A atuação do NEAVIT (Núcleo de Enfrentamento às Violências e Apoio às Vítimas) em Santa Catarina tem ganhado destaque desde sua criação, em 2022. O núcleo atua no acolhimento e suporte a vítimas de crimes violentos, especialmente pessoas em situação de vulnerabilidade.

Casos de racismo, violência contra a mulher, intolerância e crimes de ódio estão entre as principais demandas acompanhadas pelo programa. Entretanto, uma área ainda recebe pouca atenção dentro dos debates sobre violência: o esporte.

Em Criciúma, o tema se torna ainda mais relevante devido à forte ligação da cidade com o futebol. A região carbonífera possui uma relação histórica e cultural com o Criciúma Esporte Clube, movimentando milhares de torcedores, famílias e eventos esportivos ao longo do ano.

Apesar da importância social do esporte, os ambientes ligados ao futebol também podem esconder episódios de violência, preconceito e discriminação. Casos envolvendo racismo, agressões verbais e violência contra mulheres ainda fazem parte da realidade dentro e fora dos estádios.

Um episódio recente ganhou repercussão no fim de 2025, quando a deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC) afirmou ter sido alvo de ofensas nas redes sociais. Após o caso, a torcida organizada Guerrilha Jovem foi proibida de frequentar o Estádio Heriberto Hülse por tempo indeterminado.

Já em janeiro de 2026, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) oficializou uma parceria com o Criciúma Esporte Clube para implementar o protocolo “Não é Não”, iniciativa voltada à proteção das mulheres em eventos esportivos. O projeto prevê profissionais capacitados para acolher vítimas e agir em situações de violência dentro das praças esportivas.

O papel do NEAVIT no acolhimento às vítimas

Em entrevista para a reportagem, o promotor de Justiça Dr. Samuel Dal Farra Naspolini explicou que o NEAVIT não atua exclusivamente no futebol, mas sim no apoio às vítimas de crimes violentos em diferentes contextos.

Segundo o promotor, o núcleo presta atendimento especialmente para pessoas em situação de vulnerabilidade. “O NEAVIT se propõe a auxiliar vítimas de crimes violentos e prestar apoio às pessoas vulneráveis.”

Naspolini também esclareceu que existe uma diferença entre a atuação do NEAVIT e o protocolo “Não é Não”, aplicado atualmente no Estádio Heriberto Hülse.

De acordo com ele, o protocolo foi inicialmente implementado em casas de espetáculo e posteriormente levado aos estádios de futebol. A iniciativa prevê treinamento para funcionários e terceirizados do Criciúma Esporte Clube, permitindo que eles identifiquem situações de violência contra a mulher e prestem auxílio imediato às vítimas.

“Há um conjunto de providências que os funcionários do clube e seus terceirizados estão capacitados a adotar em casos de violência contra a mulher dentro do estádio.”

O promotor destacou ainda que a iniciativa busca tornar o ambiente esportivo mais seguro e acolhedor para famílias e torcedores.

Questionado sobre possíveis ações de diálogo com torcidas organizadas, o promotor explicou que a prevenção da violência entre torcidas não faz parte do escopo específico do NEAVIT.

Segundo ele, esse trabalho é realizado de forma mais ampla pelo Ministério Público de Santa Catarina, por meio do Centro de Apoio Operacional do Consumidor.

Mesmo assim, Naspolini afirma que existem iniciativas voltadas à segurança nos estádios e à prevenção de episódios violentos durante partidas de futebol. “O nosso foco, em relação ao Criciúma Esporte Clube, é o protocolo ‘Não é Não’ e a proteção da mulher.”

O promotor também ressaltou que o trabalho do NEAVIT em Santa Catarina ainda é recente, mas já apresenta resultados considerados positivos.

De acordo com ele, a unidade de Criciúma ultrapassou a marca de 300 atendimentos em pouco tempo de atuação, oferecendo apoio social, psicológico e encaminhamento jurídico às vítimas. “As vítimas que tiveram acesso aos serviços do NEAVIT sempre retornaram com avaliações muito positivas.”

