Em 2015, um crime brutal praticado contra quatro adolescentes chocou o Brasil. Conhecido como “Barbárie de Castelo do Piauí“, o caso envolveu quatro meninas que foram estupradas, rendidas, amarradas, espancadas e arremessadas de um penhasco com cerca de 10 metros de altura. A ação causou surpresa não apenas pelos atos em si, mas pela idade dos agressores: quatro meninos entre 15 e 17 anos.
Atualmente, o comportamento agressivo contra o gênero feminino ultrapassa a coação física e se estabelece também em ambientes digitais. Nas redes sociais, publicações de jovens, em sua maioria menores de idade, têm repercutido por suas mensagens. Em vídeos, eles aparecem simulando agressões verbais ou físicas ao receberem uma negativa de interação de mulheres, como um pedido de namoro negado, por exemplo.
Esses exemplos, somados a milhares de outros registrados nas últimas décadas, levantam um questionamento central: a violência contra a mulher nasce apenas na vida adulta ou ela já é cultivada desde a juventude?

Embora a idade média das vítimas de violência contra a mulher em Santa Catarina seja de 36,5 anos, dados do Mapa do Feminicídio, levantados pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), revelam que o ciclo de abusos possui raízes profundas na adolescência.
A faixa entre os 10 e 19 anos é identificada como um período crítico de transição. Enquanto na infância predomina a negligência, na adolescência a violência assume faces de controle e agressão sexual. Somente em 2023, foram notificados 739 casos de agressão praticados por jovens na faixa dos 10 a 14 anos, enquanto a faixa de 15 a 19 anos registrou 258 ocorrências. O levantamento revela ainda que 6,7% desses episódios acontecem no ambiente escolar.
O papel da escola na naturalização de discursos violentos
Na escola, local onde parte das relações sociais é construída, a misoginia aparece de forma precoce. Segundo a orientadora escolar Flávia Tiburcio, nos últimos anos os comportamentos tornaram-se mais explícitos entre os adolescentes. Para ela, a exposição constante às redes sociais e a naturalização de discursos violentos incentivam a repetição dessas práticas.
“Antes essas atitudes eram mais veladas. Hoje, eles escancaram mais, parecem não ter receio do que pode acontecer. O que percebemos é que esses jovens acabam reproduzindo comportamentos aceitáveis dentro de seus grupos. Se não há orientação em casa, ou se os responsáveis aceitam tais atos, eles não compreendem a gravidade”, afirma Flávia.

Tais atitudes, frequentemente tratadas como “brincadeira”, podem funcionar como porta de entrada para práticas de controle e humilhação na vida adulta. Apesar de ser um espaço de prevenção, educadores ainda enfrentam dificuldades por falta de formação específica. “Os próprios professores ainda estão inseridos em um machismo enraizado. As situações chegam e não temos um preparo específico para lidar com elas”, relata a orientadora.
Programa ‘Catarina por Elas’
Iniciativas recentes, como o programa ‘Catarina por Elas’, foram criadas para trabalhar a prevenção da violência contra a mulher dentro das escolas catarinenses. No entanto, Flávia ressalta que ações pontuais não são suficientes sem continuidade e capacitação permanente dos profissionais que convivem diariamente com os estudantes.
“É difícil ter uma prática totalmente eficaz, porque depende de múltiplos fatores. Não depende só da escola. Mesmo que o projeto seja bem estruturado, ele precisa da colaboração e do envolvimento das famílias. Sem isso, se torna impossível”, alega.

Manutenção da violência reside em um pacto de silêncio
A ausência de intervenção diante de comportamentos agressivos na juventude pode consolidar o que a psicologia denomina como “desengajamento moral”. Segundo o psicólogo Marcos Madeira, a violência contra a mulher é um comportamento aprendido. Quando um jovem pratica atos de coação sem ser responsabilizado, como o controle excessivo ou o assédio, ele passa a naturalizar essas ações como parte de seu repertório social.
“O menino aprende que ser homem é controlar e que pode usar a humilhação e o ciúme como poder. Isso escala porque a cultura frequentemente joga a culpa na vítima. Isso é uma situação que vai se agravando por conta da nossa própria cultura”, explica Madeira. Ele aponta que a manutenção dessa violência reside em um pacto de silêncio.
“Precisamos quebrar o silêncio. Quando um cala e o outro ri, a violência continua. Quando alguém diz ‘isso não é da hora’, o ciclo quebra. Esse tipo de fala interrompe toda a situação. A violência não é falta de amor. É excesso de posse, é a falta de limites”, reforça.
O especialista defende que o cenário não é imutável. Para ele, o caráter educativo é a chave para redirecionar esses jovens antes que as atitudes se consolidem.
Ato infracional: Quando a “brincadeira” vira processo
A percepção de que a violência de gênero está ganhando força na juventude não fica restrita aos muros das escolas; mas também nas delegacias catarinenses. A policial civil Isabel Feijó relata que a demanda por palestras em instituições de ensino tem crescido justamente devido ao aumento de casos envolvendo meninos com linguagens e comportamentos agressivos.
Segundo ela, o fenômeno é impulsionado pela facilidade com que a tecnologia dissemina conteúdos misóginos, como o movimento Redpill, que atrai um público masculino cada vez mais jovem.

