Certamente alguma mulher, ou até você mesma, já deve ter ouvido do companheiro…“Você está exagerando…”
A frase, aparentemente comum em muitos relacionamentos, pode esconder uma forma silenciosa de violência que costuma passar despercebida: a violência emocional.
A violência emocional dentro de relacionamentos ainda é uma realidade enfrentada por muitas mulheres ao redor do mundo. Diferente da agressão física, esse tipo de violência costuma acontecer de forma sutil, por meio de humilhações, manipulações, ameaças, controle excessivo e desvalorização constante da vítima. Mesmo que nem sempre deixem marcas visíveis, os danos psicológicos podem ser profundos e duradouros. Esse tipo de abuso ainda é frequentemente confundido como um cuidado, ciúme ou até demonstração de amor.
Quando a violência não deixa marcas visíveis
Nem toda violência deixa sinais no corpo. Em muitos casos, o abuso acontece de forma silenciosa, por meio de palavras, atitudes e comportamentos que afetam diretamente a saúde emocional e psicológica da vítima. A chamada violência emocional, que também é conhecida como violência psicológica, é caracterizada por ações repetidas, verbais ou não verbais, que têm como objetivo controlar, diminuir, intimidar ou desestabilizar alguém.
Embora frequentemente associada aos relacionamentos amorosos, esse tipo de violência pode acontecer em diferentes contextos e envolver diversas relações, como entre familiares, amigos, colegas de trabalho ou até figuras de autoridade. O impacto, no entanto, costuma seguir o mesmo padrão: perda gradual da autoestima, insegurança constante e dificuldade de reconhecer que se está vivendo uma situação abusiva.
Entre os sinais mais comuns estão: atitudes de controle excessivo, como monitorar mensagens e redes sociais, limitar o contato com amigos e familiares ou exigir justificativas para cada passo dado. Também fazem parte desse tipo de violência comportamentos como humilhações disfarçadas de brincadeira, críticas constantes, chantagens emocionais, ameaças, explosões de raiva imprevisíveis e a invalidação frequente dos sentimentos da vítima.
Um problema silencioso, mas cada vez mais visível nos números
Embora muitas vítimas ainda tenham dificuldade para reconhecer a violência emocional dentro de seus próprios relacionamentos, os dados mostram que esse tipo de abuso tem se tornado cada vez mais evidente e alarmante. Uma pesquisa realizada pelo Instituto DataSenado, que ouviu mais de 21 mil brasileiras, revelou que 88% das mulheres afirmam já ter sofrido algum tipo de violência psicológica ao longo da vida, tornando essa a forma de agressão mais relatada atualmente.
O levantamento também aponta uma mudança importante na percepção das vítimas. Até 2021, a violência física era a forma mais frequentemente identificada e denunciada. Nos últimos anos, porém, a violência psicológica passou a ocupar esse espaço, indicando que mais mulheres têm conseguido reconhecer comportamentos abusivos que antes eram naturalizados ou confundidos com cuidado e afeto.
Outro dado preocupante diz respeito ao impacto desse tipo de violência dentro do ambiente familiar. Segundo a pesquisa, 71% das agressões são presenciadas por terceiros, muitas vezes pelos próprios filhos da vítima. Ainda assim, cerca de 40% das testemunhas adultas não tomam nenhuma atitude para interromper ou denunciar a situação, o que evidencia como o silêncio e a omissão ainda fazem parte da manutenção desse ciclo.
Mesmo diante do sofrimento, a busca por ajuda formal ainda costuma demorar. Cerca de 70% das mulheres recorrem inicialmente à família, enquanto apenas três em cada dez procuram uma delegacia, geralmente quando a violência já atingiu níveis insustentáveis. Em 2025, as denúncias registradas pela Central de Atendimento à Mulher, Ligue 180 aumentaram 33%, indicando não apenas a dimensão do problema, mas também uma maior procura por apoio e orientação.
Considerada pela Organização Mundial da Saúde como uma das crises de direitos humanos mais persistentes e negligenciadas do mundo, a violência contra a mulher continua deixando marcas profundas, mesmo quando elas não são visíveis. Entender como esse abuso se manifesta, por que tantas vítimas demoram a identificá-lo e quais impactos ele pode causar é fundamental para romper o ciclo. Para a psicologia, reconhecer esses mecanismos é também uma forma de prevenção e cuidado.
