Por muito tempo, eles estavam apenas atrás de computadores ou camuflados tentando passar despercebidos enquanto folheavam suas histórias em quadrinhos. Mas hoje a realidade é outra. Os nerds conquistaram – e conquistam diariamente – seu espaço nas ruas, telas de cinema, música e até mesmo na moda.

Esse crescimento é fruto de uma paixão avassaladora que une pessoas de diferentes tribos e, principalmente, acolhe aqueles que se consideram diferentes do restante da sociedade. Afinal, quanto mais visibilidade a cultura nerd ganha, mais fácil fica de encontrar pessoas com os mesmos gostos e afinidades.

Foi com esse objetivo que o ilustrador e psicólogo, Reginaldo Arraes, fundou a primeira escola de arte voltada para o público nerd de Criciúma. Após perceber a necessidade de se ter um lugar para que essas pessoas trocassem experiências e adquirissem novas habilidades, ele criou o Estúdio Tanuki.

“Ensinaram as gerações passadas que ilustrar e desenhos eram coisas de crianças, mas é tudo questão de um aspecto cultural como um todo. O objetivo do estúdio é dar o incentivo necessário para que os alunos acreditem em seus sonhos e saibam que é possível construir uma carreira fazendo o que se gosta, seja na ilustração, games ou música”, realça.  

Reginaldo Arraes fundou a primeira escola de arte voltada ao público nerd de Criciúma

O primeiro contato de Arraes com a cultura nerd foi apenas na pré-adolescência, já que até aos 9 anos de idade, o ilustrador não tinha acesso à energia elétrica. Ele começou assistindo desenhos animados, como o X-Men de 1992, Street Fighter e também Dragon Ball. “São memórias que marcam minha vida até hoje”, completa. 

Quem são os nerds? Como saber se também sou?

Para ser considerado nerd, você não precisa passar horas na frente de um videogame, lendo histórias em quadrinhos e mangás, assistindo animes, filmes ou jogando o famoso RPG de mesa. Mas se você faz pelo menos uma dessas atividades, provavelmente integra alguma das categorias existentes nesse universo.

Segundo o proprietário de uma hamburgueria temática voltada para esse público em Criciúma, Everton Dias, existem diferentes tipos de nerds.  

  • Nerd “Old-School” que tem o gosto por temas mais clássicos;
  • Nerd “Geek” que é o mais atualizado e gosta de temas das últimas gerações;
  • “Otakus” que são fascinados por temas da cultura oriental;
  • “Gamers” que têm um gosto e amor pelos jogos em geral.
Dentre os nerds, a paixão pelos games é uma característica forte

O empresário, que estudou profundamente sobre o tema antes de abrir o estabelecimento, garante que esse nicho se torna mais popular a cada dia.

“Ser nerd não significa que você é antissocial ou estranho. Hoje, é mais um aspecto de popularidade e uma maior conectividade com o mundo, sem aquele problema de exclusão”, reforça.

E já que ser nerd está super permitido, Dias recomenda para aqueles que querem conhecer mais sobre esse mundo, os clássicos do cinema: Game of Thrones, Harry Potter, Senhor dos Anéis e toda a franquia de super-heróis da Marvel.

Ou se o interesse for em jogos, o recomendado é o Super Mário. Até porque você já deve ter ouvido esse som:

Já sobre animes, os indicados para começar são Naruto, One Piece, Pokémon e Dragon Ball. “Sempre o lado nerd que escolhe a pessoa, e nunca a pessoa que escolhe o seu lado nerd. Mas com essas dicas dá para se aventurar e se introduzir nesse maravilhoso mundo”, conclui.

As animações e a arte de ilustrar

Dos rabiscos na infância à profissão atual da vida adulta. Os desenhos e animações, que muitas vezes parecem apenas meios de entretenimento para os pequenos, podem se tornar fonte de inspiração em carreiras profissionais. Foi assim com o ilustrador e desenhista Raul Alves.

Apaixonado por histórias em quadrinhos, o primeiro contato do desenhista com a arte foi ainda na infância, quando tentava fazer releituras de desenhos de super-heróis, como X-Men. Além disso, clássicos como A Caverna do Dragão e Pica-Pau, foram fontes de inspiração para que ele criasse suas primeiras ilustrações.

O contato com a arte, que começou como hobby, hoje se tornou a profissão de Alves. Um trabalho que já o trouxe grandes conquistas. “A ilustração me permitiu estar em lugares que nunca imaginei que seria possível e, ainda, conhecer pessoas incríveis. Não consigo imaginar como seria minha vida sem essa faceta”, assinala.

Já para o ilustrador e professor de arte, Jonathan Rosa, viver da arte exige força de vontade e consistência. “Minha mãe sempre insistiu para que eu buscasse um “emprego normal”, pois na visão dela desenhar não era considerado uma profissão. E eu até tentei fazer outras coisas, mas sempre voltava para a arte”, relembra.

Para Jonathan Rosa, viver da arte exige força de vontade e consistência

De acordo com o ilustrador, a falta de reconhecimento e a desvalorização da arte em Criciúma fazem com que, muitas vezes, as pessoas ignorem suas vocações – e talento – e sigam por outros caminhos que não proporcionam felicidade.

