O El Niño é um fenômeno climático cíclico que ocorre de forma irregular a cada três a sete anos. É caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico e na agronomia, essa oscilação altera drasticamente a distribuição de chuvas e temperaturas regionais, podendo causar danos severos ao cultivo agrícola de Santa Catarina.

Segundo a Empresa de Pesquisa Agrícola e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri ), as previsões meteorológicas para a safra 2026/2027 são de chuvas acima da média, alta umidade e maior frequência de eventos climáticos extremos no estado. 

O engenheiro agrônomo e especialista em agrometeorologia Márcio Sônego, afirma que o que mais preocupa no El Niño é o excesso de chuva com temporais, ventos fortes, granizo e inundações. “Na área rural, o El Ninho, deixa o solo encharcado. Então, em plantações de mandioca com drenagem não muito boa, vai apodrecer a raiz”, explica Sônego;

Apesar das chuvas pontuais tenham causado estragos localizados, o engenheiro agrônomo da Epagri, Filipe Kinalski, relata que até o momento os principais efeitos do fenômeno não foram tão drásticos e geraram apenas atraso no ciclo vegetativo das culturas de verão por conta da persistência das baixas temperaturas e pouca luminosidade solar.

Prejuízos devido a baixa incidência solar

De acordo com o professor de agrometeorologia do Instituto Federal Catarinense, Marcos Nohatto, nos anos de El Niño o céu fica constantemente coberto por nuvens, bloqueando a luz solar e com isso a baixa luminosidade  prejudica o desenvolvimento das plantas. “Tendo menos luz, a planta vai acabar não conseguindo produzir energia suficiente para realizar seus processos e também não consegue aproveitar bem os nutrientes do ambiente”, afirma o professor. 

Esse problema fica ainda mais grave quando as lavouras estão na fase de florescimento e enchimento de grãos. “É um momento bem delicado, pois as plantas precisam de energia solar. Com menos luz a planta produz menos grãos por cachos e vai deixá-los mais leves e fazendo o efeito chamado de grãos vazios.” relata Nohatto. 

O agricultor Márcio Demboski teve prejuízos em suas lavouras de milho e fumo. “Nós ainda não sabemos o quanto o El Niño irá prejudicar, pois ele ainda está acontecendo. Mas a redução pode chegar perto dos 50%. Em outras regiões em que pode ter chuva de granizo o prejuízo pode chegar a 100%”, explica Demboski.

Prejuízos com doenças fúngicas

As duas culturas temporárias mais fortes da região, o arroz irrigado e o milho dependem diretamente da chamada soma térmica, que é o acúmulo de calor que uma planta precisa receber para que seu desenvolvimento seja eficaz. “Para o milho produzir adequadamente, as temperaturas devem estar acima de 10ºC e o arroz acima de 11ºC”, explica Kinalski. 

O microclima gerado e a alta umidade do ar combinada com as temperaturas amenas alteram o índice de favorabilidade climática para desenvolvimento para patógenos fúngicos como brusone e mancha parda. Quando estão na fase de formação de grãos, o tempo mais abafado e úmido se torna propício para o surgimento de doenças fúngicas.

A condição faz com que as doenças germinam e invadam as plantas. “Por conta disso, a planta não consegue produzir muitas defesas naturais, tendo dificuldade de se fortalecer, de absorver alguns nutrientes como silício e potássio, que são muito importantes para a defesa natural dela”, explica Nohatto.

Com as plantas fracas e o clima a favor dos fungos, as manchas se espalham com maior rapidez, exigindo que o agricultor aplique defensivos antes da hora e aumente a frequência de aplicação de agrotóxicos para manter as lavouras. 

Nohatto ainda relata que uma das medidas para mitigar o prejuízo com fertilizante é aplicá-los em doses menores e com maior frequência. “O parcelamento da adubação pode reduzir as perdas de nutrientes e os prejuízos econômicos nas lavouras da região” , confirma o engenheiro. 

Danos causados 

As fortes chuvas prejudicam culturas como a do milho pois o encharcamento do solo faz com que as raízes tenham falta de oxigênio e atrapalhe no processo de respiração. “Quando isso acontece a planta não consegue absorver todos os nutrientes do solo e todo esse colapso resulta em uma colheita reduzida” afirma Nohatto. 

O encharcamento prolongado compromete a circulação de oxigênio no solo ao redor das raízes das plantas e culturas como milho se tornam vulneráveis ao estresse pela ausência do oxigênio. “Nessa fase, a planta ainda é muito jovem e o ponto de crescimento dela ainda não está totalmente desenvolvido e assim as raízes novas não conseguem criar canais para combater todo esse estresse”, explica o professor. 

Esse mesmo encharcamento do solo pode implicar na perda de fertilizantes. Em solos de encosta, as chuvas intensas sobre áreas fertilizadas favorecem às erosões e esse processo arrasta partículas do solo e nutrientes, reduzindo a disponibilidade para as plantas. Essa perda de nutrientes diminui o aproveitamento dos fertilizantes aplicados e aumentam os custos da produção.

O cultivo do fumo também pode ser prejudicado. O sul de Santa Catarina possui mais de 15 mil hectares dedicados à fumicultura, ou seja, mais de 150 quilômetros que representam 16% da área estadual. “O fumo tem colheitas no segundo semestre e também será afetado pelas chuvas, mas o pessoal já se precaveu, plantou fumo em bancos de terras mais altos para evitar o alagamento das plantações” , explica Sônego. 

Programas do governo ajudam agricultores não perderem as esperanças

Para Filipe Kinalski, ainda é muito cedo para saber os prejuízos deixados pelo El Niño. “Até as plantas chegarem ao período reprodutivo ficará difícil ter uma resposta. Atualmente elas estão todas no vegetativo, a gente vai aguardando para definir essa informação, se as plantas de inverno do cultivo subsequente vão ter atraso”, afirma Kinalski. 

Segundo o site do Governo Federal do Brasil, existem políticas públicas como o Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária) que dependendo do nível de danos da lavoura, pode pagar parte dos custos de produção e às vezes até 100% das perdas do custo de produção. Além disso, existem seguradoras privadas que podem contemplar danos como granizo, chuvas excessivas e ventos.

Reportagem escrita por Mariana Duarte