Como identificar os primeiros sinais

Reconhecer a violência emocional nem sempre é simples. Segundo a psicóloga clínica Emanuelle de Oliveira, pessoas abusivas não demonstram, de imediato, comportamentos agressivos ou controladores. Pelo contrário: muitas vezes, o início da relação é marcado por demonstrações intensas de afeto, atenção e cuidado, o que pode dificultar a identificação dos primeiros sinais de abuso.
De acordo com a especialista, nos primeiros meses do relacionamento, é comum que o agressor se apresente como um parceiro ideal, oferecendo apoio constante, elogios frequentes e gestos que fazem a vítima se sentir valorizada e especial. Esse comportamento, porém, pode funcionar como uma forma de criar um forte vínculo emocional, tornando a vítima mais vulnerável às manipulações futuras.
É a partir dessa conexão que, muitas vezes, começam a surgir os primeiros sinais de violência emocional. Entre eles, estão as tentativas de distorcer situações, inverter responsabilidades e fazer com que a vítima duvide da própria percepção. “O abusador começa a manipular os acontecimentos, fazendo com que a vítima se sinta errada, exagerada ou até mesmo louca diante de determinadas situações”, explica.
A psicóloga destaca que, com o tempo, essas manipulações podem evoluir para agressões verbais, humilhações e desvalorização constante. Outro comportamento recorrente é a inversão de papéis, quando o agressor se coloca como vítima da situação e faz com que a pessoa agredida se sinta culpada pelos conflitos dentro da relação.
Esse processo gradual dificulta a percepção do abuso e contribui para que muitas vítimas permaneçam em relações marcadas por sofrimento emocional, acreditando que o problema está em si mesmas e não no comportamento do parceiro.
Esse texto faz um bom gancho com a parte dos dados e encaixa muito bem antes do bloco com as frases mais comuns dos agressores, porque a psicóloga já introduz a ideia de manipulação e inversão de culpa. Pode mandar o próximo áudio quando quiser.
A psicóloga também alerta para outro aspecto comum em relações abusivas: a tentativa do agressor de desacreditar qualquer pessoa que possa ajudar a vítima a enxergar a situação. Quando familiares, amigos ou até profissionais tentam alertá-la sobre sinais de violência emocional, o abusador costuma intensificar a manipulação para manter o controle sobre a relação.
Segundo a especialista, é comum que o parceiro desqualifique essas pessoas, afirmando que elas estão tentando interferir na relação ou “colocar ideias” na cabeça da vítima. Ao questionar a intenção de quem oferece apoio e reforçar a desconfiança, o agressor amplia o isolamento emocional e dificulta ainda mais o reconhecimento do abuso.
Esse mecanismo faz com que muitas mulheres passem a duvidar até mesmo daqueles que demonstram preocupação genuína, prolongando sua permanência em relações marcadas pelo medo, pela culpa e pela dependência emocional.
Embora muitas vezes sejam naturalizadas no cotidiano dos relacionamentos, algumas expressões podem funcionar como importantes sinais de alerta para situações de violência emocional. Frases que culpabilizam, diminuem ou fazem a vítima duvidar da própria percepção são frequentemente utilizadas como forma de manipulação e controle, contribuindo para o enfraquecimento gradual da autoestima e da autonomia.
Entre os exemplos mais comuns estão declarações como “você está exagerando”, “isso é coisa da sua cabeça” e “você está ficando louca”, que invalidam sentimentos e fazem a vítima questionar a própria realidade. Também são recorrentes falas que transferem a responsabilidade pelo comportamento agressivo, como “a culpa é sua” ou “você me faz agir assim”, criando um sentimento constante de culpa e confusão emocional.
Outro padrão frequente é o controle disfarçado de cuidado ou preocupação, presente em frases como “estou fazendo isso para o seu bem”, “só quero te proteger” ou “não gosto que você fale com essa pessoa”.
Em muitos casos, esse comportamento é acompanhado por tentativas de isolamento e desvalorização, expressas em falas como “ninguém vai te amar como eu”, “você não seria nada sem mim” ou “seus amigos não gostam de você de verdade”.
