O choro começa antes mesmo de o pai chegar em casa. Todos os dias, no mesmo horário, o bebê de um ano muda o comportamento, dorme menos e parece procurar alguém. “Ele sente falta”, diz Maria*, de 36 anos, que viveu episódios de violência dentro de casa.

Mas não é apenas a ausência que marca a infância dessas crianças. É a tensão constante, as discussões e a sensação de insegurança no próprio lar. Muitas vezes, os filhos crescem tentando entender as mudanças de comportamento dentro de casa, mesmo sem compreender completamente a violência que presenciam.

Segundo a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada em 2025 pelo Instituto DataSenado e pela Nexus, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), entre as 3,7 milhões de brasileiras que afirmaram ter sofrido violência doméstica ou familiar nos últimos 12 meses, 71% foram agredidas na presença de outras pessoas. Em 70% desses casos, havia crianças no local, geralmente filhos e filhas das vítimas.

Os números ajudam a dimensionar o problema, mas, dentro das casas, os impactos aparecem de outras formas. A ansiedade, o medo, a agressividade, o isolamento e os traumas acompanham a infância até a vida adulta.

A violência doméstica não termina na mulher agredida, ela atravessa toda a estrutura familiar, como explica a presidente da Comissão OAB Por Elas de Criciúma, Sarita Felizardo Assis, que atua no atendimento de mulheres que sofreram violência.

“E o meu filho?”

Maria conta que o relacionamento com o companheiro era marcado por ciúmes e controle constantes. O episódio que terminou em denúncia começou por causa de uma mensagem recebida no celular dela. A discussão evoluiu até que o filho mais velho, de 17 anos, tentou defender a mãe.

O adolescente já carrega marcas de outras experiências familiares. “O gênio dele é difícil… qualquer coisa ele explode”, descreve Maria. De acordo com a psicóloga Larissa Tancredo, crianças e adolescentes que crescem em ambientes violentos sofrem impactos diretos no desenvolvimento emocional, cognitivo e social.

Segundo ela, na infância, os reflexos podem aparecer de diversas maneiras, como ansiedade, insegurança, atraso no desenvolvimento, medo excessivo, baixo rendimento escolar e até regressões comportamentais, como voltar a urinar na cama.

Já na adolescência, os sinais costumam ser mais silenciosos. “No adolescente pode gerar uma grande ansiedade, uma baixa autoestima, mais dificuldade de interação. Ele entende que tem muita culpa, então tudo ele vai absorver, ele tende a pegar a responsabilidade para manter a ordem”, afirma.

A presidente da OAB Por Elas ressalta que os filhos aparecem constantemente no centro dos relatos das vítimas atendidas pela comissão. “Muitas vezes a mulher continua ali por causa dos filhos. Ela pensa: ‘e o meu filho?’. Toda a fala da vítima gira em torno disso, não prejudicar a criança ou o adolescente”, comenta Sarita.

Segundo ela, boa parte das mães teme provocar mudanças bruscas na rotina familiar. A investigadora da Polícia Civil, Isabel Feijó, pontua que é comum casos em que a mulher busque evitar o afastamento dos filhos da convivência paterna.

“O agressor não é apenas um agressor”

Conforme a investigadora, romper o ciclo da violência raramente é simples. “Uma mulher pode perdoar de sete a oito vezes antes de denunciar”, conta. De acordo com ela, são frequentes os casos em que o agressor pede desculpas, promete mudar, e tudo se repete.

Segundo a pesquisa DataSenado/OMV, apenas 28% das mulheres procuraram uma Delegacia da Mulher e somente 11% acionaram o Ligue 180 em 2025. Antes disso, muitas buscaram apoio informal: 58% recorreram à família, 53% à igreja e 52% aos amigos.

Isabel Feijó ressalta que existe uma dinâmica emocional complexa por trás da ausência de denúncias. “O agressor não é apenas um agressor. Muitas vezes é alguém com quem ela construiu uma vida”, destaca.

No caso de Maria, é possível observar esse misto de sentimentos. Apesar da medida protetiva, ela ainda demonstra dúvidas sobre o futuro do relacionamento. “Voltar eu não sei… mas queria que ele mudasse”, diz. A mulher ainda usa a aliança, símbolo do vínculo afetivo que permanece mesmo após os episódios de violência.

