas não ignora o que sente. Um “sexto sentido”, como define.
Não é sobre não reagir. É sobre escolher onde permanecer.
Ao falar do futuro, o desejo é simples, e, ao mesmo tempo, profundo, seguir crescendo na profissão sem que a cor da pele seja um fator de dúvida. Trabalhar, conquistar espaço, evoluir. Como qualquer outra pessoa.
Sem precisar questionar se será aceita.
Antes de encerrar, ela deixa uma mensagem para quem vem depois.
Para meninas e meninos negros que ainda estão começando.
A orientação não vem carregada de ilusões, mas de incentivo. Reconhece que o caminho pode ser difícil, que ainda há barreiras, mas insiste na necessidade de avançar mesmo assim. “Se não tem ninguém como tu lá, que tu seja o primeiro”.
E, diante do preconceito, a posição é clara, falar, denunciar, não silenciar.
Porque, mesmo quando o racismo não é dito, ele continua sendo sentido.
E é justamente nesse silêncio que ele mais se sustenta.
4. REGIS COSTA – Se você pode andar, você pode dançar

De todas as quatro perspectivas, talvez a do Régis seja um pouco mais contrastante, seja porque ele possui outro tipo de vivência ou porque seja de uma geração mais nova. Mas assim como os demais, Regis tem muita história para contar, carregada da mesma obstinação de Na Agontimé e do mesmo brilho e consciência que permeia a história de Makeda, a rainha do reino de Daomé. Talvez isso seja inconsciente, mas é ancestralidade dando verniz à história.
Regis tem 20 anos, ostenta uma coroa encaracolada e estilizada na cabeça e um gingado que parece predestinação. Seu grande sonho nem deve ser se tornar um dançarino, pois isso ele já é, e sim poder viver da sua paixão. Os olhos brilham quando fala do assunto.
“A dança para mim é uma coisa que é 100% eu, entende? Tipo, é minha identidade, basicamente. É como se teu corpo tipo se abrisse pra tua alma poder brilhar, entende? Dependendo do que a gente dança, do estilo, a gente sempre vai querer expressar alguma coisa. Eu acredito que é muita coisa que a gente não consegue verbalizar. Faz coisas que eu não consigo explicar, mas é uma coisa que tu sente. Tá feliz, dança, tá triste, dança”, verbaliza Regis.
Apesar disso, a história de Regis na dança não é uma valsa de passos marcados. Muito pelo contrário. Esse sempre foi um interesse natural, mas que ficou guardado por muito tempo. O fascínio começou quando, aos 8 anos, ele descobriu o Just Dance, jogo de dança para videogame. Toda aquela musicalidade, aquele colorido enchiam seus olhos. E ele dançava…
No quarto. Escondido. Sempre entre idas e vindas. A mesma coisa quando questionado sobre a procura por aulas de dança. Uns dias de zumba, uma aula experimental ali, mas nada concreto. E isso acontece porque essa valsa atravessou o salão da vida dele num compasso arritmado. Enquanto crescia, Regis precisou passar por uma jornada de autoconhecimento. De entender quem ele realmente era e assumir de peito aberto sua vontade. E quando se fala de jornada de autodescoberta, quero dizer que Regis é um homem gay que gosta de dançar. E com todas as vertentes identitárias que ser assim carrega. Aah, e não podemos nos esquecer. Regis é um homem gay e negro. Peso dois. Ou melhor, três. Ir contra a maré não é fácil. Ele inclusive se questionou antes da entrevista. “será que eu sou negro?”, confessa. Autoconhecimento, estilo, ser quem se é, gostar daquilo que gosta, família, amigos, relacionamentos, amizade, música, dança, aceitação, solidão, receios. Misture tudo isso e a valsa da vida vira o dia da valsa maluca. É sério. São um conjunto de detalhes que formam um todo e que talvez só um dia de cada vez sejam capazes de dar conta.
“Por exemplo, como na época eu não entendia quem eu era, eu tinha muita vergonha de mim. Porque eu não dançava em público? Eu dançava de uma maneira mais feminina, porque eu gostava de performances mais femininas. Então, no caso, eu sempre gostei muito de dança, só que eu sempre deixei ela mais de lado. Até que depois que eu me tornei maior, depois passei a morar sozinho e isso voltou. Tem que ser real. Tu tem que ir. E desde então eu sigo dançando”, pondera.
Se reparar bem, Regis faz um insano trabalho de resgate. Dele mesmo. Bom, a vida foi passando e há de se ter muita coragem pra bater de frente e simplesmente… ser. Sim, porque o requebrado da vida em sociedade vem!
O fator pandemia somado aos fulgores da adolescência fez com que ele voltasse muito a si e pudesse se conhecer. E uma coisa levou a outra. Ele cresceu, amadureceu, se entendeu, passou a se gerenciar e hoje faz questão que todos vejam a sua potência.
E amadurecer é também entender certos comportamentos das outras pessoas, mas não se responsabilizar por elas. Ao mesmo tempo que pensa nas coisas que perdeu por conta de uma homofobia internalizada, por outro lado ele acredita que as coisas fluem no tempo que tem de ser, como uma marcação de dança.
Foi no segundo semestre de 2025 que ele regressou pra dança e se inscreveu na escola de dança MITC (Moviment In The City) e começou a escrever um novo capítulo da própria história. Foi tão forte ao ponto dele trancar a faculdade de engenharia de software, mesmo ainda trabalhando como programador.
“Eu queria muito prestar vestibular para fazer uma faculdade de dança. Então, entre engenharia e dança, dança toda a vida. Imagina só passar 30 anos da tua vida sentado na frente de um computador parado? Não quero isso pra mim. O que mais me deixa satisfeito é conhecer pessoas novas, ver como cada uma se expressa. Isso é algo que me deixa extremamente feliz e satisfeito.