Embora possam parecer comentários isolados ou até demonstrações de afeto, a repetição dessas mensagens pode indicar um padrão de abuso psicológico. Reconhecer esses discursos é fundamental para identificar relações marcadas por manipulação, medo e controle, elementos incompatíveis com vínculos saudáveis.
O relato de quem viveu a violência em silêncio
Os sinais descritos pela especialista também aparecem de forma clara no relato de mulheres que vivenciaram esse tipo de abuso. Foi o caso de R.A, de 25 anos, que preferiu não revelar a identidade. Segundo ela, os primeiros indícios da violência emocional surgiram por meio de comentários constantes sobre sua aparência e comparações frequentes com outras mulheres, atitudes que, aos poucos, fragilizaram sua autoestima e influenciaram sua permanência na relação.
“O tempo todo fazia me sentir inferior e substituível, o que acarretou em me fazer acreditar nisso e acabar permanecendo e aceitando os abusos”, relata.
Mesmo percebendo que algo não estava bem, a entrevistada afirma que sair da relação não foi um processo imediato. “Não é porque a gente percebe que consegue sair no mesmo momento. A gente sempre pensa que ele pode mudar”, conta.
O depoimento evidencia como a violência emocional pode se instalar de forma silenciosa, comprometendo a autoconfiança da vítima e dificultando a identificação do abuso, especialmente quando manipulação e esperança passam a coexistir dentro da mesma relação.
O que diz a lei sobre a violência emocional
Segundo a bacharel em Direito, Bianca Elias Torres, de 25 anos, a legislação brasileira reconhece o abuso emocional dentro do conceito de violência psicológica. “A legislação brasileira, ao menos no que diz respeito à parte criminal, entende como abuso emocional qualquer forma de violência psicológica. Um termo é utilizado para explicar o outro no contexto do crime”, explica.
Dentro da Lei Maria da Penha, a violência psicológica não depende da existência de agressão física para ser retratada. Bianca destaca que, na maioria das vezes, a análise acontece a partir do contexto da relação. “Ameaças, descredibilização da mulher, colocá-la em uma posição de inferioridade e até praticar atos físicos contra objetos como forma de incentivar o medo podem ser considerados sinais de violência psicológica”, afirma.
Em processos judiciais, diferentes tipos de provas podem ser utilizados para comprovar o abuso emocional. Entre eles estão provas testemunhais, documentais e periciais. Conversas por aplicativos, boletins de ocorrência, relatos de familiares ou vizinhos e até mudanças perceptíveis no comportamento da vítima podem contribuir para a investigação.

As vítimas também podem solicitar medidas protetivas previstas em lei. Entre elas, Bianca cita o distanciamento do agressor e o acompanhamento profissional, como atendimento psicológico e psiquiátrico, como formas importantes de proteção e recuperação emocional.
Além dos prejuízos à saúde mental, o abuso emocional pode afetar diretamente em processos familiares, como guarda de filhos e separação. De acordo com Bianca, cada situação precisa ser analisada individualmente. “Às vezes o agressor pode ser ruim para a mãe, mas bom para o filho. Porém, em situações graves, pode sim ocasionar uma perda da guarda”, explica.
Para muitas mulheres, reconhecer que estão vivendo violência psicológica ainda é um desafio. Por isso, Bianca reforça a importância de uma rede de apoio segura. “É interessante que as vítimas tenham uma boa rede de apoio, facilitando para que elas não voltem a manter um relacionamento com o agressor”, destaca.
Ela também orienta que as vítimas busquem auxílio da Polícia Civil e de grupos de apoio especializados, que ajudam mulheres em situação de violência doméstica.
Apesar dos avanços nas leis de proteção às mulheres, o combate à violência emocional ainda enfrenta desafios, principalmente pela dificuldade em identificar e comprovar esse tipo de abuso. A pauta reforça a importância da informação, do acolhimento e da conscientização para que mais mulheres consigam reconhecer sinais de relacionamentos emocionalmente abusivos e buscar ajuda de forma segura.
O silêncio da mídia diante da violência emocional
A forma como a violência contra a mulher é retratada pelo jornalismo também influencia diretamente a maneira como a sociedade reconhece ou deixa de reconhecer diferentes tipos de abuso. Historicamente, a cobertura midiática tem dado maior visibilidade a casos de agressões físicas, feminicídios e episódios extremos de violência doméstica, especialmente quando há marcas visíveis, denúncias públicas ou desdobramentos policiais.
