Enquanto você lê esta frase, ao menos uma mulher pode estar sofrendo violência psicológica no Brasil. São 153 casos por dia. Mais de seis por hora. Na maioria das vezes, acontece dentro de casa, praticada pelo companheiro, namorado ou marido. Geralmente não há nada visível para mostrar à família ou polícia. Sem hematomas ou sangue. Existe, porém, um desgaste silencioso: da autoestima, identidade e saúde mental. 

Segundo o 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), a violência psicológica é o tipo mais registrado de violência doméstica no Brasil. Em 2024, os casos aumentaram 33,8% em comparação ao ano anterior.

“Você está exagerando.” “Se você me amasse de verdade, faria isso por mim.” “Ninguém vai acreditar em você.” Frases ditas de forma sutil, repetidas por meses ou anos, com a capacidade de fazer uma mulher questionar a própria memória. Esse processo tem nome gaslighting e é apenas uma das formas de um crime que no Brasil só passou a ser previsto em lei em 2021.

Em Santa Catarina, o estado lidera o ranking nacional de registros de ameaças no contexto de violência doméstica. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina, em 2024 o estado registrou uma média de 263 ocorrências de violência doméstica por dia,  o maior índice dos últimos cinco anos. Em Criciúma, nos primeiros meses do mesmo ano, o município esteve entre os que mais registraram tentativas de feminicídio.

Esta reportagem ouviu vítimas e especialistas para expor o que os números não mostram: como a violência psicológica age, por que é tão difícil de reconhecer, o que diz a lei e por que, mesmo existindo, ela ainda chega tarde demais para tantas mulheres.

Eu achei que era amor

Juliana* tinha 30 anos, e um gato chamado Milly quando conheceu Marcos*. Ele parecia atencioso. No começo, pelo menos. Marcos logo foi morar com Juliana e os primeiros sinais apareceram quando começaram reclamações sobre o seu gato. Eram sobre pelo, cheiro e até espaço. Aos poucos, o animal foi sendo empurrado para a área de serviço. A mulher cedia sem nem perceber.

O parceiro também lia as mensagens do seu celular, quando ela saía com amigas e tentava entrar em contato a cada 15 minutos. Se demorasse para responder, havia uma cena de briga em casa. “Ele nunca gritava. Ficava em silêncio, me olhando. Esse silêncio era pior do que qualquer grito”, relata.

A virada de chave foi quando o seu animal de estimação ficou doente, precisando de um veterinário com urgência. Marcos bloqueou a porta e não quis prestar ajuda. “Eu peguei o Milly no colo, passei por ele e chamei um carro de aplicativo. Foi a primeira vez em anos que eu fiz alguma coisa sem pedir permissão”, conta Juliana.

A vítima nunca imaginou que o que vivia era um crime e que poderia denunciar. “Parecia frescura minha. Só entendi a situação quando procurei uma psicóloga para tratar ansiedade”, revela a mulher.

Hoje, Milly dorme no meio da sua cama como companhia. “Ele sempre soube que algo estava errado. Gato sente essas coisas. Eu é que demorei.” pontua.

Falava com Deus porque não tinha mais ninguém

Margarete* cresceu em um lar cristão, quando se casou com Carlos aos 22 anos, acreditou que o casamento era sagrado e que era sua obrigação suportar todas as dificuldades. O marido nunca levantou a mão para ela, mas as palavras machucavam. Eram frases como “você já está velha” “nenhum homem irá te querer”. Por isso, ela tentava encontrar forças na religião. “Eu orava todo dia pedindo forças para ser uma boa esposa”, conta.

Sem perceber, Margarete achava que o problema estava nela. Por anos, guardou esse assunto, não contava para ninguém, não sabia exatamente o que vivia. Foi uma campanha do Agosto Lilás nas redes sociais que mudou tudo. Sua filha mais velha, reconheceu os comportamentos do pai e passou a se informar sobre o assunto.