Na escola de dança, Regis também tirou lições da valsa da vida. Ele reencontrou Sara Ruth, sua professora de dança. Uma mulher negra “cheia de si e inspiradora”, segundo ele. Durante o ensino médio nos períodos de gincana escolar, lá estava o jovem dançarino a dançar nas provas. Sara foi a coreógrafa de uma delas. Ela havia o convidado a participar de uma performance sobre movimento negro, mas ele se retraiu. Quis o destino que eles voltassem ao mesmo compasso. Seu outro professor é Okani, que lhe mostrou muito da história da dança como ferramenta de resistência.
Sim, pois muito dos ritmos e danças vêm de culturas popularmente negras, nos guetos, nas batalhas de dança, nos bairros ‘de negro’. Ele entende e valoriza muito poder seguir adiante uma cultura tão linda e cheia de riquezas. Hoje, Regis dança Heels (dança de salão com salto alto), Freestyle, Kpop, entre outros.
Mas entenda. Não caia na armadilha da imagética do ‘preto guerreiro’. Ele mesmo pontua que é triste demais a espetacularização da pauta. A superação nesse caso não há mérito ou vantagem nenhuma. Primeiro por ser árduo, segundo por tornar difícil o que era pra ser um acesso fácil.
Pode não parecer, mas o bailarino é sim uma pessoa letrada racialmente e também cheia de si. Ele também sabe o peso que os trabalhos de destaque de uma pessoa preta tem e muitas vezes elas não se dão conta disso. Há um peso histórico, de acabar se conformando com o apagamento, de um racismo involuntário que consome a própria vítima. Dada mais uma vez a importância do letramento racial.
Existe também um anseio por leis afirmativas mais justas para as pessoas pretas. É categórico ao expor o que acha do escárnio de tentar dizimar o sistema de cotas aqui em Santa Catarina.
“Não faz sentido. Pessoas brancas sempre foram privilegiadas, entende? Por pouco não temos o direito de estudar! É só observar: as pessoas ricas em dinheiro hoje são brancas. Na faculdade, a maioria das pessoas é branca. E tu sente isso na pele. Por que, por exemplo, muitas pessoas simplesmente não têm condições de ter um ensino de qualidade ou uma universidade boa? Conseguir ir para outro estado para estudar simplesmente por serem como são? Quando a gente se depara com isso, pensa: “que sociedade de bosta!”. E ainda tem gente querendo acabar com os benefícios que foi dado por conta da necessidade mesmo”, pondera.
Pacto da branquitude. Lembra dessa palavrinha que eu pedi pra você guardar? Pois é. A nossa sociedade não crê que a mediocridade do pior homem branco pode ser muito melhor que a excelência do melhor homem negro.
A culpa e o receio que ele sentia de ser ele mesmo, com os trejeitos e gosto por dança refletia também que ele se preocupava com o que os outros iam achar dele. Movimentos todos calculados e ensaiados. Era um jogo pra não se soltar demais.
Se quem tem ref, não dorme refém, Regis gabarita. Além dos já listados professores, que mudaram sua vida na dança, ele cita Beyoncé, cantora ícone e símbolo do movimento negro e também a inlfuencer Aline Toffoli, por sempre empoderar as mulheres por um caminho de próprio de autonomia. Além de seu pai, que é um homem negro com muito orgulho. É o ponto de equilíbrio. Olhar com reverência pros mais velhos e também com os mais novos com muita doçura. Doçura não falta em Regis.
O que lhe motiva é saber que o pai, que é pedreiro e mestre de obras não se deixa abater por quem não olha na cara dele direito, quando acham que ele é o empregado por conta da cor. Mesmo sendo dolorido, não esmorece.
Novamente, não caia na alternativa do ‘preto durão’. Cada um reage de um jeito. Talvez por necessidades, ele precise ser assim, mas quando quiser e puder ele pode mostrar sua vulnerabilidade, sem se perder.
Como um filho de sua geração, Régis é hiperconectado e está atento às novas questões sobre o universo afrocentrado brasileiro. E ele acredita que mesmo com tantos cyberdesafios, é possível utilizar as redes sociais como ferramenta de conexão e resgate da cultura negra. Nas escolas, Regis sentiu uma grande mudança de uns anos para cá. Não é mais aquele velho beabá mofado que fala só de Saci Pererê. Ainda se fala no Saci. Deve ser falado mesmo. Mas agora de outra forma, trazendo pra perto a história, falando sobre autores, sobre as lutas e conquistas. São os direitos da lei 10.639 de 2003 fazendo valer da forma como deveria. Mas claro, muita coisa a escola não dá conta. É nosso dever ir atrás de nos letrarmos, de conhecer a história. Mundo ideal.
O jovem também precisa lidar com questões dentro da dança; Como já disse, ele sempre gostou de danças mais feminizadas, fluídas, e que podem ser confundidas como vulgaridade, ainda mais a um homem. Fruto do machismo. Isso aconteceu dentro da própria família. “É isso que eu penso, é isso que os outros vão pensar, e isso vai atrapalhar profissionalmente”. Ele sabe que sensualidade não é sexualizar. Ele pontua que é algo que todo mundo tem e pode trabalhar (até por autoconfiança) e que a profissão é justamente estar com pessoas que também fazem isso.
O que seria um caminho perigoso se tratando de um homem negro. Edsoul contou que durante muitos anos corpos negros foram hiperssexualizados. Regis respalda que no contexto queer, isso acontece com frequência. De ter a insegurança se a pessoa está com ela porque acredita nela ou se trata apenas de um fetiche. São situações que refletem de outra forma neste tipo de vivência e que talvez nem todos entendam a profundidade, mas possam pelo menos mensurar.
