O ato de comer, fundamental para a sobrevivência e tradicionalmente associado a momentos de afeto e socialização, tem se tornado um campo de batalha invisível para milhões de indivíduos.
Longe de ser apenas uma questão de escolha ou de vaidade estética, os distúrbios alimentares são condições psiquiátricas graves, caracterizadas por alterações persistentes nas refeições ou em comportamentos profundamente disfuncionais relacionados à nutrição.
A dimensão desse cenário ganha contornos alarmantes quando analisada sob a ótica da saúde pública global. De acordo com dados da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), estima-se que mais de 70 milhões de pessoas em todo o mundo sejam afetadas por alguma patologia desse tipo.
Em uma era em que as redes sociais ditam padrões irreais de perfeição, a busca por pertencimento tem feito com que corpos adoeçam na tentativa de se encaixar em moldes virtuais, transformando a relação com a comida em sofrimento.

“Eu me via quase como se fosse um alienígena, completamente não humana”
Aos 12 anos, a maioria das adolescentes está descobrindo novas amizades e lidando com as primeiras mudanças típicas da idade. Para Ana Carolina Gonçalves da Silva, hoje nutricionista comportamental, essa transição marcou o início de um confinamento psicológico.
“Quando eu comecei a entrar na adolescência, que eu comecei a ganhar peso, a modificar o corpo, eu entrei numa pira. Comecei a ficar muito paranoica, comecei a me ver de uma forma distorcida”, relembra.
O que Ana vivia não era apenas a insegurança comum da juventude, mas os primeiros sintomas do Transtorno Dismórfico Corporal (TDC), uma condição psíquica em que a percepção da própria imagem é severamente alterada.
“Eu me via de uma forma não necessariamente só gorda, mas eu me via de uma forma distorcida, realmente um transtorno de dismorfia corporal, que eu via as coisas que eu mais detestava em mim de uma forma maior. Eu me via quase como se fosse um alienígena, completamente não humana. Eu me sentia a pessoa mais horrível do mundo”.

A distorção rapidamente evoluiu do campo dos pensamentos e passou a ditar a rotina de Ana. Ir à escola virou um desafio; socializar tornou-se uma ameaça. Com 1,65m de altura, ela chegou a pesar menos de 40 kg devido a dietas extremas e à privação alimentar.
O adoecimento se manifestava em rituais silenciosos que passavam despercebidos por quem associava o transtorno à mera vaidade, a recusa em tirar fotos era a regra. Essa aversão estendia-se ao convívio social; existia um pânico paralisante de comer em público.
Ana Carolina recorda, por exemplo, que aos 13 anos teve uma crise de ansiedade ao ver uma pizza em um aniversário, aterrorizada pela ideia de que o alimento “deformaria” seu corpo. Somados ao isolamento, os efeitos físicos da exaustão tornavam a dor visível através de desmaios frequentes na escola por falta de nutrientes e um cansaço crônico que exigia a intervenção de professores para levá-la à enfermaria ou oferecer-lhe comida.
A resistência em buscar a cura também revela a face mais cruel do transtorno: o medo de que o tratamento resulte em ganho de peso. “Eu me esforçava para melhorar, mas eu não queria melhorar. Sendo sincera, porque na minha cabeça, se eu melhorasse, eu iria engordar. O pensamento que eu tinha da recuperação era que eu iria ficar feia”, explica.