Depois de muitas tentativas de separação, Margarete conseguiu o divórcio e se livrou da dependência emocional que vivia. Hoje, ela mora sozinha com seus dois filhos, ainda possui muitos traumas do que viveu e não pensa em casar novamente. Frequenta a mesma igreja, continua tendo fé, mas agora, ela diz que ora com gratidão.

Você reconheceria uma frase de violência psicológica?

Nem sempre é simples perceber quando palavras ferem. A experiência interativa a seguir mostra frases reais usadas em relacionamentos que revelam por que cada uma delas é um sinal de alerta.

Aponte a câmera do celular para o QR code ou acesse o link, para explorar.

No percurso, há sugestões de conteúdos audiovisuais e sonoros que ajudam a compreender melhor essa realidade.

Como essa violência acontece na prática

Conforme pesquisa realizada pelo Instituto DataSenado, divulgada no fim de 2025, 88% das mulheres vítimas de agressão relataram ter vivido violência psicológica em algum momento da vida. Para a advogada criminalista e presidente da OAB Por Elas, dra. Sarita Felizardo Assis Pacheco, esse dado é alarmante e tem uma explicação.

“Na agressão física, é muito mais fácil de distinguir quando está acontecendo. A estrutura da mulher é mais frágil, então se o homem segura forte no braço dela ou dá um tapa, ela fica roxa. E é possível ver essa agressão. Já a agressão psicológica é aquela em que o agressor vem construindo com o tempo, e a mulher, em um determinado momento, acaba acreditando que aquilo faz parte do romantismo”, explica a doutora.

A OAB Por Elas é uma comissão dentro da Ordem dos Advogados do Brasil que trabalha diretamente amparando vítimas de violência doméstica. A comissão atende, atualmente, cerca de 212 mulheres em situação de vulnerabilidade. “Esse tema me chama muito atenção pois vivemos em uma sociedade machista, que culturalmente coloca a mulher sempre em segundo plano, como um objeto”, destaca.

Esse tipo de violência acontece muitas vezes mascarada de elogio. “O homem pode vir e dizer: ‘Nossa, essa sua bermuda é muito linda, mas usa ela só pra mim’. Isso soa como um elogio, pois ela foca só na primeira parte da frase, e com o passar do tempo ela vai se bloqueando. E o homem vai começando a aumentar esse espaço de violência, pedindo para ela trocar de roupa ou até a proibindo”, detalha Sarita.

O que torna esses casos ainda mais complexos é que eles não acontecem por dias ou semanas, mas durante anos. Isso torna os danos e complicações nas mulheres mais profundas e difíceis de reverter.

“A gente só vai conseguir perceber com o passar do tempo nas sequelas que essa violência psicológica acaba causando nessa mulher. De ela se sentir sempre horrível, desacreditada, incapaz. E aí algumas acabam até perdendo a vontade de viver”, alerta a especialista.

Segundo a Faculdade de Direito da USF, as vítimas podem desenvolver danos emocionais significativos, hipervigilância, perda de concentração e memória, e nos casos mais graves, quadros de estresse pós-traumático, depressão e ansiedade. Dra. Sarita também alerta para um ponto importante: nem toda discussão de casal é violência.

“A mulher tem que ficar atenta no gatilho quando numa discussão, ela já não é mais um diálogo, e sim um monólogo. Qual é a diferença? Numa discussão, um diálogo, as duas partes conversam. Vira-se violência doméstica quando se transforma num monólogo. Por quê? Porque só a outra parte fala, só a outra parte impõe a sua visão. E a parte oprimida não tem voz, ela não pode falar, aí ela começa a sentir medo”, frisa.

O que a violência psicológica faz com a mente

Na Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso de Criciúma, o atendimento vai além do registro da ocorrência. Há quase um ano na unidade, o policial e psicólogo Ronaldo Ribeiro é o responsável por acolher mulheres em situação de violência, orientando e encaminhando os casos.