Desde pequeno, Regis escutava que tinha que dançar como homem. Ele escutou o conselho. Ele segue dançando porque a pista de dança é toda dele.
Aliás, ele traz uma reflexão muito pessoal e sensível, para coroar esse breakdance de palavras:
“Hoje em dia muitas pessoas têm coragem para assumir ser LGBT. Acredito que por mais que hoje ainda tenha muita violência, muita repressão por conta disso, tem muitas pessoas ainda que são iguais a gente. É com elas que a gente tem que andar, é o nosso grupo, o nosso povo que pratica uma certa cultura. A gente se sente mais livre e é com essas pessoas que a gente tem que seguir. E é sempre sabido. E a gente nunca pode deixar de olhar para dentro de si. Eu tinha medo de ser afeminado, de ser gay. Pensava muito nos outros. Mas a partir do momento que tu tira essa venda de ti e começa a explorar mais, tu começa a se sentir muito mais livre, muito mais capaz. Porque eu acredito que a gente tem a capacidade de alcançar lugares inimagináveis. Só sendo a gente. Obviamente, a gente pode perder por um lado. Mas a gente pode ganhar muito pelo outro. Por mais que tenha bastante a parte do coletivo, tem muito também que o nosso individual”.
A CABEÇA DE UMA MULHER FAZ DELA UMA RAINHA, E SEU MOVIMENTO FAZ O MUNDO GIRAR – Orí eni ní um’ni j’oba

As primeiras referências surgiram antes mesmo da fama, dos livros ou dos grandes palcos. Surgiram dentro de casa. Quando o repórter e apresentador do Jornal do Almoço da NSC TV, afiliada da Rede Globo de Televisão em Santa Catarina, Edsoul Amaral falou sobre mulheres negras, a voz desacelerou, como quem revisitava um território sagrado. “A minha mãe é a realeza que as divindades colocaram neste mundo. Dona Inês, dona Inesquecível, ela é a principal realeza”, afirmou, transformando a própria mãe em símbolo de algo maior que maternidade: resistência.
E talvez seja justamente por isso que ele insistiu tanto em chamá-las de rainhas. Porque, historicamente, o Brasil tentou lhes roubar esse lugar. Tentou apagar suas intelectualidades, silenciar suas vozes e limitar suas existências ao trabalho duro e invisível. Ainda assim, elas permaneceram de pé.
Ao falar de mulheres negras, ele não construiu uma lista fria de nomes importantes. Ele costurou afetos. “Nós temos Conceição Evaristo, nós temos a minha amiga Djamila Ribeiro. Cara, é muita gente, sabe?”, afirmou, reconhecendo mulheres que transformam dor em permanência e intelectualidade em resistência. Depois completou: “Mas eu valorizo principalmente as mulheres. Inicialmente as mulheres. A gente sabe que tem muita gente boa, que tem muitos reis e príncipes por aí. Mas eu enalteço inicialmente as rainhas”.
Existe um momento em que sua fala denuncia uma ausência histórica: o reconhecimento. Porque as mulheres negras sempre estiveram presentes na política, na arte, na educação e na comunicação, mas quase nunca foram colocadas no centro da narrativa. Por isso ele insistiu tanto em exaltá-las.
E entre todas essas mulheres, surgiu também Antonieta de Barros. Não apenas como personagem histórica, mas como prova de que Santa Catarina também foi construída por mãos pretas. “Antonieta de Barros, a primeira mulher preta a ser deputada no nosso país. Professora, política, escritora, jornalista, instituiu o Dia do Professor”, relembrou com orgulho.
Houve ainda a lembrança de outras mulheres que romperam barreiras em silêncio, como Leci Brandão, citada por ele como “uma voz que busca a evolução através do seu bom samba”. Mulheres que transformaram arte em denúncia e presença em resistência.
No fundo, a fala dele carrega uma urgência: fazer com que meninas pretas cresçam sabendo que existiram outras antes delas. Mulheres que sobreviveram, ensinaram, criaram, escreveram, cantaram e resistiram. Mulheres que, apesar do apagamento, nunca deixaram de existir.

Begair Leonor, professora aposentada, mais conhecida como dona Bega, fala sobre resistência negra, inevitavelmente, uma mulher aparece ao lado dessa história. “Referência pessoal para mim em termos de luta, de resistência… Zumbi. Foi o marco da resistência negra no Brasil. A sua esposa Dandara”, afirma, lembrando que a luta da população negra nunca foi construída apenas por homens. Houve mulheres sustentando quilombos, protegendo famílias, resistindo ao racismo e atravessando a violência histórica do Brasil.
Existe algo de silencioso nesse apagamento. Muitas mulheres negras ficaram à margem da história oficial, mesmo sendo fundamentais para a sobrevivência da cultura, da memória e da resistência negra. E talvez por isso ela faça questão de mencioná-las quando fala de força.
Ao lembrar de figuras como Dandara, a fala de Bega ultrapassa a ideia de heroína histórica. Ela se transforma em representação das mulheres negras que ainda hoje precisam lutar para existir com dignidade em uma sociedade marcada pela desigualdade racial. Mulheres que trabalham mais, recebem menos, enfrentam racismo e ainda precisam provar diariamente suas capacidades.
E quando Bega menciona Glória Maria, faz com que a emoção parece ganhar outro tom. Glória não representava apenas uma jornalista. Representava uma ruptura. “Eu vou pegar aqui o jornalismo, que é o caso de vocês, com a Glória Maria. Por que ela abriu o caminho para quanta gente! ”, diz, reconhecendo o peso dessa presença.
