Abandono, agressões físicas, negligência e falta de atendimento veterinário estão entre as principais formas de maus-tratos enfrentadas por cães e gatos. Enquanto centenas de denúncias são registradas em Criciúma todos os anos, histórias de resgate e adoção mostram que muitos animais conseguem superar situações de violência e abandono. 

A jornalista Tássia Búrigo é um desses casos: ela tem três animais de estimação, sendo que dois sofreram agressão e um foi abandonado. A tutora conheceu Pe por meio de uma ONG, que relatou o caso de uma cachorra que andava pelas ruas sem um dos olhos e com a saúde debilitada. 

Já a vira-lata Merlot foi encontrada por Tássia em uma publicação no Instagram. Na época, ela procurava uma cachorra de porte maior que pudesse, eventualmente, servir como cão de guarda. Segundo a jornalista, ao ver o animal, percebeu que era exatamente o que buscava. 

Foto registrada por Bianca Bento – Merlot

Foi durante uma caminhada na praia, em um período de frio intenso, que a Tássia encontrou Amarula. Ao ouvir latidos, decidiu procurar de onde vinham os sons e encontrou uma cachorra vira-lata acompanhada de três filhotes. 

Foto registrada por Bianca Bento – Amarula

Tássia encontrou nas vira-latas uma companhia inseparável. Segundo ela, além de dóceis e obedientes, as cadelas demonstram uma lealdade diariamente. A tutora acredita que cães resgatados valorizam ainda mais o lar e o carinho que recebem, criando vínculos muito fortes com suas famílias.

“A Pe é a minha sombra. Onde eu estou, ela está. Ela está sempre me procurando e querendo ficar por perto. O que mais admiro nos cães é a lealdade. Sempre tive cães vira-latas e a experiência é a mesma, eles criam um vínculo muito forte com nós que adotamos”, conta. 

Foto registrada por Bianca Bento – Merlot, Pe e Amarula

Após a denúncia: como funciona a fiscalização de maus-tratos contra animais em Criciúma

Com o objetivo de combater os maus-tratos contra animais em Criciúma, o Núcleo de Bem-Estar Animal (Nubea) atua na fiscalização das denúncias registradas no município. De acordo com a fiscal geral do órgão, Kassia Castro, as ocorrências são recebidas por meio da ouvidoria da Prefeitura, pelo telefone 156, e encaminhadas ao núcleo para averiguação.

Além do serviço disponibilizado pelo município, a fiscal destaca que o cidadão também pode registrar um boletim de ocorrência junto à Polícia Civil ou encaminhar a denúncia ao Ministério Público.

“Após o recebimento do protocolo, a equipe realiza uma vistoria no local para verificar a situação e identificar possíveis irregularidades. O tutor é notificado e recebe um prazo para regularizar a situação. Após esse período, caso as irregularidades não sejam corrigidas, o responsável é multado”, explica Kassia.

As fiscalizações realizadas pelo Nubea têm como base as leis municipais nº 7.367/2018 e nº 8.725/2025, além de legislações estaduais e federais voltadas à proteção e ao bem-estar dos bichinhos. A legislação municipal mais recente ampliou os mecanismos de proteção animal e as penalidades aplicáveis em casos de irregularidades.

A fiscal explica que o recolhimento do animal não ocorre automaticamente em casos de denúncia. A medida é adotada apenas quando a permanência no local representa risco à saúde ou à integridade do animal. “A prioridade da instituição é garantir que ele permaneça em condições adequadas no ambiente em que já vive”, ressalta Kassia.

Quando o recolhimento é necessário, os animais são encaminhados ao Nubea, onde recebem atendimento veterinário gratuito de baixa complexidade e acompanhamento da equipe até serem disponibilizados para adoção.

No primeiro trimestre de 2026, o núcleo registrou 454 ouvidorias, sendo que, destas, aproximadamente 220 foram relacionadas a casos de maus-tratos, de acordo com Kassia. Além das ações de fiscalização, o Nubea também realiza castrações de cães comunitários e de animais pertencentes a famílias em situação de vulnerabilidade social.

