Para muitas famílias, cães, gatos e outros pets deixaram de ocupar apenas um espaço dentro de casa e passaram a fazer parte da rotina e dos vínculos familiares. Com isso, a perda também ganhou novos significados, e a forma de se despedir desses animais acompanha essa mudança.
A psicóloga e professora Maria Eduarda Pacheco, passou por esse processo como tutora. Após a morte de seus pets, ela optou pela cremação e encontrou no ritual uma forma de dar continuidade à dedicação que acompanhou a vida dos animais. “Eu acredito que representou para a gente um contínuo de cuidado, mesmo após a morte. Não simplesmente enterrar em qualquer lugar e deixar”, relata.
A escolha permitiu que parte das cinzas fosse transformada em lembranças e compartilhada com pessoas que estiveram próximas dos animais durante a vida. Para a psicóloga, o gesto ajudou a tornar a despedida mais especial e trouxe a sensação de não voltar para casa sem nenhuma lembrança física deles.
Essa vivência também se relaciona com a atuação profissional de Maria Eduarda. Como psicóloga, ela entende que os rituais têm um papel importante no processo do luto, inclusive quando se trata da morte de um animal. “Nós sempre precisamos de algum tipo de ritual para fazer esses fechamentos de ciclo, para que seja compreendido e tenha significado”, explica.
Segundo a profissional, a necessidade de marcar este encerramento não é exclusiva da perda de animais. Os rituais estão presentes em diferentes momentos da vida e ajudam as pessoas a compreender mudanças e despedidas. Durante a pandemia de covid-19, porém, muitas dessas práticas foram interrompidas ou modificadas, o que dificultou a vivência do luto.
Os efeitos desse período são percebidos pela empresária Renata Silvestre, dona do crematório e memorial exclusivo para animais de estimação Pet Eterno, em Criciúma. Segundo Renata, a pandemia contribuiu para aproximar ainda mais os tutores de seus animais, o que também se reflete na procura por formas de despedida. “Hoje o pet está da porta para dentro. Então o cachorro divide a rotina. Ele não é só mais um dentro de casa, faz parte da família”, destaca.
O desejo de homenagear o animal da família está entre os motivos que levam alguns tutores a optar pela cremação. Após o processo, as cinzas podem ser utilizadas de diferentes formas, como em pingentes, chaveiros e objetos de decoração, além de serem armazenadas em urnas.
A procura pelo serviço ajudou Renata a perceber que os tutores buscam mais do que uma destinação para o corpo do animal. Muitas famílias procuram um espaço que ofereça acolhimento e permita realizar uma despedida considerada digna. “Notamos que as pessoas procuram muito um conforto, querem ter um momento e se despedir”, conta.
Um luto incompreendido
A escolha pela cremação também está ligada à forma como cada pessoa vivencia o luto. Para alguns tutores, a perda de um animal representa a ausência de um integrante da família, mas essa dor ainda é socialmente invalidada. “Algumas pessoas acabam muitas vezes invalidando, dizendo que é besteira, que é só um cachorro, é só um gato, como se, por ser um animal, isso fosse substituível de maneira muito fácil”, ressalta Maria Eduarda.
Essa diferença na forma de enxergar os animais é percebida por Renata Silvestre no contato com as famílias que procuram o crematório. Segundo a empresária, enquanto algumas pessoas enxergam o pet apenas como um animal, outras estabelecem uma relação que ocupa um espaço muito maior dentro de casa. “Por trás de cada família existe uma história, nunca é só um animalzinho”, comenta.
A falta de compreensão sobre esse vínculo pode tornar o processo ainda mais difícil para quem está de luto. Maria Eduarda explica que, diante de comentários que diminuem a importância da perda, alguns tutores acabam evitando falar sobre o que estão sentindo. Para a psicóloga, permitir-se sentir a dor e realizar o ritual de despedida que faça sentido para cada pessoa é uma forma de atravessar esse momento.
Matéria produzida por Fernanda Teixeira
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