A imagem de Glória Maria na televisão significava possibilidade. Significava mostrar para meninas negras que elas também poderiam ocupar espaços antes vistos como inalcançáveis. Durante décadas, mulheres pretas foram invisibilizadas dentro da mídia brasira, quase sempre colocadas em lugares secundários ou estereotipados. A presença de Glória diante das câmeras rompeu esse preconceito.
No fundo, sua fala revela que cada mulher negra que rompe barreiras carrega consigo muitas outras. Carrega as que vieram antes e as que ainda virão depois. Porque a luta delas nunca foi apenas individual. Sempre foi coletiva.
Regis Costa, o dançarino rememora um tema que também reverbera para a realidade das mulheres negras: a estética. Se a cabeça de uma mulher faz dela uma rainha, como pode não gostar da coroa?
“Um cabelo bonito cacheado não é só bonito se ele tiver uma finalização boa, sem frizz, sem nada, sabe? Nosso cabelo sempre vai ser assim, ele sempre vai ter um frizz. É natural. Ele pode ser mais poroso. Isso é algo bom. Sabe que é algo que a partir do momento em que aceita isso, se torna muito mais independente. Meu cabelo tá assim. Tá tudo bem com meu cabelo”, dispara Regis.
E se ele, enquanto vítima de um machismo que segundo o próprio, também é capaz a autoestima de um homem, mesmo com um ego gigantesco, é graças a referências de mulheres como as que ele citou que essas coroas são revistas e enfeitadas. Sejam blacks, volumosos ou mais baixos; tranças Nagô, Box Braids, Fulani, Goddess; Laces, perucas ou até a careca, o que importa é manter a autoestima elevada.
E que bom que hoje o que não faltam são referências. E aqui eu não falo de cabelo. Eu falo de mulheres!
RAÍZES QUE RESISTEM: UMA HISTÓRIA NEGRA QUE O BRASIL AINDA APRENDE A CONTAR – Mimi si mtu binafsi tu; mimi ni jumla ya mababu elfu walioishi ili niwepo

Muitas histórias são contadas no decorrer de nossas vidas, sobre um futuro próximo, do hoje e do passado. Histórias que são vistas conforme escutamos. E muitas vezes não buscamos estudar a fundo cada etapa contada. Com isso existem histórias que são entendidas de um único ponto. Falo isso pois no Brasil a história da população negra não começa nas correntes que impossibilitaram de vivenciarem sua real cultura, história, e talvez esse seja o primeiro silêncio que precisa ser rompido. Poucos sabem que antes mesmos da violência do tráfico, os negros tinham seus reinos, ciência, cultura e tecnologia. Havia reis e rainhas. Havia humanidade plena. Mas essa narrativa foi, ao longo dos séculos, sendo apagada, reduzida e distorcida. “Existia a realeza negra, e isso não é contado para nós”, afirma o historiador Ivan de Sousa Ribeiro, ao lembrar que o desconhecimento sobre a grandeza das sociedades africanas ainda molda a forma como o presente enxerga o passado.
Ivan com sua vasta experiência vivida fala com a calma de quem atravessou décadas estudando e enfrentando o racismo. Militante desde os anos 1980, ele construiu sua trajetória no combate às múltiplas formas de discriminação, entendendo cedo que o racismo não é um fenômeno isolado, mas parte de uma engrenagem maior. “Eu fui tentar entender o que era racismo e percebi que não bastava falar só de negritude. O preconceito atinge várias dimensões da vida social”, explica. A população negra tem muitas lutas e o historiador demonstra que em décadas estudando, conhecendo e entendendo cada desafio faz ele querer mais agarrar suas raízes e começa a desmontar mitos.
A escravidão moderna não pode ser confundida com formas anteriores de servidão. Antes da chegada europeia, conflitos entre povos africanos resultaram em prisioneiros que, muitas vezes, eram integrados às comunidades vencedoras. “A partir do momento em que os portugueses chegam, o corpo negro passa a ser mercadoria. Isso desestabiliza completamente a estrutura africana”,
Essas populações vieram com tráfico negreiro. Milhões de seres humanos foram sequestrados, arrancados de suas terras e trazidos em condições desumanas. Ivan lembra que muitos desses indivíduos não eram apenas trabalhadores forçados, eram líderes, intelectuais, detentores de saberes sofisticados. “Eles dominavam a metalurgia, a ciência e a tecnologia. Esses conhecimentos foram fundamentais para a construção do Brasil”, destaca.
Mesmo com toda essa dor por eles vivida, a história oficial insistiu em silenciar essas realidades. Nas escolas, por muito tempo, as histórias eram contadas de forma reduzida: com as simples informações, europeus chegaram, construíram; negros foram escravizados e depois libertos. Fim. “Isso torna invisível a história real da população negra”, critica Ivan.




Historiadores: Ivan de Sousa Ribeiro e Normélia Ondina Lalau de Farias.
Essa invisibilidade não é acidental; ela sustenta desigualdades que atravessam gerações. Após a abolição da escravidão, em 1888, a população negra foi lançada à própria sorte, sem acesso à terra, educação . “Os negros foram libertos sem nada. Enquanto isso, imigrantes europeus recebiam terra, ferramentas e incentivos para começar uma nova vida”, explica. Mostrando que essa diferença é brutal e ajuda a entender por que, ainda hoje, o Brasil carrega marcas profundas de desigualdade racial. O historiador aponta que essas diferenças não desapareceram, apenas se transformaram. “Mesmo quando o negro consegue estudar, se formar, os mecanismos se reinventam para impedir o acesso pleno à cidadania”, afirma.
As transformações do racismo ela é vista no mercado de trabalho, na violência policial, no acesso à universidade. Dados citados por Ivan de Sousa Ribeiro mostram uma realidade persistente: a população negra é maioria nas prisões e minoria nas universidades. “Isso não é acaso. É fruto de uma construção histórica”, diz.
