Durante anos o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) eram associados a crianças visivelmente inquietas ou isoladas. Hoje, consultórios psiquiátricos e psicológicos registram avaliações clínicas de indivíduos na fase adulta que passaram anos “se sentindo diferentes” e que agora encontram respostas na neuro divergência.
O principal motivo pelo qual muitas pessoas foram diagnosticadas com uma condição neuro divergente somente na vida adulta é chamado de masking ou camuflagem social. Trata-se da capacidade inconsciente de imitar comportamentos de sobrevivência social para parecer um neurotípico.
É o caso da escritora Caroline Henriques que foi diagnosticada aos 35 anos. Após nove anos de investigação, Caroline recebeu o diagnóstico de autismo nível 1 enquanto vivia o luto do seu pai. “Resolvi procurar por respostas após uma crise muito forte que tive, o que ocasionou uma internação imediata, que logo de início identificaram como ansiedade e depois autismo”, relata.
Foram anos transitando entre graduações e empregos e sempre se fazendo a mesma pergunta: “porque eu sou diferente e não me encaixo em lugar nenhum?”. Críticas e cobranças já eram algo constante na vida dela. “Antes do diagnóstico eu trilhei oito faculdades, iniciei inúmeros cursos, me formei em uma graduação e passei por vários empregos. Tinha um chefe que me chamava de incompetente com uma certa frequência”, conta Caroline.
Com a chegada do diagnóstico, Caroline relata que sentiu um certo alívio, como se finalmente tivesse encontrado respostas para algumas situações que enfrentou antes do laudo. “Todas as negações e limitações que tive foram compreendidas. Era como se aquilo me dissesse que “você agiu daquela forma por causa disso e se sentiu daquele jeito porque você funciona assim”, afirma a escritora.
Além do papel: protocolo clínico
O que na infância costumava ser visto como um hábito de enfileirar coisas ou organizar lápis de cor por tamanho, na vida adulta pode se tornar a necessidade de alinhar quadros na parede, ajustar obsessivamente os tapetes da casa ou até ordenar grampos ao estender roupas no varal.
Longe de ser mania, a rigidez cognitiva é uma das características investigadas na avaliação neuro psicopedagógica voltada para o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em adultos.
De acordo com a psicóloga Débora Panato, a busca por respostas tem crescido muito, principalmente por livre demanda, ou seja, quando as pessoas decidem investigar o próprio funcionamento. “A avaliação neuropsicológica pode ser solicitada por um médico, psiquiatra ou neurologista. Também pode acontecer da pessoa não passar por um médico, mas percebe que tem algumas características e resolve buscar avaliação” relata Débora.
Na avaliação neuropsicológica, a observação clínica, o relato e a análise clínica se tornam ainda mais importantes. Débora relata que em alguns casos o paciente encaminhar fotos e vídeos do dia a dia ajudam a identificar comportamentos. “Essas pequenas coisas são utilizadas para sustentar uma hipótese de diagnóstico ou refutá-la”, conta a psicóloga.
A investigação do diagnóstico varia de acordo com a idade do paciente, enfrentando dificuldades para testes em adolescentes pela escassez de testes específicos. Já na avaliação de adultos, Débora investiga a inteligência, memória auditiva, funções executivas e os diferentes tipos de atenção.
A camuflagem social, conhecida como masking, é mais frequente em mulheres por conta da pressão social histórica devido ao esforço constante para se adaptar, o que acaba atrasando o diagnóstico e exaustão na vida adulta.
Além disso, destacam-se a rigidez cognitiva visível no apego inflexível a rotinas e no incômodo com imprevistos e a hiperatividade, que pode se manifestar tanto na inquietação física quanto no fluxo acelerado de pensamentos.
Com isso, a hiperatividade muitas vezes costuma ser confundida com hiperatividade acontece tanto de forma física, em indivíduos que não conseguem se conter parados por muito tempo ou de forma mental com pensamentos acelerados.[LJ1]
O papel do suporte pós avaliação
Débora ressalta que a análise das doenças causadas pelo diagnóstico comorbidades ( definição para a presença de duas ou mais condições de saúde ao mesmo tempo) devem ser confirmadas por psiquiatra ou neurologista. “Na maioria das vezes, é necessário até entrar com medicação nas comorbidades do TEA e também do TDAH”, aponta Débora.
Paralelamente, Débora aconselha que o acompanhamento com psicólogo, psiquiatra ou terapeuta é indispensável, principalmente para acolher o sentimento de culpa e questionamentos vindos do passado. “Eu sempre comento que buscando psicoterapia é possível acolher toda a história que passou batida, principalmente de culpa”, afirma a neuropsicóloga.
Segundo a especialista, o diagnóstico não deve ser usado de bengala, mas sim como um ponto de partida para a ressignificação e compreensão da sua própria história. “É importante entender o seu funcionamento e buscar ferramentas de apoio se houver a necessidade de ter um melhor funcionamento e aceitação” conclui Débora.
Matéria produzida por Mariana Duarte
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