Embora essa cobertura seja essencial para denunciar e combater a violência de gênero, ela também evidencia uma lacuna importante: a violência emocional, apesar de ser uma das formas mais comuns e persistentes de abuso, ainda recebe pouca atenção nos noticiários e debates públicos.
Ao privilegiar, na maior parte das vezes, situações em que a violência já alcançou níveis extremos, parte da mídia acaba reforçando a ideia de que só há abuso quando existem ferimentos físicos ou ameaças explícitas. Com isso, formas mais sutis de agressão, como manipulação, humilhação, controle psicológico e isolamento social, permanecem invisibilizadas ou banalizadas, dificultando que muitas vítimas reconheçam que também estão vivendo uma relação abusiva.
Na avaliação da jornalista e coordenadora de redação Rafaela Custódio, embora ainda exista um longo caminho a percorrer, a cobertura sobre violência contra a mulher tem avançado nos últimos anos, especialmente com o aumento dos debates públicos sobre violência doméstica e feminicídio. Para ela, ampliar esse espaço na mídia é essencial para que mais mulheres reconheçam situações abusivas e encontrem coragem para buscar ajuda.
Segundo Rafaela, uma cobertura ética e responsável também deve ter o compromisso de combater qualquer tentativa de culpabilização da vítima. Para isso, destaca a importância de ouvir fontes especializadas e reforçar, de forma clara, que a responsabilidade pela violência nunca deve recair sobre quem sofre o abuso.
“É importante que os veículos de comunicação tragam essas informações e expliquem às mulheres que elas são vítimas e que não estão sozinhas. Existe uma rede de apoio às mulheres, de forma gratuita”, afirma.
A jornalista também destaca o papel das redes sociais na ampliação desse debate. Para ela, tanto veículos de comunicação quanto influenciadores que abordam o tema ajudam a romper o silêncio e a mostrar que existe saída para mulheres que ainda vivem sob medo, vergonha ou insegurança. “Quanto mais falarmos deste crime, mais mulheres terão coragem de denunciar”, reforça.
Ao transformar informação em acolhimento e orientação, o jornalismo deixa de apenas noticiar a violência e passa também a atuar como instrumento de conscientização, prevenção e incentivo à denúncia.
Essa ausência de debate contribui para a naturalização de comportamentos que, frequentemente, são tratados como conflitos comuns de relacionamento ou até confundidos com cuidado, ciúme e proteção.
Nesse contexto, o jornalismo tem um papel fundamental não apenas na denúncia, mas também na educação e prevenção. Dar visibilidade à violência psicológica, ampliar o espaço para especialistas e relatos de sobreviventes e produzir conteúdos que ajudem a identificar sinais de abuso são formas de romper com a invisibilidade desse problema e contribuir para que mais pessoas reconheçam relações marcadas pelo medo, pelo controle e pela manipulação.
Informar também é uma forma de proteger. E, quando o assunto é violência emocional, tornar visível aquilo que tantas vezes acontece em silêncio pode ser o primeiro passo para interromper ciclos de sofrimento.
Serviços disponíveis para apoio e orientação
Reconhecer a violência emocional é, muitas vezes, o primeiro e mais difícil passo para romper um ciclo de abuso silencioso. Em relações marcadas por manipulação, controle e invalidação constante, lembrar que sentimentos de medo, confusão e sofrimento não devem ser naturalizados é essencial. Nenhuma forma de violência deve ser minimizada.
Buscar ajuda profissional e contar com uma rede de apoio pode fazer toda a diferença no processo de proteção e reconstrução da autonomia. Para vítimas de violência doméstica e emocional, há serviços especializados disponíveis para acolhimento, orientação e encaminhamento.
Onde procurar ajuda?
Serviço de Informação às Vítimas de Violência Doméstica
(Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género)
800 202 148 (linha gratuita, disponível 24 horas)
SMS: 3060
E-mail: violência.covid@cig.gov.pt
Associação Portuguesa de Apoio à Vítima
21 358 7900
União de Mulheres Alternativa e Resposta
218 873 005
Linha de Emergência Social
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Reportagem produzida pelas acadêmicas do curso de Jornalismo da UniSATC: Amanda Souza e Caroline Henrique de Jesus
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