Racismo no futebol amador

Além da visão institucional apresentada pelo Ministério Público, a reportagem também ouviu o treinador de futebol amador Marco Antonio Mayer. Marco relatou que nunca sofreu racismo diretamente, mas já presenciou episódios de preconceito durante partidas de futebol amador.

Um dos casos mais marcantes aconteceu durante uma disputa de pênaltis em um campeonato decisivo. Segundo ele, após um jogador errar uma cobrança de penalti, um torcedor fez um comentário racista em meio à arquibancada.

“Escutei alguém dizer: ‘Só podia ser nego’. Eu e toda a comissão técnica ficamos sem reação.”

O treinador afirmou que, após o fim da partida, a equipe tentou identificar o responsável pela ofensa, mas a pessoa já havia deixado o local.

Para Marco Antonio Mayer, muitos casos ainda são tratados com naturalidade dentro do futebol amador. “Alguns riem, outros entram na onda das ‘piadas’. Ainda falta muito respeito e consciência.”

Ele também acredita que as punições para casos de racismo ainda são insuficientes.

Segundo o treinador, mesmo com avanços no futebol profissional, episódios de preconceito continuam acontecendo com frequência. “No futebol profissional já houve melhorias, mas ainda existem falhas. No futebol amador isso é ainda mais difícil de controlar.”

O medo da impunidade

Ao falar sobre denúncias, Marco Antonio Mayer acredita que o principal problema não é o medo, mas a sensação de impunidade.

Segundo ele, muitas pessoas deixam de denunciar porque acreditam que os responsáveis dificilmente serão punidos. “As pessoas cometem esse tipo de atitude e, na maioria das vezes, não recebem punições rígidas.”

O treinador também destacou que campanhas de conscientização já existem, mas acredita que o combate ao preconceito depende principalmente da educação e do respeito dentro da sociedade. “O respeito precisa ser ensinado desde casa.”

Para ele, muitos comportamentos preconceituosos ainda são reflexos de gerações em que esse tipo de atitude era tratado como algo normal.

“O mundo evoluiu, e o respeito deve vir sempre em primeiro lugar.”

Entre o esporte e a responsabilidade social

O crescimento das discussões sobre violência no esporte mostra que o futebol vai muito além das quatro linhas.

Enquanto iniciativas como o protocolo “Não é Não” buscam ampliar a proteção das mulheres nos estádios, relatos como o de Marco Antonio Mayer demonstram que o racismo e outras formas de violência ainda fazem parte da realidade do esporte, especialmente em ambientes amadores.

Mais do que medidas de punição, o debate envolve educação, conscientização e responsabilidade coletiva. Em uma cidade onde o futebol faz parte da identidade cultural, discutir violência, preconceito e proteção às vítimas também se torna uma forma de defender o próprio esporte.

Onde buscar ajuda

Casos de violência, racismo, abuso ou qualquer outra forma de discriminação podem ser denunciados tanto em ambientes esportivos quanto fora deles. O Ministério Público de Santa Catarina, por meio do NEAVIT (Núcleo de Enfrentamento às Violências e Apoio às Vítimas), oferece acolhimento e orientação para vítimas em situação de vulnerabilidade.

Contatos do NEAVIT (MPSC)

  • E-mail: neavit@mpsc.mp.br
  • WhatsApp (Núcleo da Capital):
    • (48) 99105-8943
    • (48) 99100-0050
    • (48) 99134-3495

Outros canais de denúncia e emergência

  • 190 — Polícia Militar (emergências)
  • 180 — Central de Atendimento à Mulher
  • 181 — Disque Denúncia da Polícia Civil
  • 127 — Ouvidoria do Ministério Público de Santa Catarina

O objetivo dos canais é oferecer suporte, acolhimento e encaminhamento adequado para vítimas e testemunhas de violência, preconceito ou discriminação.

* Imagem criada por Inteligência Artificial.

Reportagem produzida pelos acadêmicos de Jornalismo da UniSATC, Guilherme Carlos e Joel Júnior.