Com muita luta e dor na busca de mostrarem que são dignos e merecem ser iguais a todos, fez com que exigisse novas formas de ajudarem a diminuir essa diferença, através de novas oportunidades. Políticas como as cotas raciais surgem como tentativa de corrigir distorções. Para o historiador, elas não são privilégios, mas meios de equilíbrio. “Cotas são políticas temporárias para corrigir desigualdades históricas. Enquanto uns começaram com tudo, outros começaram do zero ou até abaixo disso”, explica Ivan de Sousa Ribeiro.
Mas a transformação é necessária e vai além das leis. Passa pela educação e, principalmente, pela forma como a história é ensinada. Ivan defende que a inclusão da história e cultura africana nos currículos escolares é essencial para reconstruir identidades e combater o racismo desde a base. “Quando o aluno negro não se vê na história, ele não se reconhece como parte da construção do país”, afirma.
Antes mesmo de existir uma lei federal no Brasil, Ivan participou de um processo de iniciativa de inclusão da educação afro nas escolas em Criciúma, SC, ainda nos anos 1990. Foi um processo difícil, marcado por resistência e incompreensão. “Diziam que era uma lei racista. Mas não é sobre dividir, é sobre incluir”, relembra Ivan. Apesar dos avanços, ele reconhece que o caminho ainda é longo. O racismo, ele continua, mas de uma forma mais silenciosa, mas existente quase imperceptível, mas não menos presente. Ao mesmo tempo, há um movimento crescente de valorização da identidade negra. “Cada vez mais pessoas estão se reconhecendo como negras e valorizando sua história”, observa.
No fundo, o que está em disputa é mais do que memória é o direito de existir plenamente. A luta continua sendo por uma sociedade onde a cor da pele não determine o destino de ninguém. “A democracia só existe de verdade quando todos têm acesso às mesmas condições”, afirma Ivan.
RACISMO E VIOLÊNCIA – “Ruo mgbe ọdụm nwere ndị na-akọ akụkọ ihe mere eme nke ha, akụkọ banyere ịchụ nta ga-anọgide na-eto onye dinta”
Ivan falou do racismo sem metáforas suaves. Chamou de atrocidade. “Mesmo com tantos percalços, com tantas dificuldades, com tantos abismos provocados por essa palavrinha, atrocidade chamada racismo, a gente consegue evoluir”, afirmou.
A frase carregou o peso de uma violência cotidiana que nem sempre aparece nos jornais policiais, mas que se infiltra nos detalhes: no olhar desconfiado, na oportunidade negada, na necessidade permanente de provar valor para simplesmente existir.
Porque ser negro em Santa Catarina, segundo ele, significava viver em constante estado de comprovação. “Quem está aqui e é preto tem que estar constantemente provando que pode, que é capaz, que alcança, que quer chegar”, afirmou.
Quando falou de Santa Catarina, não falou apenas de geografia. Falou de um território onde pessoas negras muitas vezes precisam lutar para serem reconhecidas dentro da própria terra. Um estado que produz artistas, intelectuais, escritores e lideranças negras, mas que insiste em invibilizá-los.
Houve dor nessa constatação. Uma dor que apareceu quando ele citou nomes como Cruz e Sousa, Antonieta de Barros, Idelfonso e Juvenal. “Nós temos diversos nomes muito fortes em Santa Catarina para que a gente continue tentando apagar, sabe? Isso não vale”, afirmou.
E o racismo, segundo ele, não era apenas ofensa direta. Era apagamento. Era ensinar pessoas negras a não admirarem a si mesmas. “Nós aprendemos a não admirar pessoas como o Jota.pê, por exemplo. Maravilhoso, negro, retinto, lindo, sabe? Vini Jr. maravilhoso”, relatou.
Talvez o trecho mais doloroso tenha surgido quando falava das consequências emocionais dessa luta constante. “A gente dá murro em ponta de faca, empurra mais um pouco, vai mais um pouco, volta um pouco. Se maltrata, se frustra muitas vezes, chora, sofre. Mas a nossa busca é muito maior”, afirmou.
A violência apareceu justamente aí: no desgaste acumulado de quem precisa sobreviver em um ambiente que frequentemente questiona sua presença, sua inteligência e sua capacidade.
Ainda assim, ele não falou apenas de dor. Existiu enfrentamento. Existiu resistência. Porque mesmo atravessados pelo racismo, homens e mulheres negros continuaram criando, estudando, cantando, escrevendo e ocupando espaços. Continuaram existindo apesar de tudo aquilo que tentou impedi-los.
Dona Bega fala sobre o racismo como uma dor antiga, que continua presente até hoje na vida da população negra. Para explicar isso, ela relembra a história de Cruz e Sousa, um dos maiores escritores da literatura brasileira. Filho de uma mulher escravizada, ele enfrentou dificuldades desde criança apenas por ser negro. Sua história mostra como o racismo sempre dificultou o acesso de pessoas negras à educação, ao reconhecimento e aos espaços da sociedade. “A mãe dele veio com ele pequeno e não podia matriculá-lo na escola, porque nem nome ele tinha.” A violência não estava apenas na escravidão. Estava também na retirada da identidade. “O nome que eles diziam era sobrenome, tinha que ter um sobrenome. Por isso que ele é Souza, porque era do patrão. Dos pais era Cruz. E por isso Cruz e Souza.” A frase expõe um país onde pessoas negras precisavam carregar o nome da estrutura branca para terem acesso ao básico: estudar, existir socialmente, serem reconhecidas.”
Ainda criança, Cruz e Sousa já enfrentava as marcas de um sistema que impedia pessoas negras de ocuparem espaços básicos, como a educação. Mesmo assim, tornou-se um dos maiores escritores da literatura brasileira. Transformou exclusão em arte. Transformou dor em poesia.