Nem toda mulher que chega à delegacia registra uma ocorrência. Algumas chegam apenas para conversar e é nesse espaço que Ribeiro encontra alguns dos casos mais difíceis de identificar.

O que o psicólogo descreve revela um dos maiores obstáculos no combate à violência psicológica: muitas mulheres ainda não reconhecem o que vivem como violência. Por isso, o profissional reforça: buscar uma rede de apoio confiável é o primeiro passo. O segundo é chegar até uma delegacia sem medo, sem receio. E para quem ainda não se sente pronta, o Ligue 180 atende 24 horas, de forma gratuita e confidencial.

Como a legislação brasileira define a violência psicológica contra a mulher

De acordo com o promotor de Justiça, Samuel Dal Farra Naspolini, da 12ª Promotoria de Justiça da Comarca de Criciúma, responsável por investigações criminais e ações penais relacionadas à violência doméstica e familiar contra a mulher; a violência psicológica é caracterizada por ações como ameaças, humilhação, manipulação, isolamento social, chantagens e vigilância constante.

O artigo 7º, inciso II da Lei Maria da Penha define esse tipo de violência como qualquer conduta que cause dano emocional, diminuição da autoestima ou prejudique o pleno desenvolvimento da mulher, visando controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões.

O promotor também atua como coordenador do Núcleo de Enfrentamento a Violências e Apoio às Vítimas (NEAVIT) na região Sul de Santa Catarina. “Muitas pessoas ainda associam a violência contra a mulher apenas à agressão física, mas a violência psicológica pode ser igualmente ou até mais devastadora, pois atinge diretamente a dignidade e a autonomia da vítima”, destaca.

O ordenamento jurídico brasileiro passou a prever crimes específicos relacionados a esse tipo de conduta. “O Código Penal Brasileiro contempla dispositivos como os crimes de ameaça (art. 147), perseguição (art. 147-A) e violência psicológica contra a mulher (art. 147-B), reforçando a responsabilização dos agressores mesmo na ausência de violência física”, ressalta Naspolini.

Outro ponto destacado é a possibilidade de aplicação de medidas protetivas de urgência. “A violência psicológica, por si só, já é suficiente para fundamentar a concessão de medidas. Como o afastamento do agressor do lar e a proibição de contato com a vítima, inclusive por meios digitais e até a restrição do direito de visitas aos filhos”.

A rede de apoio é outro fator essencial para as vítimas. “A legislação prevê o encaminhamento da vítima para serviços especializados de atendimento psicológico, jurídico e social, o que é essencial para romper o ciclo de violência”, pontua o promotor.

Reconhecer o abuso é o primeiro passo para sair do ciclo

Para mulheres que desconfiam estar vivendo uma relação abusiva, mas ainda têm dúvidas, o caminho inicial deve ser a busca por informação. Segundo o promotor de Justiça, conhecer os próprios direitos e entender os sinais da violência psicológica são passos essenciais para o enfrentamento.

“Acima de tudo, é importante buscar informações. Hoje, existem diversos canais de apoio, como o Ministério Público, delegacias, o Poder Judiciário e órgãos de assistência social, que podem esclarecer dúvidas e orientar essas mulheres”, explica.

Números: uma proximidade maior do que o imaginado

A violência psicológica não é um problema distante. Ela tem endereço, bairro, e cidade. A plataforma EVA, desenvolvida pelo Instituto Igarapé, reúne dados de violência contra a mulher de mais de 9 mil municípios brasileiros, incluindo Criciúma, detalhados por tipo de violência, faixa etária e raça.

Para acessar, o usuário no site Eva, deve selecionar Brasil, depois Santa Catarina, e em seguida terá dados interativos, e como esse número evoluiu ao longo dos anos.

Os dados são públicos, gratuitos e atualizados.

*Nomes fictícios para preservar a identidade dos envolvidos.

Reportagem produzida pelas acadêmicas do curso de Jornalismo da UniSATC: Emanuella Teixeira, Fernanda de Almeida, Julia Maia e Suelen Santos.