O sofrimento que Ana Carolina levou nos anos 2010 encontrou nas subcomunidades do Twitter, do Tumblr e no biótipo magro e idealizado do K-pop, que ela acompanhava, um espelho para as suas dores.
Hoje, contudo, o cenário digital é ainda mais agressivo. A cultura do “parecer o menos humano possível”: sem poros, sem linhas de expressão, sem gordura, migrou das telas diretamente para os consultórios de estética.
A busca implacável por simetria
A engrenagem que dita o sucesso no ambiente digital impõe uma busca implacável por simetria. Com mais de seis milhões de seguidores, a influenciadora Yasmim Maccari, conhecida como Yaszou, vivencia diariamente a cobrança por uma estética impecável, uma exigência alimentada tanto pelas expectativas do público quanto pela autocrítica de quem vive da própria imagem.
O peso dessa vigilância constante ficou evidente quando a criadora de conteúdo enfrentou um surto de acne e viu seu feed ser inundado por apontamentos disfarçados de cuidado.
“Eu gravava os meus vídeos normais e aparecia com espinhas. A galera começou a comentar perguntando o que estava acontecendo e dizendo que as espinhas estavam feias. Isso tudo afeta a gente. Afinal, não é para sermos realistas e mostrarmos a vida normal? Mas quando aparecemos com uma espinha, todo mundo julga também”, desabafa.
Essa dinâmica de comparação ignora que o ecossistema das plataformas é composto por fragmentos altamente selecionados. A construção de uma postagem envolve escolhas técnicas de iluminação, enquadramento e exaustivas repetições que distorcem a percepção de quem consome o material final de forma passiva.

“Quando a gente vai tirar foto, qualquer pessoa do mundo nunca vai tirar uma foto e a foto ficou perfeita. Tira 100 fotos e, dessas 100, escolhe uma que ficou boa. Nas redes sociais está todo mundo magro, todo mundo seco, e quando sai na rua tu não vê ninguém assim”, pontua.
Diante de uma audiência majoritariamente jovem, na faixa dos 18 aos 24 anos, a responsabilidade editorial ganha relevância. Romper com a espetacularização de rotinas inalcançáveis torna-se um posicionamento necessário para desarmar a ansiedade e os gatilhos de distorção gerados pelas tendências algorítmicas do momento.
“Eu não romantizo de uma forma doentia a vida fitness. Vai ter influenciador que entende fitness como ser equilibrado, ser saudável por inteiro”, defende Yasmim. Para ela, o bem-estar duradouro depende de consumir conteúdos que façam sentido para a rotina real de cada indivíduo, libertando a saúde da obrigação de corresponder a padrões estéticos comerciais.

Reflexo da superexposição nas redes já é visto por profissionais
Segundo uma pesquisa da Brand Publishing, o brasileiro possui o hábito de passar quase quatro horas por dia apenas nas redes sociais. Esse bombardeio constante de corpos milimetricamente “perfeitos” e rotinas editadas cria uma ilusão perigosa no ambiente digital.
Para a psicóloga Érica Inacio, o reflexo dessa superexposição na rotina clínica já se torna evidente na tendência dos pacientes de medirem suas próprias vidas a partir de figuras desconhecidas e que vivem realidades totalmente distantes da deles.
“Essa ideia de perfeição, de que o corpo do outro é muito mais bonito ou de que a vida do outro é muito melhor, faz com que muitas pessoas desvalorizem suas próprias conquistas e qualidades, acreditando que o que elas têm e fazem é insuficiente ou mesmo desconsiderem que aquela vida ‘perfeita’ e ‘recortada’ não cabe dentro da sua realidade atual.”
Esse processo de desvalorização frequentemente se camufla sob o rótulo socialmente aceito do “autocuidado”. No entanto, a psicologia alerta que a linha entre a busca por saúde e o início de um quadro patológico se rompe quando as atitudes perdem a liberdade de escolha.