Ao citar também Machado de Assis e outros escritores negros, ela mostra que o racismo nunca foi algo distante dessas trajetórias. “E grandes escritores da literatura brasileira, como José Bonifácio, como Cruz e Souza, como Machado de Assis, que eram pessoas que relatavam muitas histórias tentando combater o racismo, porque era alguma coisa que eles sofriam bastante”.
Mas o racismo não ficou preso ao passado. Ele continua presente nas experiências atuais da população negra. Surge nos espaços onde pessoas negras não são bem recebidas, nos olhares atravessados, nas dificuldades silenciosas enfrentadas diariamente.
“Tu pode não ser bem recebido em alguns lugares? Pode”. A frase soa simples, mas carrega décadas de exclusão social. Porque o racismo muitas vezes não se apresenta de maneira explícita. Ele aparece em portas que não se abrem, em oportunidades negadas, em ambientes onde pessoas negras precisam constantemente provar seu valor.
E ainda assim, ele insiste em afirmar que nenhuma dessas negativas diminuem. “Mas não é isso que vai tirar a tua valorização pessoal. Não é isso que vai te diminuir como pessoa, como profissional”.
Como se lutar contra o racismo também fosse uma batalha interna para impedir que a violência estrutural destrua a autoestima e a identidade.
O QUE A SOCIEDADE TENTA ESCONDER, NO BRILHO RESPLANDECE
Durante muito tempo, ela tentou esconder o próprio corpo.
Não porque quisesse. Porque aprendeu que precisava.
Quando entrou na primeira graduação, ainda adolescente, Normélia Lalau usava macacões fechados no peitoral numa tentativa silenciosa de diminuir aquilo que diziam ser “demais”. Os comentários vinham de fora, mas aos poucos ocupavam espaço dentro dela. “Muitas vezes foi dito para mim que era muito feio ter os seios grandes”, lembra.
Hoje, professora e coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), Normélia fala sobre racismo estrutural entendendo que ele não se manifesta apenas em ofensas explícitas. Ele também aparece nas tentativas constantes de moldar corpos, comportamentos e existências negras a padrões considerados aceitáveis.
“Eu não posso querer ter um corpo mignon, ter a cintura fininha como uma mulher negra, a minha genética é outra”, afirmou.
A percepção veio com o tempo. Mas foi um processo.
Na juventude, acreditava que as roupas largas poderiam esconder aquilo que a sociedade insistia em transformar em inadequação. O corpo negro, segundo ela, sempre esteve atravessado por julgamentos que vão além da aparência. Nariz, cabelo, lábios e corpo passam a ser observados como elementos que precisam se encaixar em uma lógica estética historicamente construída a partir de padrões brancos.
E isso começa cedo.
Normélia conta que o racismo se infiltra em experiências cotidianas, muitas vezes naturalizadas. Comentários aparentemente simples carregam ideias profundas sobre aceitação, pertencimento e controle. Em uma das situações que relembra, um aluno do ensino médio questionou suas roupas estampadas de forma debochada.
“Cruzes, professora, não tinha outra roupa pra botar?”, ouviu.
Ela respondeu sem alterar quem era.
Disse ao aluno que gostava de roupas estampadas e que nunca foi “uma pessoa monocromática”. Depois completou: “Eu nunca vou ceder àquilo que querem que eu seja. Eu sou assim”,declarou.
Dias depois, o estudante pediu desculpas.
Para Normélia, o episódio ultrapassa a questão da roupa. Trata-se da tentativa constante de enquadrar pessoas negras dentro de comportamentos, aparências e padrões considerados mais confortáveis socialmente.
Ao longo da vida acadêmica, ela percebeu mudanças na própria forma de se enxergar. Não porque os padrões deixaram de existir, mas porque passou a questioná-los. Entendeu que não precisava reduzir a si mesma para caber em expectativas externas.
Ainda assim, reconhece que esse processo não acontece de forma simples.
O racismo estrutural, segundo sua experiência, opera justamente naquilo que parece pequeno. Nas observações cotidianas, nas críticas disfarçadas de opinião, nos modelos de beleza impostos e na tentativa constante de transformar diferenças em inadequações.
É um racismo que não precisa necessariamente se anunciar em agressões diretas.
Ele aparece quando alguém aprende, desde cedo, que precisa esconder partes de si para ser aceito.
E permanece enquanto corpos negros continuarem sendo vistos como algo que precisa ser corrigido, suavizado ou reduzido.
Já o Regis mesmo tão novo chegou a ser confundido como branco por algumas pessoas. E sabe naturalmente que é negro desde que se entende por gente. Novamente entra-se na questão do colorismo. Porém ele vai na contramão da pirâmide dos privilégios explicados por Normélia.
“No fim do dia vai sofrer racismo igual. Mas não acredito que quem faz isso difere da pigmentação. Amigos meus de pele mais escura sofreram o mesmo racismo que eu também já sofri”, justifica.
Em casa desde muito novo, sua mãe já fazia o rito de preparação tristemente típico de pessoas negras: “Regis, não anda de cara fechada e só segue reto teu caminho”. Porque caso contrário, nem preciso dizer o que aconteceria.
O que faz com que até a estética seja uma armadura, um escudo de proteção. De estar sempre bem arrumado. Pois o mínimo de desleixo era o suficiente para ser confundido como membro de qualquer grupo marginalizado que a gente vê pelas cidades, finge que não é com a gente e nunca reparou que são quase sempre pessoas de pele mais escura e traços afrocentrados e se questionou o porque será?
