Quem mora em Criciúma dificilmente imagina que divide a cidade com bugios, tamanduás-mirins, gatos silvestres, quatis e ouriços-cacheiros. Enquanto alguns desses animais permanecem escondidos nos remanescentes da Mata Atlântica, outros já são vistos atravessando avenidas, entrando em jardins e circulando próximos às áreas urbanas, revelando uma biodiversidade que ainda resiste ao crescimento da cidade.

Segundo o biólogo especialista em pesquisa de fauna silvestre e educação ambiental, Vitor Bastos, a fauna faz parte do cotidiano do município, mesmo quando passa despercebida. “A gente é cercado de fauna aqui em Criciúma. Essa é a realidade.Temos diversas espécies que convivem com a gente diariamente”, destaca Bastos.

Entre os mamíferos mais comuns registrados no município estão as capivaras e o gambá-de-orelha-branca, sendo considerados os animais com maior facilidade para se adaptar ao ambiente urbano. Na região da Área de Proteção Ambiental (APA) no Morro Cechinel, os quatis também aparecem com frequência, muitas vezes cruzando ruas e entrando em jardins, surpreendendo os moradores que nem imaginavam a presença da espécie tão perto de casa. Nas árvores e nos fios da cidade, aves como sabiá-laranjeira, bem-te-vi e corruíra fazem parte da fauna de Criciúma, mostrando que a natureza continua presente mesmo nos espaços mais urbanizados.

Uma pesquisa desenvolvida por Bastos desde 2020 revela um cenário ainda mais significativo para a cidade. “Criciúma abriga espécies ameaçadas de extinção, como o gato-maracajá, o gato-do-mato-pequeno, o gato-mourisco, o bugio e o veado-catingueiro, registradas dentro dos limites do município. Então é importante destacar que nós temos, sim, espécies ameaçadas de extinção vivendo dentro do município de Criciúma”, pontua o biólogo.

foto: Marina Nagacaki

A convivência entre a cidade e natureza impõe riscos cada vez maiores aos animais. “Um dos exemplos mais emblemáticos é o dos bugios, que precisam deixar as copas das árvores para atravessar áreas urbanizadas em busca de outros fragmentos de mata. Já houve registros de animais cruzando a Avenida Centenário, no trajeto entre o Morro do Céu e o Morro Cechinel”, conta Bastos.

Outros encontros também chamam a atenção da população, como os tamanduás-mirins caminhando pelas ruas e os ouriços-cacheiros, frequentemente vítimas da falsa crença de que lançam seus espinhos. Segundo o biólogo, trata-se de um animal tranquilo e não agressivo. De acordo com Vitor, ao encontrar um animal silvestre, a orientação é manter distância, registrar a ocorrência com fotos ou vídeos e acionar os Bombeiros ou a Polícia Militar Ambiental. A recomendação vale também para filhotes, que nem sempre estão abandonados, muitas vezes os adultos do grupo permanecem nas proximidades procurando alimento.

“Nos últimos anos, a própria população tem ajudado a tornar essa biodiversidade mais visível. Registros feitos por moradores e pesquisadores documentaram espécies raras, como o gato-maracajá, o gato-mourisco e a araponga, reforçando que, mesmo em uma cidade marcada pelo crescimento urbano, ainda existe uma fauna rica que merece ser conhecida e preservada”, destaca o Biólogo.

A natureza no planejamento da gestão municipal

A presença de bugios, gatos-maracajás e outras espécies ameaçadas revelam a riqueza da fauna de Criciúma, mas também traz um desafio ao poder público: fazer com que o crescimento urbano local não prejudique os caminhos percorridos pelos animais.

Para a diretora de Meio Ambiente de Criciúma, Morgana Kjelin Mariot, a conservação da fauna começa pela proteção dos remanescentes de Mata Atlântica, que não devem ser analisados apenas pela quantidade de vegetação, mas também pela função ecológica que desempenham como áreas de abrigo, alimentação, reprodução e deslocamento das espécies. “A presença de espécies ameaçadas reforça ainda mais a importância da conservação dos remanescentes de vegetação nativa e faz com que essas áreas sejam analisadas não apenas pela quantidade de vegetação existente, mas também pela sua função ecológica”, pontua a diretora.

Segundo ela, o município já conta com instrumentos de planejamento voltados para essa proteção, como o Plano de Manejo da APA Morro Albino e Estevão, que reconhecem a importância da área para a conservação da fauna e da flora, além de sua conexão com outros fragmentos florestais.

A Diretoria de Meio Ambiente Municipal atua em diferentes frentes, incluindo a fiscalização ambiental, controle de intervenções em áreas sensíveis, recuperação de áreas degradadas, compensações ambientais, arborização urbana e análise dos impactos provocados por novos empreendimentos. Em casos envolvendo animais silvestres em situação de risco, o trabalho também ocorre de forma integrada com outros órgãos e instituições.

