A notícia já foi impressa em páginas montadas manualmente, enviada por telefone fixo e registrada em câmeras que exigiam equipamentos pesados e equipes inteiras para operar. Hoje, ela pode ser produzida, editada e distribuída por um único profissional utilizando apenas o aparelho celular.
Ao longo das últimas décadas, o jornalismo regional passou por profundas transformações. A evolução tecnológica modificou as rotinas das redações, alterou a relação com as fontes, ampliou as possibilidades narrativas e criou novos desafios éticos.
Apesar das mudanças nos instrumentos e plataformas, a missão de informar com responsabilidade continua sendo o principal compromisso da profissão. Para compreender essa trajetória, a reportagem ouviu profissionais que viveram diferentes fases da comunicação regional e acompanham diariamente os impactos das novas tecnologias na produção jornalística.
Quando a notícia era construída página por página

Foto: Caroline Henriques
Emerson Teixeira e a memória das redações impressas
Antes da internet, das redes sociais e dos smartphones, fazer jornalismo exigia paciência, persistência e muito trabalho manual. Com quase três décadas de atuação na comunicação, o jornalista Emerson Teixeira lembra que o interesse pela profissão surgiu ainda na infância. Morador do bairro Santa Bárbara, em Criciúma, ele recortava jornais para criar suas próprias histórias e improvisava telejornais utilizando caixas de sapato como televisores.
A paixão pela leitura e pela escrita acabou conduzindo o caminho profissional. Em 1997, iniciou oficialmente sua trajetória na Folha Esportiva, jornal semanal voltado à cobertura esportiva da região. Na época, a produção jornalística era completamente diferente da realidade atual. Fotografias precisavam ser reveladas e digitalizadas, páginas eram diagramadas manualmente e a circulação da informação dependia exclusivamente dos veículos de comunicação.
“O jornalista precisava ir para a rua, conversar com as pessoas e construir a notícia. Não existiam redes sociais, WhatsApp ou qualquer ferramenta que facilitasse esse processo”, recorda. Ao ingressar na Tribuna de Criciúma, posteriormente transformada em A Tribuna, Emerson acompanhou de perto um período de expansão do jornalismo impresso regional. Novos cadernos especializados foram criados e a disputa pela atenção do leitor acontecia diariamente nas bancas.
Entre as lembranças mais marcantes está a criação de um caderno esportivo que rapidamente conquistou espaço entre os leitores e anunciantes. Mais do que acompanhar mudanças tecnológicas, Emerson destaca a importância de preservar a memória da imprensa regional. “Não estamos aqui por acaso. Alguém começou antes da gente. Quem tem memória tem história”, afirma.
Do rádio à televisão e de volta ao rádio

Foto: Arquivo pessoal de Lize Búrigo.
A trajetória de Lize Búrigo acompanha quatro décadas de transformações na comunicação. A história profissional da jornalista Lize Búrigo ajuda a contar a própria evolução dos meios de comunicação na região.
Aos 14 anos, iniciou a carreira gravando comerciais para uma emissora de rádio em Criciúma. Pouco tempo depois, já apresentava programas musicais e operava os equipamentos da rádio, em uma época em que toda a programação era executada manualmente. As músicas estavam armazenadas em discos de vinil, os comerciais eram reproduzidos em cartuchos e a interação com os ouvintes acontecia principalmente por telefone.
Ainda adolescente, recebeu um convite para integrar a Atlântida FM em Florianópolis, tornando-se uma das primeiras vozes femininas da emissora em Santa Catarina. A mudança representou não apenas um avanço profissional, mas também o enfrentamento de desafios ligados ao preconceito e à pouca presença feminina nos espaços de comunicação da época.
Posteriormente, retornou ao Sul catarinense, cursou Jornalismo e construiu carreira na televisão, acompanhando uma das maiores revoluções tecnológicas do setor. Quando iniciou na TV, as equipes dependiam de câmeras pesadas, fitas físicas e ilhas de edição analógicas. Entradas ao vivo eram raras e exigiam estruturas complexas para transmissão.
Hoje, segundo ela, um único celular permite transmitir imagens em tempo real de praticamente qualquer lugar.
“As facilidades tecnológicas são enormes, mas às vezes sinto falta de reportagens mais aprofundadas, com pesquisa, contexto e construção narrativa”, observa. Após décadas passando por diferentes veículos e funções, Lize retornou ao meio que despertou sua paixão pela comunicação. “O rádio continua sendo meu lugar. Foi onde tudo começou”, resume.

