Apesar da crescente alta nos números da violência contra a mulher, existe uma esperança. No Brasil, apesar de cerca de 3,7 milhões de mulheres já terem sofrido algum tipo violência, existem muitas que procuraram ajuda e conseguiram construir uma nova vida.
A violência contra a mulher, seja ela física, psicológica, sexual ou patrimonial, deixa marcas que são levadas para o resto da vida. De acordo com a psicóloga Mikhaela Antonello, essas consequências podem se tornar estados recorrentes que acompanham a vítima por toda a vida, ou apresentar efeitos de curto prazo a partir do momento que o ciclo de violência acabe.
Um dos danos mais comuns em qualquer tipo de violência é o desenvolvimento de transtornos de ansiedade. A especialista explica que a mulher passa a viver em um estado de “tensão e medo constantes”, permanecendo em alerta sobre o que o agressor pode fazer a seguir.
Esse cenário de insegurança impede que a vítima consiga relaxar, levando-a a ter crises de ansiedade e de pânico. “Muitas vezes a vítima busca uma consulta médica ou psicológica acreditando que as crises são recorrentes de outras situações, sem imaginar que isso está acontecendo por conta do próprio histórico de violências”, afirma a profissional.
Estando quase igualada com a ansiedade, a depressão está cada vez mais comum. Segundo a psicóloga, a pessoa perde o interesse de fazer qualquer coisa, a identidade da pessoa se perde, ela entra em isolamento social e muitas acabam tendo até uma cogitação ao suicídio.
“Muita das vezes não chega a ter a tentativa, mas há sim o pensamento, o desejo de desistir, pensar que não aguenta mais. Então existe sim aquele desejo de morte, nesse caso, a morte não é querer tirar a própria vida, mas sim querer acabar com essa impotência que a pessoa sente”, esclarece. Além disso, o trauma faz com que a mulher reviva constantemente as agressões, mantendo-se vigilante em qualquer ambiente, inclusive na rua.
Um dos danos mais profundos é o que ocorre na autoimagem da mulher. Através de manipulações, o agressor impõe uma distorção da realidade que faz com que a vítima perca sua identidade. “Tudo passa a ser sobre o agressor”, diz a psicóloga, explicando que a mulher deixa de se reconhecer, para de entender os seus limites e muitas vezes passa a acreditar que é a culpada pelas agressões, sentindo-se a errada e também desvalorizada.
Para lidar com a dor emocional, algumas mulheres recorrem ao uso de álcool e substâncias químicas como forma de alívio temporário. O que pode gerar novos vícios e complicar ainda mais o quadro de saúde.
A especialista também detalha como o sentimento de culpa é construído psicologicamente dentro da relação. O agressor usa falas com o objetivo de manipular, convencendo a mulher de que a violência foi uma reação a algo que ela fez. “Se eu fui a culpada, eu não posso sair dessa situação, eu preciso resolver”, é o pensamento comum que mantém o ciclo ativo.
Violência nem sempre é física
Uma moradora de Criciúma, que preferiu não ter a identidade revelada, contou à reportagem que foi vítima de violência doméstica praticada pelo ex-companheiro. Para preservar sua identidade, ela será chamada de Clarissa, nome fictício adotado nesta matéria.
Clarissa relatou que namorou o agressor por dez anos e, depois disso, decidiu se casar. O relacionamento durou mais de uma década, totalizando 20 anos de convivência marcados por comportamentos autoritários e agressivos. “Tudo o que ele me falava eu acreditava. Reclamava quando eu estava acima do peso ou quando estava magra”, relembra.
Segundo ela, ao longo dos anos sofreu diferentes formas de violência, principalmente psicológica. Clarissa descreve o período como uma espécie de “manutenção psicológica”, em que vivia exclusivamente para os afazeres da casa e para o trabalho. “Se tivesse um fio de cabelo no chão, ele reclamava. Estava sempre ausente e consumia muito álcool”, conta.
Além dos hematomas visíveis
A violência doméstica nem sempre começa com agressões físicas. Em muitos casos, os primeiros sinais aparecem de forma silenciosa, por meio de humilhações, controle emocional e violência psicológica.
O advogado criminalista Leandro Alfredo da Rosa, mestre em Desenvolvimento Socioeconômico com pesquisa voltada à Lei Maria da Penha, explica que o feminicídio costuma ser o estágio final de uma sequência de violências. “Lá atrás, inicia-se por uma violência psicológica, uma violência patrimonial, uma ofensa, uma difamação em rede social ou por mensagens. O feminicídio é o final disso”, afirma.