“Mês passado, eu estava voltando pra casa e eu tinha visto a lua bem bonita no céu. Eu queria tirar uma foto e nisso dois policiais me pararam. Eles perguntaram de onde eu estava vindo. Eu estava saindo do bairro onde eu morava. Eu morava na rua da frente e eles entraram. Vieram perguntar o porquê que eu estava tirando foto da casa dos outros. Isso é um absurdo. Na hora eu gelei, mas no fim a gente precisa se proteger. Precisamos infelizmente cuidar até da visão que os outros vão ter da gente”, ponderou.
Ele ressalta ainda que muita gente passa por situações como essa e não consegue reconhecer por falta desse letramento. Não há sorte nenhuma em não perceber. Não há sorte nenhuma em perceber.
ENTRE O DIREITO E A RESISTÊNCIA, UMA TRAJETÓRIA CONSTRUÍDA

Ela fala com precisão. Não apenas pela formação jurídica, mas pela consciência de quem entende, na própria trajetória, os caminhos que precisou percorrer para chegar até ali.
“Meu nome é Myrela Olívia, eu tenho 28 anos, eu sou advogada, especialista em direito antidiscriminatório”. A apresentação vem acompanhada de outras posições que ajudam a dimensionar o lugar que ocupa hoje: presidente da Comissão de Igualdade Racial da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e articuladora nacional no sistema de justiça, atuando com mulheres trans, travestis negras e indígenas.
Antes dessas conquistas, houve o reconhecimento. E ele veio cedo.
Myrela conta que se percebeu enquanto pessoa negra ainda na infância, por volta dos seis ou sete anos, a partir da diferença. Os colegas não eram parecidos com ela. Mas foi alguns anos depois, aos dez, que essa percepção deixou de ser apenas observação e passou a ser vivência.
O racismo, segundo ela, se apresentou de forma concreta quando começou a entender que não existia igualdade de oportunidades. Havia espaços que conseguia acessar pelo mérito educacional. Outros, não. E a diferença, muitas vezes, estava na cor da pele.
Esse entendimento atravessou sua relação com o trabalho desde cedo. A percepção de que, mesmo com formação semelhante ou até superior, pessoas negras poderiam ser preteridas fazia parte de uma realidade que ela não descreve como exceção, mas como recorrência.
Ainda assim, o caminho seguiu.
Antes do direito, Myrela esteve na educação. Formou-se inicialmente em artes visuais e trabalhou com educação infantil, experiência que também contribuiu para ampliar sua leitura sobre o racismo, especialmente no ambiente escolar. Ela relata ter atuado em uma escola classificada como “zona vermelha”, localizada em um bairro marginalizado, frequentado majoritariamente por crianças negras.
Nesse contexto, percebeu como o racismo também se manifesta por meio de expectativas sociais. Não apenas sobre quem a pessoa é, mas sobre o que se espera dela. Crianças que, segundo essa lógica, não eram vistas como futuros profissionais, mas como possíveis problemas.
A transição para o direito trouxe novos desafios.
Ao ingressar na graduação, por meio de um sistema de bolsas, Myrela passou a conviver em um ambiente majoritariamente branco e elitizado. A diferença social e racial não era apenas perceptível, mas constante. Colegas com realidades distantes da sua, com trajetórias marcadas por privilégios que não faziam parte do seu cotidiano.
Diante disso, ela adotou uma estratégia clara. “Eu sempre levava em conta, todos os dias, que eu tinha que ser 20 vezes melhor do que qualquer outra pessoa da minha sala”.
E foi assim que construiu uma de suas conquistas mais silenciosas, mas significativas: o desempenho acadêmico. Mesmo sem estar presente em todas as aulas, chegava às avaliações e alcançava as maiores notas entre os colegas. Um resultado que não aparece como acaso, mas como resposta a um contexto que exigia mais.
Entre as conquistas que ela destaca, há uma que ultrapassa o espaço individual e ganha dimensão coletiva.
No ano anterior, Myrela participou do Parlaméricas, um encontro que reúne representantes de países da América do Norte, Central e do Sul. Durante cinco dias, em Brasília, integrou um grupo formado por jovens de diferentes estados brasileiros para elaborar um documento sobre a violência contra meninas e mulheres no país.
O trabalho foi construído em diálogo com representantes de outros países, como México, Granada e República Dominicana, e entregue ao Senado Federal ao final do encontro.
Ela menciona essa experiência como uma das mais marcantes de sua trajetória. Um espaço de articulação internacional, de produção política e de construção coletiva, onde sua presença não foi apenas individual, mas representativa.
Ao olhar para sua própria caminhada, Myrela reconhece também a conquista de ter se tornado advogada. Um percurso que envolve formação, adaptação, enfrentamento de desigualdades e permanência em espaços que, muitas vezes, não foram pensados para pessoas com sua origem.
Na prática profissional, ela atua diretamente com questões relacionadas ao direito antidiscriminatório. Lida com casos em que o racismo se manifesta de forma explícita e também em situações mais estruturais, inclusive dentro do próprio sistema judiciário.
Em sua atuação, identifica diferenças na aplicação de penas entre pessoas negras e brancas que cometeram crimes semelhantes. A partir disso, seu trabalho também passa por apontar inconsistências e questionar decisões, utilizando o próprio direito como ferramenta.
As conquistas, nesse percurso, não aparecem isoladas.
Elas se constroem em meio a desafios, estratégias e decisões. Em ambientes onde, muitas vezes, é preciso escolher como reagir, como permanecer e como avançar.
Ao final, quando fala sobre quem está começando, Myrela não simplifica o caminho. Reconhece a persistência como parte do cotidiano de pessoas negras, mas aponta para a necessidade de desenvolver estratégias. Para ela, avançar também passa por saber como se mover dentro dos espaços.
Não há promessa de facilidade.
Mas há, na própria trajetória dela, a demonstração de que ocupar esses espaços é possível.