Um dos principais objetivos, segundo Morgana, é fortalecer a conexão entre os fragmentos de vegetação existentes no município. A partir das diretrizes já previstas no Plano de Manejo da APA, a proposta é avançar na identificação de corredores ecológicos e dos pontos onde o sistema viário interfere no deslocamento da fauna. “Precisamos avançar tecnicamente na identificação dos principais fragmentos de vegetação, dos pontos de conexão e também das regiões onde a urbanização pode interferir no deslocamento da fauna”, enfatiza Kjelin.

Ela afirma que a implantação de passagens de fauna é uma possibilidade que depende de estudos técnicos, especialmente em locais onde corredores naturais são cortados por rodovias ou outras estruturas urbanas.

A fauna também integra o processo de licenciamento ambiental sempre que um empreendimento apresenta potencial de impactar habitats naturais. Nessas situações, são avaliados fatores como a vegetação existente, a proximidade de áreas protegidas e recursos hídricos, a necessidade de supressão vegetal e a sensibilidade ambiental da área, podendo ser exigidos estudos específicos e medidas de mitigação.

Além da proteção física dos habitats, Morgana destaca que a informação é uma das principais ferramentas para reduzir conflitos entre moradores e animais silvestres. A orientação é que a população não capture, não alimente nem tente manipular animais encontrados em áreas urbanas, acionando os órgãos competentes apenas quando houver risco ou ferimentos. “Uma cidade ambientalmente equilibrada também é uma cidade capaz de conviver com sua biodiversidade”, enfatiza Morgana.

A diretora também defende o fortalecimento das parcerias entre a Prefeitura, universidades e pesquisadores, como a já existente com a Unesc (Universidade do Extremo Sul Catarinense), para ampliar o monitoramento das espécies e transformar conhecimento científico em políticas públicas.

Para ela, garantir que animais como o bugio e o gato-maracajá continuem existindo em Criciúma nas próximas décadas exige uma visão que vá além do resgate individual de animais. “Precisamos garantir território e condições ambientais para que essas populações continuem existindo”, reforça a diretora.

A preservação dos remanescentes de Mata Atlântica, a recuperação de áreas degradadas, a ampliação da arborização e o fortalecimento dos corredores ecológicos são caminhos para que o desenvolvimento urbano aconteça sem abrir mão do patrimônio ambiental que ainda resiste na cidade.

Uma cidade que também pertence aos animais

Há mais de 40 anos morando na região do Morro Cechinel, onde a mata faz parte da rotina diária, Mário Marques Costa aprendeu que viver próximo da fauna silvestre é conviver em uma cidade cheia de biodiversidade e natureza.

Para ele, encontrar animais próximos de casa deixou de ser uma exceção e passou a fazer parte da sua vida. “Eu acho um privilégio poder observar esses animais de perto e ver como eles se adaptam à cidade” conta Mário.

Os encontros mais frequentes do morador com os animais acontecem com aves, como: aracuãs, tucanos e saíras, além de lagartos que aparecem no entorno da casa. Já os quatis, espécie comum na região, ainda despertam surpresa sempre que aparecem. Quando um bugio foi visto nas proximidades, a reação foi diferente.

“Quando vi um bugio, aí sim causou impacto. É um animal lindo e bem difícil de ser visto pela região no dia a dia”, pontua Mário.

E mesmo com a proximidade da mata, Mário diz que nunca precisou mudar sua rotina por causa dos animais. O principal cuidado enfretado é outro. “O cuidado que eu tenho é tentar causar o mínimo de impacto possível na natureza e viver em paz com os animais”, enfatiza o morador.

Essa convivência também mudou sua forma de enxergar a biodiversidade local. Acostumado a assistir documentários sobre animais de outros continentes, ele conta que passou a olhar com outros olhos para as espécies que vivem em Criciúma. “Quando se fala em animal geralmente se pensa em um leão na África, ou um tigre na Ásia. Mas depois começa a conhecer a fauna daqui, começa a ter mais respeito e mais apreço pelo espaço natural da cidade”, disse Mário.

Ao longo dos anos, Mário também aprendeu a perceber os ritmos da natureza. As manhãs costumam serem marcadas pelo canto dos pássaros, enquanto a troca das estações costuma trazer mais movimento dos mamíferos, especialmente dos quatis.

Para ele, a convivência entre moradores e fauna melhorou nos últimos anos, as pessoas estão mais consciente e buscando cada vez mais conhecimento sobre o lugar onde vivem.

Reportagem de Amanda Souza