“Têm chegado casos de agressões envolvendo adolescentes meninos em face de meninas, e muitas com cunho sexual. A tecnologia e as redes sociais conseguem naturalizar esse comportamento, criando uma linguagem sexualizada e atos de importunação que atingem inclusive crianças”, observa a policial.
Muitas vezes, os comportamentos agressivos reproduzidos por jovens nas redes sociais são minimizados pelos próprios autores como “brincadeiras de mau gosto”. No entanto, Isabel esclarece que a legislação não se baseia na intenção do adolescente, mas sim na descrição do ato praticado.
Quando esses comportamentos configuram atos infracionais, entra em cena a Polícia Civil. O delegado da Delegacia de Proteção a Criança, Adolescente e Idoso (DPCAI) de Criciúma, Marcelo Sampaio Nogueira, explica que a procedência legal é a apuração sob a ótica do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
“Finalizado o procedimento, ele é encaminhado ao Ministério Público, que analisa o caso e pode solicitar a intervenção da rede de proteção ou representar por medidas socioeducativas, decididas pelo Judiciário”, detalha Nogueira.
Embora a polícia investigue, a definição das medidas socioeducativas é uma decisão exclusiva do Poder Judiciário. “O Ministério Público conduz a ação e representa pela medida que entende ser a correta conforme o ECA, e o juiz decide se é cabível a aplicação ou não”, conclui.
A escala dessas punições, que varia de uma simples advertência formal até a internação em unidades socioeducativas, depende da gravidade da conduta.

Grupos de Reflexão: Como a justiça de SC trabalha a reeducação masculina
Quando a violência se torna um caso judicial, a justiça de Santa Catarina busca caminhos que vão além da punição. Articulados pelo Ministério Público e pelo Tribunal de Justiça (TJSC), os Grupos de Reflexão para Homens focam na responsabilização e educação.
Diferente de um ambiente punitivo tradicional, esses grupos são espaços de diálogo voltados para a revisão de comportamentos e masculinidades. O foco é fazer com que o homem assuma a responsabilidade por seus atos e desconstrua padrões de dominação.
Mas como funcionam esses grupos em Santa Catarina?
- A dinâmica é baseada em rodas de conversa mediadas por psicólogos e assistentes sociais. Não há um tom “escolar”, mas sim uma troca de vivências sobre temas como gestão de emoções, cultura de gênero e violência familiar;
- Geralmente ocorrem em ciclos de 8 a 12 encontros semanais ou quinzenais;
- No estado catarinense, o ingresso ocorre principalmente por encaminhamento judicial em varas de violência doméstica.
O objetivo desses grupos reside na capacidade de romper a reincidência. Ao oferecer um ambiente seguro para que o homem expresse sentimentos que a “masculinidade tóxica” costuma reprimir, como angústias e medos, o projeto visa transformar a agressividade em autoconhecimento.
É a tentativa de garantir que o jovem que reproduz discursos misóginos na internet não se torne o próximo agressor ou, caso já tenha cometido um ato violento, que ele possa desnaturalizar esse comportamento e construir relações baseadas na equidade e no respeito.
Onde buscar ajuda e denunciar
Se você é vítima ou presenciou algum ato de violência, utilize os canais oficiais:
- 190 (Polícia Militar): Emergências e flagrantes;
- 181 (Disque-Denúncia da Polícia Civil): Denúncias anônimas;
- Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher): Orientações e registros de denúncia.
Reportagem produzida pelas acadêmicas do curso de Jornalismo da UniSATC: Ana Julia Rocha, Gabrielle Rebelo e Isabela Baldin
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