Cosplay, um universo onde é possível fugir da realidade e se transformar em seus personagens preferidos

Quem nunca imaginou como seria fugir da sua realidade e se transformar em uma outra pessoa? No mundo dos nerds é possível, e essa prática é chamada de Cosplay. Os cosplayers investem pesado para se transformarem em seus personagens preferidos, mesmo que eles nem sejam pessoas reais, como no caso dos animes.

A cosplayer e produtora de conteúdo para mídias digitais, Isabella Zanini, descobriu sua paixão por se transformar em personagens ainda na infância, quando se fantasiava de Branca de Neve. Com o apoio dos pais, foi crescendo e evoluindo suas caracterizações. Hoje, com 21 anos, gosta de fazer cosplay de figuras com as quais mais se identifica.

Para fazer cosplay, a produtora de conteúdo recomenda que não é necessário se prender na aparência perfeita do personagem escolhido. Isso porque muitos adereços são caros e dificultam a produção da caracterização. “O divertido é apenas a emoção e a diversão do momento”, destaca.

Para esta reportagem, Bella, como gosta de ser chamada, escolheu fazer o cosplay da personagem Menma do anime Ano Hana. Uma personagem que a cosplayer se identifica por ser meiga e carismática.

Imagens do anime Ano Hana: Youtube

RPG de mesa: o jogo que é realizado apenas na imaginação

Diferente dos cosplayers, há quem prefira se transformar em personagens para participar de um jogo. Conhecido como RPG de mesa, o sistema de jogos de tabuleiro Dungeons and Dragons, criado em 1973, mudou a vida de muitos nerds espalhados pelo mundo.

O RPG é um jogo de interpretação, onde o jogador cria um personagem e se aventura por um mundo de fantasia. “Decidi jogar mesmo sem experiência e fiquei fascinado com as aventuras que o game proporciona”, relata o jogador Renan Reinaldo, que teve sua primeira experiência com o jogo em 2010.

O jogo possui apenas um livro com as instruções e é jogado com ‘dadinhos’ que indicam as ações dos personagens. Diante das indicações, os jogadores entram em combates, que são realizados apenas na imaginação.

O jogo RPG auxiliou no desenvolvimento da imaginação e criatividade de Renan Reinaldo

Para os mais tímidos, o RPG melhora a forma de se expressar e estimula a criatividade. “Não precisa ter vergonha e pode fazer o que quiser. Tem que fazer sem medo de o personagem ficar engraçado ou medo de alguém rir de você, isso é bom para perder a vergonha, ficar mais solto e interagir no jogo”, conta Reinaldo.

K-pop: música, dança e expressão

Atrás dos cabelos coloridos e da melodia animada que bomba nas plataformas musicais, o k-pop atrai uma legião de fãs pelo mundo, mesmo, muitas vezes, sem entender o que as letras das músicas significam. O estilo de música coreana explodiu em 2012, com o lançamento da música Gangnam Style do cantor Psy.

Atualmente, bandas como BTS, Blackpink e Monsta X movimentam o mercado musical e fazem o k-pop render mais de US$ 4,7 bilhões. Diante desse sucesso, a Coréia do Sul passou de 30º a 6º maior mercado de música do mundo, superando o Brasil.

O fenômeno impulsionou aos nerds um novo jeito de dançar, e alavancou o surgimento de inúmeras pessoas querendo aprender as coreografias. A professora de dança de kpop, Gabriela Bellettini, conta que o estilo tem o poder de mudar a vida das pessoas.

Imagens de videoclipes de bandas: Divulgação Youtube

Os nerds também gastam

Na medida em que o público nerd cresce, o comércio segmentado nesse nicho tende a aumentar em Criciúma. Atualmente, já são em torno de dez estabelecimentos que vendem produtos ou oferecem algum tipo de serviço específico para quem curte ilustrações, animes, filmes, jogos e k-pop.

Não é preciso ir muito longe para se deparar com lojas que vendem produtos exclusivos para o público nerd. É possível encontrá-las no Centro de Criciúma e até mesmo dentro de supermercados. Ou se a fome bater, tem também opções gastronômicas temáticas, onde os clientes podem comer enquanto jogam ou assistem animes.  

Hamburgueria temática serve como ponto de encontro para nerds que querem matar a fome enquanto jogam

Para o proprietário de um desses estabelecimentos, Lucas Luiz Dias, esse cenário tende a aumentar ainda mais. “Algumas séries e filmes por mais que sejam de temas aleatórios, acabam se tornando uma coisa “nerd”. Isso faz com que o crescimento dessa cultura seja uma tendência”, acredita.  

E se engana quem pensa que são apenas as crianças que aquecem o comércio desses produtos. Segundo Dias, o público-alvo da loja são os jovens e adultos. Desta forma, os artigos que são mais consumidos estão relacionados aos animes e super-heróis.

O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Criciúma, Tiago Mangaroni, acredita esses estabelecimentos estão crescendo porque são focados em um público segmentado. “Além de lojas com produtos específicos, há um grande triunfo: a boa experiência do cliente. Um local onde os clientes podem interagir e o consultor de vendas é especializado, que também ama esse tipo de “nicho” de mercado”, enaltece.

Para ele, que já teve a oportunidade de conhecer Tokyo, no Japão, é impressionante como o segmento cresceu em poucos anos.

Em Criciúma, aumentou o movimento de jovens e adultos em estabelecimentos segmentados para esse público

*Reportagem de: Filipe Gabriel e Patrick Stupp