Foto: Arquivo pessoal de Lize Búrigo
Sua trajetória revela como os profissionais precisaram se adaptar continuamente às mudanças tecnológicas sem abandonar a essência da comunicação: contar histórias que conectam pessoas.
O audiovisual muda a forma de contar histórias: linguagem cinematográfica, redes sociais e novas narrativas
Se Emerson representa a memória do impresso e Lize testemunhou a transformação do rádio e da televisão, o jornalista Gregori Flauzino observa um fenômeno mais recente: a expansão das narrativas audiovisuais.
Com mais de duas décadas de atuação profissional, ele avalia que o jornalismo passou a investir em formas mais humanizadas de apresentar informações. “O jornalismo avançou para uma linguagem mais próxima do cotidiano. A gente deixou de ser aquele jornalismo muito técnico e começou a aprofundar mais a essência das histórias”, afirma.
Segundo Gregori, a influência da linguagem cinematográfica abriu novas possibilidades para o audiovisual jornalístico. Recursos de roteiro, edição e narrativa passaram a ser combinados com técnicas tradicionais de apuração e pesquisa.
As redes sociais também desempenharam papel decisivo nesse processo. “O principal fator foi a massificação. Hoje as pessoas têm acesso a vídeos instantaneamente pelo celular e também conseguem produzir conteúdo audiovisual com equipamentos que carregam no bolso”, explica. Além dos avanços tecnológicos, o jornalista destaca a chegada da inteligência artificial como uma das maiores transformações recentes da comunicação.
Utilizada em projetos de reconstrução histórica e produção visual, a tecnologia permite criar representações de períodos e acontecimentos para os quais não existem registros audiovisuais. Apesar das possibilidades, Gregori alerta para os desafios éticos envolvidos. “Vai ser cada vez mais importante termos profissionais preparados para identificar e validar conteúdos”, ressalta.
A tecnologia muda, mas a credibilidade continua sendo essencial: formação profissional e desafios éticos na era digital
Para a jornalista e coordenadora do curso de Jornalismo da UniSatc, Marli Vitali, as transformações tecnológicas alteraram profundamente a forma de produzir e distribuir notícias. Segundo ela, ferramentas digitais encurtaram distâncias e facilitaram o contato com fontes em qualquer lugar do país.
“As principais mudanças são na forma de produção e distribuição de conteúdo. Antes, para entrevistar uma pessoa ou era presencialmente ou por telefone fixo. Hoje conseguimos conversar com uma fonte do outro lado do país em poucos segundos”, explica. Marli observa que a inteligência artificial já faz parte da rotina dos profissionais, mas destaca que ela deve ser utilizada como ferramenta de apoio e não como substituta do trabalho jornalístico.
“O desafio é saber usar a IA a favor da boa informação, e não junto com a preguiça”, afirma. Para ela, os fundamentos da profissão permanecem os mesmos. A checagem dos fatos, a apuração rigorosa e o compromisso ético continuam sendo elementos indispensáveis para a credibilidade da informação. Além disso, acredita que o jornalismo local seguirá fortalecendo sua relevância nos próximos anos.”Por mais que as pessoas consumam conteúdos globais, elas querem saber o que acontece perto delas”, destaca.
A essência do jornalismo em tempos de transformação
A trajetória da jornalista Nádia é marcada por uma forte ligação com o jornalismo tradicional, construído dentro das redações, no contato direto com fontes e na rotina intensa de produção. Sua primeira experiência profissional veio ainda em um cenário altamente competitivo, como no processo seletivo em Porto Alegre, onde disputou vagas com dezenas de candidatos. A conquista da primeira colocação marcou o início de uma carreira construída com persistência e vivência prática.
Ao longo do tempo, Nádia atuou em diferentes redações e editoriais, passando por áreas como política, economia, cultura e geral, além de experiências em assessoria de imprensa. Essa diversidade consolidou uma visão ampla sobre o funcionamento do jornalismo. Ao refletir sobre o presente, ela reconhece as transformações tecnológicas, mas reforça uma visão que considera essencial: o jornalismo continua sendo um trabalho de apuração, responsabilidade e compromisso com a verdade.
Para Nádia, mesmo diante das mudanças digitais, existe algo que não se pode perder: a essência da profissão. Ela afirma que cada profissional é “fruto do seu tempo”, mas que isso não deve afastar o jornalista de sua base ética e humana. Em sua visão, o jornalismo não pode ser reduzido à velocidade ou à reprodução automática de conteúdos, especialmente em um cenário marcado por fake news e excesso de informação.
A professora e jornalista também reforça que a formação jornalística vai além da técnica: passa pela construção de senso crítico, responsabilidade social e consciência do papel público da profissão. Ao olhar para os alunos e para as novas gerações, Nádia destaca o brilho no olhar como elemento essencial do fazer jornalístico. Para ela, é esse encantamento que sustenta a profissão ao longo do tempo.
O futuro já chegou, mas a essência permanece…
Das páginas montadas manualmente aos vídeos produzidos com inteligência artificial, o jornalismo regional passou por mudanças profundas nas últimas décadas. Os instrumentos mudaram, as plataformas se multiplicaram e as formas de narrar se tornaram mais dinâmicas e interativas.
Ainda assim, os relatos dos profissionais entrevistados revelam um ponto em comum: a tecnologia transforma ferramentas, mas não substitui a responsabilidade de informar. Em meio a algoritmos, redes sociais e novas linguagens digitais, permanece atual o princípio que acompanha o jornalismo desde suas origens: ouvir, investigar, contextualizar e contar histórias que ajudam a sociedade a compreender a realidade.
Reportagem produzida pelas acadêmicas do curso de Jornalismo da UniSATC: Amanda Souza e Caroline Henriques
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