PRA FRENTE QUE SE ANDA! – Isikhuni sibuya nembaseli
As conquistas da população negra, na fala dele, nunca apareceram como acaso. Nenhuma vitória veio fácil. Nenhum espaço foi entregue. “A gente consegue, através dos nossos próprios esforços, chegar no patamar que nós merecemos”, afirmou.
Cada avanço pareceu carregado de esforço coletivo, como se cada pessoa preta que chegasse mais longe carregasse muitas outras consigo.
“Quando a gente ocupa com maestria, a gente tem uma responsabilidade que é de trazer a próxima ou o próximo”, afirmou, transformando conquista em compromisso coletivo. Crescer sozinho não bastava. O verdadeiro avanço acontecia quando o caminho deixava de ser individual e passava a virar ponte.
Por isso ele falou de artistas negros com tanto orgulho. “Eu quero ver o Lázaro trazer muita gente. Ele faz isso. A gente tem Léa Garcia, nós temos Zezé Motta, nós temos diversas atrizes e atores pretos brilhando”, afirmou.
Existe algo profundamente político quando ele falou sobre atores negros “fazendo dez vezes melhor”. “É óbvio que a atriz e o ator estão fazendo dez vezes melhor, que o jogador vai fazer melhor, porque ele tem que ocupar aquele espaço e ele sabe que representa muita gente”, afirmou.
Mas as conquistas não apareceram apenas na televisão ou na música. Estiveram nos livros escritos por autores negros, nos professores, nas doutoras, nos artistas de periferia, nos esportistas, nos comunicadores da favela. Estiveram nas pequenas vitórias diárias de quem continuou avançando apesar das barreiras.
E foi nesse momento que surgiu a filosofia Sankofa. “A filosofia Sankofa faz você voltar no seu passado e entender todo o processo de pavimentação, para então estar no presente e projetar o seu futuro”, explicou.
Ele falou disso quase como um conselho urgente às novas gerações negras: conhecer a própria história era fundamental para construir futuro. “Você é tão capaz quanto qualquer pessoa branca”, afirmou, não como frase de efeito, mas como resposta direta a séculos de desumanização.
Ao mesmo tempo, alertou para a importância de não esquecer os próprios semelhantes durante a caminhada. “Não menospreze os seus. Porque se você menosprezar os seus ou achar que você é melhor que alguém, você acaba encontrando uma realidade nada agradável que vai impedir a sua evolução”, afirmou.
No fim, seu olhar é voltado à esperança. Uma esperança construída não na ingenuidade, mas na permanência. Apesar do racismo, apesar do apagamento, apesar da violência histórica, a população negra continuou evoluindo. Continuou ocupando espaços. Continuou transformando a ausência em presença.
E talvez essa tenha sido a maior conquista de todas: permanecer existindo com orgulho em um país que tantas vezes tentou impedir isso.
As conquistas da população negra, conforme Bega, nunca vieram sem dor. Foram construídas “à custa de muito esforço, muito sangue de muita gente. Eu digo suor e sangue de muita, muita gente”.
Cada espaço ocupado hoje carrega a memória de quem precisou resistir antes. Por isso ela fala das vitórias negras com tanto orgulho. Porque sabe que elas não surgiram naturalmente. Foram arrancadas de um sistema que durante muito tempo reservou à população negra apenas posições subalternas.
No jornalismo, ele encontra em Glória Maria um símbolo dessa transformação. Uma mulher negra que entrou na televisão brasileira em tempos muito mais hostis e abriu caminho para outros profissionais negros ocuparem redações, estúdios e espaços de destaque.
“Hoje tu assiste a um telejornal, tu vês jornalistas e repórteres em grande quantidade negros. E foi fácil para ela lá atrás? Com certeza não”. A frase carrega reconhecimento e também denúncia. Porque mesmo com avanços, Bega acredita que as dificuldades continuam presentes.
As conquistas aparecem também na medicina, na engenharia, no direito… “Mas aí nós temos médicos, advogados, engenheiros e tudo mais”, afirma, mostrando que pessoas negras começam a ocupar espaços historicamente negados.
Uma evolução que se obteve no decorrer dos anos foi o papel dos negros em televisão.
“Porque a gente sempre vê a maioria dos atores e atrizes negros no papel de empregado, de cozinheiro, de porteiro, de motorista. Todos os papéis subalternos. E agora a gente vê como protagonista”. A frase carrega alegria genuína. Enxergar pessoas negras ocupando o centro das histórias também ajuda a reconstruir imaginários sociais. “É uma alegria bastante intensa assim, pelo menos para mim é. Eu fico muito feliz em ver o protagonismo deles nas novelas”, afirma Bega.
E no fim, ela transforma essa conquista em conselho para as próximas gerações. “Eu penso que essa questão da autoafirmação, de gostar de si como é, como pessoa negra, é estar bem resolvido consigo nessa questão”.
Valorizar a própria identidade negra, segundo ela, também é uma forma de resistência.
“A gente precisa auxiliar as pessoas a fazerem esse resgate, a se valorizar, a se amar como se é”.
O tempo é rei. Soberano e de justiça implacável. Ele é quem modifica, é capaz de cicatrizar, de fazer o certo pelo certo. Essa é a sua maior majestade e talvez a maior conquista da população negra seja justamente essa: continuar existindo com orgulho em um país que durante séculos tentou convencer essas pessoas de que elas não pertenciam aos lugares que sempre ocuparam, hoje com holofotes.
O tempo é cíclico. Essa máxima de muitas culturas africanas nunca fez tanto sentido simbólico no que diz respeito à própria história.
Reportagem produzida pelas acadêmicas do curso de Jornalismo da UniSATC: Arthur Bernhardt, Cristian Veronez e Raquel Formigoni, sob a orientação do professor Eduardo Prestes.
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