“Quando esses comportamentos passam a se tornar regras muito rígidas e a pessoa não consegue flexibilizar, ou seja, precisa seguir à risca, mesmo em um contexto de confraternização, por exemplo, ou até abre exceções, mas se sente muito culpada e tenta compensar de alguma forma.”
Romper esse ciclo doloroso e alcançar a reabilitação, sob a ótica terapêutica, não significa atingir uma ausência total e definitiva de vulnerabilidades. Érica esclarece que, na psicologia, a meta principal se concentra na remissão gradual dos sintomas, sejam eles parciais ou totais: “A ideia é devolver qualidade de vida ao paciente, ensinando que é possível viver em paz com a comida e o próprio corpo.”
Muito além da Anorexia e Bulimia
A busca pelo pertencimento e por padrões estéticos inalcançáveis é mais frequente na adolescência. Com o córtex pré-frontal ainda em desenvolvimento, jovens, em sua maioria mulheres, ficam vulneráveis aos conflitos emocionais que disparam a distorção de imagem. Se nos anos 2010 esse sofrimento se abrigava em fóruns como o Tumblr, hoje a engrenagem digital opera de forma bem mais sutil.
As antigas dicas abertas de emagrecimento deram lugar a algoritmos que mascaram a obsessão sob a estética da “alta performance”. De acordo com a nutricionista Yasmin Ghellere, as plataformas camuflam o incentivo à magreza extrema por meio de restrições de palavras e uso de filtros, fazendo com que distúrbios graves sejam aplaudidos como foco e disciplina.
Essa validação social cria uma barreira perigosa, tornando o diagnóstico lento e complexo. “Muitas vezes, o próprio paciente não identifica que tem um problema. Geralmente, são as pessoas ao redor, como familiares e amigos, que começam a perceber as movimentações”, destaca Yasmin.
Para quem convive com o paciente, o rastreamento exige atenção redobrada. “Para o olho nu, de quem não tem treinamento, essas atitudes podem ser muito sutis, pois costumam ser feitas às escondidas”, alerta a especialista.
Na anorexia, por exemplo, os sinais demoram a gritar e os resultados muitas vezes só ficam evidentes quando se refletem no corpo, através da perda de peso acentuada e de comportamentos evitativos com a comida. Por isso, a conscientização é urgente: “É fundamental para conseguirmos perceber os sinais o mais cedo possível e iniciar o tratamento precocemente”.
Desarmar esses rituais exige compreender as diferentes manifestações clínicas. A compulsão alimentar, por exemplo, vai além de comer um pouco a mais; caracteriza-se pelo consumo desenfreado de 2.000 a 3.000 calorias em curto período, gerando alívio momentâneo seguido por culpa avassaladora.
“Já atendi pacientes compulsivos que comeram cebola crua da geladeira ou uma panela inteira de arroz que estava no fogão”, relata .O perigo se estende à bulimia nervosa que, por manter a paciente em peso normal (eutrófico), camufla métodos purgativos em segredo por anos.
Acesse o painel abaixo para entender detalhadamente a dinâmica de cada um desses distúrbios e as reações do organismo:

Para Yasmin, romper esses ciclos dolorosos, que quase sempre começam com dietas restritivas para alcançar rotinas utópicas de influenciadores, exige uma abordagem multidisciplinar focada no básico bem-feito.
“Não adianta entregar um plano alimentar lindo e perfeito no papel se o paciente não puder segui-lo. Não adianta melhorar a estética corporal e ficar com a saúde mental sequelada por não dar conta de exigências irreais”, finaliza.
Diagnóstico precoce pode ser identificado em análises clínicas
A Biomedicina desempenha um papel importante na identificação dos impactos que os transtornos alimentares causam no organismo. Por meio de exames laboratoriais e análises clínicas, é possível detectar alterações nutricionais, hormonais e metabólicas que ajudam a compreender a condição do paciente e a orientar o acompanhamento adequado.
“Através dos exames laboratoriais, conseguimos observar sinais que muitas vezes não são percebidos clinicamente. Deficiências de vitaminas, alterações hormonais e desequilíbrios metabólicos podem indicar que o transtorno alimentar já está afetando o funcionamento do organismo”, explica a biomédica Izabella Saad.
Além do auxílio no diagnóstico, as análises clínicas também contribuem para o monitoramento da evolução do tratamento. O acompanhamento dos indicadores laboratoriais permite avaliar a resposta do organismo às intervenções realizadas e identificar possíveis complicações decorrentes da doença.
“O acompanhamento biomédico é fundamental para verificar se o paciente está recuperando seu equilíbrio nutricional e metabólico. Quanto mais precoce for a identificação dessas alterações, maiores são as chances de evitar consequências graves e garantir uma recuperação mais segura”, destaca.

Reportagem produzida pelas acadêmicas do curso de Jornalismo da UniSATC: Ana Julia Rocha, Gabrielle Rebelo e Isabela Baldin
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