Maria também relata não querer afastar o filho do pai. Além do vínculo afetivo, fatores como a dependência financeira, pressão familiar, medo e falta de informação também dificultam a denúncia e ruptura.

A análise do DataSenado/OMV aponta ainda que 67% das brasileiras conhecem pouco a Lei Maria da Penha, enquanto 11% afirmam desconhecer totalmente a legislação. A psicóloga Larissa explica a lacuna que existe entre ter consciência da violência e saber enfrentar ela.

“Mesmo a mulher vivendo uma situação de agressão, que entende que machuca, que não é bom, ela pode repetir quando não tem consciência de que existem outras formas de lidar com esse incômodo”, afirma.

A presidente da OAB Por Elas relata que esse desconhecimento sobre direitos fica evidente nos atendimentos diários realizados pela comissão. De acordo com ela, muitas chegam sem entender o que é uma medida protetiva ou quais caminhos legais podem seguir.

Para as crianças e adolescentes, ao mesmo tempo que a denúncia significaria não presenciar mais a violência, a acusação pode fazer com que o menor precise escolher entre pai e mãe. “Não devemos exigir que uma criança tome partido”, comenta Isabel Feijó.

“A violência ultrapassa a mulher”

Mesmo quando a violência termina, os impactos podem permanecer durante anos. Segundo a investigadora da Polícia Civil, crianças que crescem em ambientes violentos podem naturalizar esse comportamento, e o padrão vivido tende a ser reproduzido. 

A psicóloga Larissa também reforça a influência do que as crianças e adolescentes veem dentro de casa.

As consequências da violência podem aparecer na forma de lidar com frustrações, conflitos e emoções. Alguns adolescentes se tornam agressivos, outros se isolam. De acordo com Larissa, há ainda aqueles que tentam carregar responsabilidades emocionais.

Segundo Sarita, os impactos aparecem frequentemente nos filhos das vítimas atendidas pela OAB Por Elas. “Percebemos casos de síndrome do pânico, ansiedade e dificuldades emocionais”, relata a presidente.

Ela afirma que muitos adolescentes apresentam sinais claros de sofrimento psicológico mesmo quando não sofreram agressões físicas diretamente. “A violência ultrapassa a mulher e atinge toda a família”, completa.

“A violência não é natural”: Como romper o ciclo

Apesar das marcas, o ciclo da violência pode ser interrompido, mas isso exige rede de apoio, acolhimento e informação. A Comissão OAB Por Elas atua dentro de delegacias oferecendo orientação jurídica gratuita e encaminhamento psicológico para mulheres vítimas de violência doméstica.

Sarita destaca que o trabalho também envolve os filhos. “Nossa preocupação também é a criança, porque ela está vendo tudo”, complementa.

Segundo a presidente da comissão, o atendimento humanizado ajuda mulheres a compreenderem que podem recomeçar. Além da Delegacia da Mulher, os serviços mais conhecidos pelas brasileiras são Defensoria Pública (87%), CRAS e CREAS (81%) e o Ligue 180 (76%), mostrou a pesquisa do DataSenado/OMV.

O Ministério Público de Santa Catarina também atua no acompanhamento desses casos por meio do NEAVIT (Núcleo Especial de Atendimento a Vítimas de Crimes), que integra a rede de proteção às vítimas de violência no estado.

Para a investigadora Isabel Feijó, romper o ciclo passa principalmente pela educação. “É preciso mostrar desde cedo que a violência não é natural. Um homem que agride a mãe dos filhos não pode ser considerado um bom pai”, ressalta.

Enquanto tenta reorganizar a própria vida, Maria ainda observa os reflexos da violência nos filhos. O adolescente continua mais fechado. O bebê ainda estranha as ausências.

E é justamente nesse silêncio cotidiano e nas marcas que a violência doméstica continua existindo, mesmo depois do fim da agressão. Porque quando uma mulher é violentada dentro de casa, os filhos também tendem a viver com medo.

*nome fictício utilizado para preservar a identidade da vítima

Reportagem produzida pelos acadêmicos do curso de Jornalismo da UniSATC: João Gabriel da Rocha, Luiz Fernando Becker e Lutheska Fogaça