Durante o relacionamento, Clarissa engravidou e acreditou que a chegada da filha pudesse mudar a situação dentro de casa. No entanto, o cenário se agravou. O comportamento agressivo, antes direcionado apenas à esposa, passou a atingir também a criança. A vítima contou ainda que, durante esse período, descobriu um câncer.
Em um dos episódios mais marcantes, afirmou que estava caída no chão, debilitada pela doença, quando o agressor passou ao lado dela e a chutou. “Além das agressões, ele dizia que eu era um lixo”, relata. Clarissa admite que, naquele momento, chegou a acreditar nas ofensas que ouvia constantemente.
Meios de socorro
Com o agravamento da situação, ela decidiu buscar ajuda jurídica e psicológica. Passou por três profissionais até conseguir dar início ao processo de separação. Durante essa fase, mãe e filha precisaram de acompanhamento terapêutico para preservar a saúde emocional. Em outro episódio relatado por Clarissa, o ex-companheiro saiu com a filha e a deixou em um quarto separado com um rapaz mais velho, sem qualquer cuidado ou supervisão. A situação aumentou ainda mais o medo e a preocupação da mãe.
Medida protetiva
Clarissa relatou que, em uma das noites em que o agressor chegou embriagado em casa, ele começou a proferir xingamentos contra ela e a filha no corredor do prédio. Um vizinho presenciou a cena e prestou ajuda às duas.
No dia seguinte, ela reuniu imagens das câmeras de segurança do condomínio e procurou o Ministério Público, onde solicitou uma medida protetiva de urgência. A Justiça concedeu o pedido e determinou o afastamento do homem.
Segundo o advogado, apesar dos avanços na legislação brasileira, os números da violência contra a mulher ainda preocupam. Da Rosa destaca que Santa Catarina possui uma rede de proteção atuante, mas reforçou que o enfrentamento à violência vai além da punição criminal. “Precisamos continuar unidos. Polícia, Ministério Público, Judiciário, imprensa e sociedade têm papel fundamental para diminuir esses números”, afirma.
Superação e novas conquistas
Após um longo período de sofrimento, terapia e apoio profissional, mãe e filha começaram um processo de reconstrução da própria história. A filha de Clarissa encontrou nos esportes um caminho para ressignificar os traumas vividos dentro de casa.
A menina passou a participar de eventos esportivos e começou a conquistar medalhas, trazendo um novo sentido para a vida das duas. Ela se destacou em apresentações de ballet e também em competições de jiu-jítsu, acumulando conquistas e demonstrando força diante do passado difícil.
Mesmo que a vítima se encontre em um momento difícil, existem formas de buscar ajuda e soluções para sair daquela situação. “Nos atendimentos, a Polícia Militar sempre disponibiliza a mulher, o aplicativo PMSC Cidadão, contendo o Botão de Pânico. A PM realiza o acompanhamento da medida protetiva, ou seja, com qualquer evolução da ocorrência, a vítima pode relatar para a Polícia Militar ou Polícia Civil”, explica o sargento Sorato, da 2ª Cia do 29º BPM.
Outros meios de prevenção também fazem parte dessa luta. “A mulher tem a alternativa de denúncias anônimas e participar de palestras e reuniões com profissionais da área da segurança, orientando o que é a medida protetiva, pois muitas vezes a vítima solicita aquele direito, mas não sabe o que é e como lidar com a situação, então um dos trabalhos que a segurança vem efetuando é levar o conhecimento às mulheres”, ressalta.
Sorato também salienta que o atendimento de ocorrência envolvendo crime contra a mulher passa por análise e critério das guarnições para verificar se a mulher sofreu agressão física, verbal, psicológica ou de ameaça.
Segundo o sargento, há vários casos em que a mulher busca a justiça e pede para retirar o boletim de ocorrência, pois quer voltar com o agressor. “Muitos casais se reconciliam, a vítima retira a queixa, continua sofrendo agressões, entretanto se mantém casada por dependência financeira ou emocional”, conclui.
Denuncie
Existem diferentes formas de a vítima buscar ajuda, entre essas formas, os telefones são essenciais para o acionamento das instituições.
Polícia Militar 190
Polícia Civil 180
Reportagem produzida pelos acadêmicos do curso de Jornalismo da UniSATC: Ramon Goulart, João Pedro Ponciano, Lucas Mackowieski e Vinícius Sorato.
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