Nubea amplia ações de controle populacional, conscientização e incentivo à adoção responsável

Um dos principais pilares da atuação do núcleo é o controle populacional de cães e gatos. Segundo o médico-veterinário do Nubea, Samoel da Luz, a estratégia é considerada fundamental para reduzir o abandono de animais a longo prazo.

“Embora o Nubea coordene as ações de controle populacional, os procedimentos de castração são executados por clínicas e serviços terceirizados credenciados”, ressalta Luz.

A iniciativa acompanha um movimento estadual: em Santa Catarina, o programa Pet Levado a Sério segue em execução com foco no controle populacional de cães e gatos por meio da castração e da microchipagem. A ação prevê investimentos de R$ 18 milhões para a realização de 90 mil castrações até o fim de 2026, além de capacitações técnicas e ações de educação voltadas à guarda responsável. Entre os públicos atendidos pelo programa, estão os chamados cães comunitários, além de animais de tutores em situação de vulnerabilidade social.

Além dos atendimentos veterinários e das ações de fiscalização, o Nubea pretende ampliar o trabalho de conscientização da população. A proposta inclui campanhas educativas e palestras voltadas a temas como guarda responsável, saúde animal e combate aos maus-tratos. “Queremos promover palestras em relação aos maus-tratos”, pontua o veterinário.

Campanhas de adoção

Foto registrada na sede do Nubea em Criciúma – Laura Brehm

A superintendente do Nubea, Ângela Mello, afirma que o núcleo também busca ampliar as oportunidades de adoção. A intenção é promover feiras mensais em parceria com protetoras independentes que costumam acolher um número maior de filhotes, perfil mais procurado pelos adotantes.

Conforme Ângela, a instituição também recebe procura por cães da raça pitbull. Nesses casos, a adoção passa por avaliação criteriosa, especialmente quando os animais chegam adultos e sem histórico conhecido.

Segundo a superintendente, o acompanhamento realizado pelo núcleo começa a partir da entrada do animal na instituição, quando ele passa a receber cuidados veterinários e monitoramento da equipe.

“Durante a atual gestão, 12 cães sem raça definida já foram adotados. Conseguimos fazer um trabalho em conjunto com alguns voluntários”, diz.

O que são cães comunitários?

Os chamados cães e gatos comunitários são animais em situação de rua que desenvolvem vínculos com uma determinada comunidade, recebendo alimentação, abrigo e cuidados básicos de moradores, comerciantes ou instituições, sem que estejam sob a responsabilidade exclusiva de um tutor.

Em Santa Catarina, esses animais passaram a contar com uma legislação específica em 2026. A Lei Estadual nº 19.726 reconhece oficialmente a figura do cão e do gato comunitário e estabelece diretrizes para sua proteção e acompanhamento.

Impactos físicos e emocionais dos maus-tratos

A veterinária Michelle Jaques Machado, especializada em comportamento canino, explica que, com animais maltratados, ela costuma lidar com o dobro de cuidado, carinho e atenção.

Conforme a veterinária, cachorros que desenvolvem traumas decorrentes de maus-tratos podem se tornar agressivos. Portanto, é importante que os tutores tomem cuidado para que os profissionais e os cães não se machuquem durante os atendimentos clínicos.

É considerado maus-tratos tudo aquilo que causa dor, sofrimento ou medo para o animal. Não somente agressões físicas, mas emocionais também. Michelle assegura que as diretrizes de bem-estar são baseadas em cinco tipos de liberdade: de fome, de sede, de desconforto causada por dores, lesões ou doenças, de medo ou estresse e a liberdade para expressar o comportamento natural da espécie.

A especialista ainda destaca os casos de mutilação, comuns em raças caninas específicas. Em pit bulls, por exemplo, é habitual que existam cirurgias clandestinas de corte de orelha, puramente por questões estéticas. De acordo com Michelle, nenhum profissional é autorizado a fazer esse tipo de cirurgia. Dessa forma, tanto o profissional quanto o responsável podem ser acusados por maus-tratos.

Reportagem produzida pelas acadêmicas do curso de Jornalismo da UniSATC: Bianca Bento, Gabriela Alexandrino, Gabriela Santana e Laura Brehm